Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

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Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

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Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas

Londres: os ingleses em 8 lições

Por Daniel Marinho

Lesson 1 – Como falar como eles
 
Antes de qualquer coisa, ajeite a postura. Erga o nariz de Duke de alguma coisa “SHIRE”, dê uma franzida de testa, fazendo aquele tipo “espião-misterioso-do-fog-londrino-da-madrugada”.
Inspire o fog. Prenda o fog. Não solte o fog!
Simule um ovo mal cozido dentro da boca e vibrando o ar entre o palato central e a epiglote Real, repita:  Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Did Peter Piper pick a peck of pickled peppers? If Peter Piper picked a peck of pickled peppers, where the fuck the peck of pickled peppers Peter Piper picked?  Fuck, Peter!!
So what? Sentiu-se do tamanho da Abadia de Westminister? Já pode soltar o fog.
Lesson 2 – Como entender o que eles dizem
 
Os ingleses não sabem falar inglês. Aquele que se aprende no Brasil, não! Você se esforça, escuta com atenção, faz força para não rir, quando percebe, está quase pedindo para conversarem… em inglês! Mas segura a onda; assim é briga na certa e os ingleses são sempre mais altos que você!
Por outro lado, seu ‘american accent’ – com o qual nós brasileiros estamos acostumados – não ajuda. Corre-se risco ainda mais vexaminoso: ser tomado por um latino querendo tirar onda de americano, o que, na Inglaterra, atende por crime de lesa-pátria. Em síntese, não dá para voltar para o cursinho de inglês e estudar tudo de novo… Finja que parecem normal. Pensa assim, se o problema é sotaque, imagine que poderia ser pior… Lembre-se dos escoceses!
Lesson 3 – God save the Pounds!
 
Ainda assim, uma vez em Londres, você não vai querer mais ir embora dessas brumas esterlinas. Você, enfim, chegou à capital do rock, das lendas medievais, dos romances de espionagem,  mitos, Avalon, Távola Redonda,  Rei Arthur, Sherlock Holmes… e das Spice Girls.
Diante disso tudo, as excentricidades britânicas só tornarão sua experiência ainda mais estimulante. As vezes em que você é quase atropelado por olhar para o lado errado na mão inglesa, os picos de pressão ao converter a Libra para o Real, a cerveja estupidamente quente, aquele sistema métrico bacana (pés, milhas, jardas, ounces, lembra?) e a degustação da alta gastronomia inglesa, que tem como iguaria expoente o “Kidney Pie”; em português: Torta de Rim. Servido?
Lesson 4 – I Beg your Pardon!
 
Com o tempo você também acaba assimilando alguns hábitos Reais e incorporando comportamentos insuspeitos. Começa a desenvolver um senso de humor esquisito, a fazer ironia em missa de velório, a se preocupar em pedir desculpas até para a calçada por pisar nela, a fazer piada que só metade dos seus amigos entende – como este texto! -, e se pega dizendo “I beg your pardon, madam!” antes de dirigir a palavra a uma criança. Normal.
Lesson 5 – Há ingleses em Londres?
 
Como também é do conhecimento de todos, os ingleses, além de não falarem inglês, também não estão em Londres. A capital da Inglaterra –  do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte – é, na verdade,  terra nativa de indianos, paquistaneses, turcos, árabes, sul-africanos, tailandeses e de alguns americanos redimidos. Dependendo do bairro, você até encontra um ou outro irlandês. Inglês mesmo, só no campeonato de Cricket da TV.
Lesson 6 – O Umbigo Britânico
 
O inglês que se preza é orgulhoso de suas raízes e um tanto quanto centrado em si mesmo (é como um americano, só que mais magro). Não é a toa que, com a modéstia que lhe é peculiar, decidiu, certa vez, – em nome do planeta inteiro – que o dia deveria começar… por ali mesmo. Num meridiano que estava de bobeira, fumando o haxixe colonial em Greenwich.
Lesson 7 – A coerência Britânica
 
O inglês que se preza suspeita de tudo que vem de fora e só valoriza as genialidades produzidas pela prodigiosidade anímica britânica. O que é curioso já que, quando Libra sobra, ele só compra carro alemão, só vai a Pub Irlandês, só toma cerveja belga e kebab turco com Cury indiano. Chocolate inglês? (argh!) Só se for suíço! Para comer assistindo as minisséries americanas na TV. Chinesa, claro!
Lesson 8 – Enfim, a Educação Real
 
O inglês que se preza não confere o troco quando compra (não é de bom tom); não barganha preço de nada (For god sake!); é incapaz de criar um escândalo verbalmente (só nos tablóides); não reclama de serviço mal prestado com o gerente (vai direto ao Juiz, gesto mais britânico) e não discute com outrem em público (that´s repugnant!) – a não ser dentro do Pub, onde todas as alternativas acima estão erradas.
Enfim, ingleses são tão ingleses, que só não são mais ingleses por educação!
Apologize!

 

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site CurtaCrônicas.com

Conversa de Bar (e o teste do elevador)

Dizem que isso tudo começou com os Sumérios que já entornavam a jarra na taverna muito antes de a Baviera e o Lula existirem. Daí pra frente, só variou de nome: conversa de birosca, bodega, bar, baiúca, tasca, cantina, “butiquim” (com “u” e “i” que lhe são de direito), barzinho, pub, boteco, bistrô, taberna, pé sujo, e por aí vai…

E vai até onde der mesmo, porque conversa de bar só anda de ida e não assume compromisso com lugar algum. Ronda trôpega pelos mesmos grandes temas da humanidade de sempre – ainda que disfarçados aqui e acolá de alguma erudição – e segue como que numa novela eterna de próximos capítulos, intervalada pelos compromissos da luz do dia.

Ainda assim, realmente creio que o chamado bate-papo é mesmo uma cria do bar. Imagina uma reunião de ‘cumpadres’ às margens do Rio Eufrates antes da invenção da escrita, do rock, do cinema, do futebol, da política, da fidelidade, da igreja, das musiquinhas insuportáveis do momento… Falar-se-ia de quê? Era uma falta de assunto Sumérica! Daí a fermentação da cevada datar-se de mais de 4 mil anos antes de Cristo. Sem ela, a humanidade nem arriscaria a evolução. Pergunta aos aborígenes que não a conheceram?

Foi assim que primeiro Deus criou a cerveja; de onde nasceu a contemplação; que, por sua vez inventou o conflito; de onde nasceu o assunto, para este, por fim, assentar os alicerces de sustentação da conversa de bar… Só daí então, chegamos a esse mundo dos aplicativos do IPhone. Tá tudo nos Manuscritos do Mar Morto…

Porque o bar é uma de nossas ágoras contemporâneas; e é na conversa de boteco – ou de ambientes de conseqüências análogas – que se extravasam os anseios e angústias mais viscerais, sem se dar muita trela para o que pensa o Pajé da tribo. Um ambiente social de confluência de ideias, ainda que nem sempre durem mais de uma noite.

E as demais oportunidades de parola? Não são iguais. A conversa de boate, por exemplo. Um paradoxo em si; ouve-se alguma coisa? Não há. A conversa de fila de repartição pública? Uma ode à reclamação da vida, do tempo, do governo, da dor nas costas… também não é conversa.

Aliás, há algo mais blasé do que a conversa de elevador? Tem coisa mais chata, mais sem assunto do que ficar batucando na porta pantográfica ou discutindo se vai ou não chover amanhã?

Conversa de portaria há, mas com ressalvas! Futebol, novela ou no máximo, falar mal do governo; e mesmo assim que não se entre em detalhes porque a conversa volta ao futebol!

Conversa de ônibus, que pode contar com assiduidade dos atrasos do transporte público, até dá pano pra manga, mas conversa de taxista, convenhamos, não dá. Chega uma hora que o assunto se esconde, não agüenta mais ficar ali e termina virando conversa de elevador também!

No bar já não é assim, você distrai e já se vê correlacionando Deleuze com a conta de Gás. Tem espaço para tudo, ainda que muitas das vezes ninguém tenha propriedade alguma sobre o assunto. Até porque em dado momento ninguém liga. E com exceção da conversa de mictório – de longe a mais medíocre do gênero – no bar é, pelo menos, mais difícil alguém sair-se com a perguntinha infame: “será que chove amanhã?”.

Por que é assim funciona o ardiloso Teste do Elevador. Por quanto tempo? Até quando o sujeito resiste até abrir o pleito da previsão do tempo?

Eu, se fosse Meteorologista, só usava escada!

Daniel Marinho

O Conto da Vigária

Há quem diga que vingança é um prato que se come frio. Mas é que às vezes a oportunidade bate a porta e aí é pegar ou largar, só dá tempo de uma assoprada; come-se morno mesmo.

Foi assim com a Marcela numa dessas festas caretas de boatezinha da moda na Barra da Tijuca. Aquele tipo de boate que se você chegar de tênis ou barba por fazer é capaz de te darem voz de prisão!

– E aí gaaaaata, eu não te conheço de algum lugar, princêêêsa? (sussurrou ele, fazendo cara de Wando)

Luis Alfredo; notadamente um mala. Uma valise sem alça e assunto, expondo a chave do Audi por fora da calça jeans da ‘Diesel’ e os braços apertados por uma daquelas camisetas do tipo mamãe-sou-forte (da… ‘Diesel’, digamos).

Mauriçoca até o último fio de cabelo bem penteado, que por ter nascido com tudo o que quis – e o que não quis -, cresceu com a certeza de que a Terra só estava lhe aguardando para recomeçar a girar. Ainda assim, dado seus prin$ípios, estava acostumado a sempre – sempre mesmo – faturar na noite com as garotas dos condomínios do bairro emergente.

Àquelas horas, porém, com a casa quase por fechar, Marcela – gata paulistana escaldada das baladas cosmopolitas (de Ibiza à Istanbul, de onde inclusive acabara de chegar de mais uma turnê da sua Cia de Dança Contemporânea) – fez que não ouviu. Nunca o tinha visto na vida; nada lhe interessara dentro daquele invólucro. Era fazer-se de sonsa, virar o rosto, dar de ouvidos. Nada que qualquer mulher com seus atributos não tenha de fazer quase todo dia.

Mas “chato” para Luis Alfredo era um eufemismo… O garotão insistia com olhares, bocas e poses de Julio Iglesias a cada desdém da morena de longos cabelos lisos e tatuagem no pescoço. Afinal, não era possível! E o Audi?

Quando Luis Alfredo começou a recitar, em voz alta, versos do Roupa Nova, Marcela – já contendo a taça de Pina Colada que teimava em atirar-se involuntariamente de sua mão rumo à face do rapaz – resolveu ponderar. Ao andar da carruagem, quase aliás já virando abóbora, resolveu  pagar para ver. Pagar para ver e assistir de camarote. Quem diz o que quer…

– Claro! Eu me lembro de você! Nossa você é o…
– Luis Alfredo!
– Isso… Luis Alfredo… Claro!
– Você lembra?

Luis Alfredo perguntou,  surpreso.

– Claro! Lá da…da… escola, não?
– Você também estudou no Sacre Couer de Marie?
– Sacre Couer… isso! Aí que saudades das freiras… (ela mal podia acredita no que estava dizendo)
– Aha! Suspeitei desde o princípio!

Emendou Luis Alfredo, ao balançar os braços para simular o herói de anteninhas daquele programa que provavelmente o inspirara como projeto de vida e conhecimento.

– Mas então… Você não mudou nada, hein, Pintinho? Ainda continua com aqueles tiques estranhos?
– Tiques?  Pintinho?
– É! Aliás, você ainda lembra daquele gordinho metido a besta da turma (toda escola tem um gordinho metido a besta). E do João (esse aí, então…), lembra dele?
– É… Lembro. Mas você…
– Ana ! (Sempre haverá uma Ana). Meu nome é Ana! Lembrou?
– Da 6ª F?
– Isso! A que pegava o ônibus com aquela garota que você dava em cima? Como é mesmo o nome dela? Era a..
– Fernanda!?
– A Fernandinha! Quanto tempo eu não vejo a Nanda…
– Coincidência, hein, Ana!

Luis Alfredo estava preocupado.

– Nossa! Olha, nem te conto! Ela fazia a tua caveira viu! Aliás dava dó… Você de quatro, rastejando daquele jeito e todas as meninas da sala te sacaneando! Você também sempre foi meio esquisito, vai confessa…
– Como assim? Tá gozando com a minha cara?!
– Eu sei, não era fácil, não é?  Ninguém queria nem ser visto contigo, Pintinho…
– Mas… 
– Olha eu não zoava, não! Ficava com pena, mesmo… Era horrível o que falavam por trás de você! E era muito injusto, porque você não ficava sabendo… Mas agora os tempos são outros, Pintinho!
– Perá lá! Que negócio é esse de Pintinho?
– Sei lá os meninos que te chamavam assim. Pediam para não te dizer nada. Gente… Você nunca soube né?  Tadinho… Aliás, é mesmo! Por que será que te chamavam de Pintinho, Luis Alfredo?
– Mas eu não tenho… Eu não sou Pintinho!!!!
– Gente, até a professora de matemática pedia para eu te evitar. Essa gente não tem sentimento!
– Quem?
– Não lembra da professora carrasco da sexta-série?
– A Professora Vânia????
– Aham! Ela mesma!
– Mas como assim, me evitar?
– Olha, eu nem levava a sério, Pintinho. Mas é que…
-Para de me chamar assim!
– Achava meio escárnio das meninas. Além do que aquele fedor todo era gazes. Todo mundo tem…
– Fedor?
– É! Por que você acha que nenhuma menina queria ficar contigo?
– Mas ficavam sim!
– Ficava nada, Pintinho!
– LUIS!!
– Tá , Luis… Então, lembra a festa surpresa da Carolzinha?
– Não.
– Das festas do pijama na casa de Búzios do pai da Luana?
-Não!
– E das festas da lingerie na casa da Kelly?
– Não…
– E quando agente fingia que ia fazer trabalho de grupo na biblioteca e se escondia lá no vestiário do ginásio para brincar de salada mista?  Todo mundo chapadão… Todo mundo muito louco!!!
– NÃÃÃÃÃO!!!
– Pois é!
– Pois é o que?
– Ninguém te convidava, Pintinho!
– LUÍÍÍÍSSSS!!!
– Desculpa! Aí… Coitado! Nunca soube de nada…  

Sua euforia minguara. Luis não podia acreditar. Era duro demais para o velho pegador do Audi Conversível Vermelho. Até a professora Vânia?!  Nem o Marcelão-quebra-queixo lhe contara nada!

Como seria de agora em diante? Lidar para sempre com os traumas do passado? E ainda que tudo estivesse mal explicado, Pintinho (perdão, Luis!) estava desolado…

– Mas eu nunca soube de nada, Ana! Nunca ninguém me contou!  Por quê, meu Deus? Por quê?
– É Pintinho… Vou te dizer uma coisa, o que é o ser humano…

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Daniel Marinho

Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

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A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho