O Som do Atacama

Por Daniel Marinho
Não se vê arvores daqui de cima, nenhuma. Há um vácuo cor de rocha de entardecer, entrecortado pelas escarpas afiadas das montanhas da Cordilheira. Com os cumes descoloridos pelo branco esparramado de neve,  faz vigília a mais uma travessia do LA152 da LAN rumo a San Pedro do Atacama, “hub” das expedições ao deserto mais seco do mundo.

O paredão andino alcança, em alguns casos, quase sete mil metros de pedra e água congelada; altitude muito próxima do meu capuchino, que acima do colo, sobre a mesinha afixada à poltrona do passageiro inquieto da frente, não precisava estar fervendo, já que agora saltita com mais vigor, por galhofa da turbulência típica do Cruce del Andes.

O comandante tira o motor e cala a turbina, aumentando, na proporção inversa, a apreensão de quem não gosta de lembrar os efeitos da gravidade nessa altitude. Pede para atar os cintos e a tripulação some correndo com o carrinho sortido de amendoins, que levado às cortinas do fim do corredor, não distrairá mais o nervosismo dos passageiros .

É quando, da janelinha, os picos que predominavam dão vez a uma profusão de minúsculos lagos trançados por corredeiras. Inquilinos do Planalto Atacamenho, imagina-se, devem resultar de algum degelo, já que chuva por aqui…

Na terra árida do Atacama não há traços retos. Há uma sucessão de fendas anônimas, rasgadas involuntariamente pelo tempo. Por vezes, colorem o deserto com tons que só a luz do sol enxerga ou, quando um olhar mais atento denuncia, revelam-se nas variações do ocre da terra seca de vegetação rasteira, aclarado por estrelas de todas as ordens de grandeza e pela raspagem do vento que já as entalha há algum tempo. Desabitadas, tem por vocação, hoje, a de passarela de Airbus.

O que chama atenção, porém, é o vazio. O silencio. O não preenchido. O fruto do intervalo no espaço. O parênteses do tempo. A aerodinâmica perfeita para a credibilidade do movimento. Uma ode do espaço à inércia.

Em nosso cotidiano urbano, que nos ocupa permanentemente de compromissos, horários, tarefas, informações de toda ordem, nada contrapõem melhor o caótico do que a vastidão inócua e surpreendente da imensidão lunar do deserto mais seco do mundo. Vazio que lava alma, descansa a vista e descasca – polo a polo – a ansiedade, revelando o excesso de desenecessidades acumuladas.

Tal como um papel pedra – daqueles que colávamos no isopor para os trabalhos de grupo da escola – as montanhas do deserto estão rabiscadas a esmo, segundo uma fundamentação libertária e infantil. Um tipo de estrada cujo fim não chega e que quando termina, até onde a vista alcança, não chega a nenhum lugar. Longas, afinam-se cada vez mais, até, por fim, desfocarem-se, espetando a bunda do horizonte.

Considerado o mais próximo do que se pode entender da Lua, o Atacama é a Terra em sua condição mais arcaica, mais ingênua, simples e essencial.

É o mesmo planeta. Despossuído de tudo que hoje o possui.

Aqui, a Terra está Nua. O resto é silêncio.

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27 de Dezembro de 2012
Atacama, Chile

Daniel Marinho

Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

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Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

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Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas