Londres: os ingleses em 8 lições

Por Daniel Marinho

Lesson 1 – Como falar como eles
 
Antes de qualquer coisa, ajeite a postura. Erga o nariz de Duke de alguma coisa “SHIRE”, dê uma franzida de testa, fazendo aquele tipo “espião-misterioso-do-fog-londrino-da-madrugada”.
Inspire o fog. Prenda o fog. Não solte o fog!
Simule um ovo mal cozido dentro da boca e vibrando o ar entre o palato central e a epiglote Real, repita:  Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Did Peter Piper pick a peck of pickled peppers? If Peter Piper picked a peck of pickled peppers, where the fuck the peck of pickled peppers Peter Piper picked?  Fuck, Peter!!
So what? Sentiu-se do tamanho da Abadia de Westminister? Já pode soltar o fog.
Lesson 2 – Como entender o que eles dizem
 
Os ingleses não sabem falar inglês. Aquele que se aprende no Brasil, não! Você se esforça, escuta com atenção, faz força para não rir, quando percebe, está quase pedindo para conversarem… em inglês! Mas segura a onda; assim é briga na certa e os ingleses são sempre mais altos que você!
Por outro lado, seu ‘american accent’ – com o qual nós brasileiros estamos acostumados – não ajuda. Corre-se risco ainda mais vexaminoso: ser tomado por um latino querendo tirar onda de americano, o que, na Inglaterra, atende por crime de lesa-pátria. Em síntese, não dá para voltar para o cursinho de inglês e estudar tudo de novo… Finja que parecem normal. Pensa assim, se o problema é sotaque, imagine que poderia ser pior… Lembre-se dos escoceses!
Lesson 3 – God save the Pounds!
 
Ainda assim, uma vez em Londres, você não vai querer mais ir embora dessas brumas esterlinas. Você, enfim, chegou à capital do rock, das lendas medievais, dos romances de espionagem,  mitos, Avalon, Távola Redonda,  Rei Arthur, Sherlock Holmes… e das Spice Girls.
Diante disso tudo, as excentricidades britânicas só tornarão sua experiência ainda mais estimulante. As vezes em que você é quase atropelado por olhar para o lado errado na mão inglesa, os picos de pressão ao converter a Libra para o Real, a cerveja estupidamente quente, aquele sistema métrico bacana (pés, milhas, jardas, ounces, lembra?) e a degustação da alta gastronomia inglesa, que tem como iguaria expoente o “Kidney Pie”; em português: Torta de Rim. Servido?
Lesson 4 – I Beg your Pardon!
 
Com o tempo você também acaba assimilando alguns hábitos Reais e incorporando comportamentos insuspeitos. Começa a desenvolver um senso de humor esquisito, a fazer ironia em missa de velório, a se preocupar em pedir desculpas até para a calçada por pisar nela, a fazer piada que só metade dos seus amigos entende – como este texto! -, e se pega dizendo “I beg your pardon, madam!” antes de dirigir a palavra a uma criança. Normal.
Lesson 5 – Há ingleses em Londres?
 
Como também é do conhecimento de todos, os ingleses, além de não falarem inglês, também não estão em Londres. A capital da Inglaterra –  do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte – é, na verdade,  terra nativa de indianos, paquistaneses, turcos, árabes, sul-africanos, tailandeses e de alguns americanos redimidos. Dependendo do bairro, você até encontra um ou outro irlandês. Inglês mesmo, só no campeonato de Cricket da TV.
Lesson 6 – O Umbigo Britânico
 
O inglês que se preza é orgulhoso de suas raízes e um tanto quanto centrado em si mesmo (é como um americano, só que mais magro). Não é a toa que, com a modéstia que lhe é peculiar, decidiu, certa vez, – em nome do planeta inteiro – que o dia deveria começar… por ali mesmo. Num meridiano que estava de bobeira, fumando o haxixe colonial em Greenwich.
Lesson 7 – A coerência Britânica
 
O inglês que se preza suspeita de tudo que vem de fora e só valoriza as genialidades produzidas pela prodigiosidade anímica britânica. O que é curioso já que, quando Libra sobra, ele só compra carro alemão, só vai a Pub Irlandês, só toma cerveja belga e kebab turco com Cury indiano. Chocolate inglês? (argh!) Só se for suíço! Para comer assistindo as minisséries americanas na TV. Chinesa, claro!
Lesson 8 – Enfim, a Educação Real
 
O inglês que se preza não confere o troco quando compra (não é de bom tom); não barganha preço de nada (For god sake!); é incapaz de criar um escândalo verbalmente (só nos tablóides); não reclama de serviço mal prestado com o gerente (vai direto ao Juiz, gesto mais britânico) e não discute com outrem em público (that´s repugnant!) – a não ser dentro do Pub, onde todas as alternativas acima estão erradas.
Enfim, ingleses são tão ingleses, que só não são mais ingleses por educação!
Apologize!

 

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site CurtaCrônicas.com