Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

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Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

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Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas

A “renomização” das ruas caretas do Rio

Por Daniel Marinho

Silêncio no Tribunal, arreiem as calças do general! E as placas de esquina também porque não dá mais tanta rua com o nome do camarada… Dele e de aristocratas vencidos, políticos bicentenários de mérito duvidoso e latifundiários escravocratas do século XVIII.

Ainda mais num lugar alcunhado de… Rio de Janeiro. Que sacada de marketing involuntária a do destino. Deixar um descobridor português perdido, cinco séculos atrás, confundir nossa baía no ápice do verão carioca. Vai que a Nau se atrasasse! Já pensou nisso? Moraríamos no Rio de Agosto? Meio hibernal. Para uma cidade que se vende de praias tropicais…

É o que eu digo, o nome é essencial. Imagine – num passado não muito distante – um pesadelo no qual a família Sarney dominaria, para além do Maranhão, a politicalha da Guanabara. E a capital seria rebatizada de “José do Ribamar Sarney”. Daria bossa? “Minha alma canta… vejo José do Ribamar…” João Gilberto ficaria rimando “quén, quén” em Juazeiro mesmo e Jobim acabaria fazendo concurso para escriturário…

E o que dizer dos bairros cariocas? É som com sabor: “I-pa-ne-ma”; “Gu-a-ra-ti-ba”; “Ma-ra-ca-nã”; “Hu-ma-i-tá”; “Gra-ja-ú”… Temos de mastigar “a” quatro vezes para falar “Co-pa-ca-ba-na”. Mas e se homenageassem Honório Gurgel por ali mesmo, entre o Leme e Ipanema?  Seu Honório se sairia uma boa Princesinha do Mar?

Nome bom já é metade do resultado garantido; uma rua com o nome de Leopoldo Bulhões não vai vencer na vida! É por isso que proponho aqui uma reclassificação de nossos asfaltos, em favor da poesia a que faz jus essa cidade fluvial: o Riacho Leitoso (era uma baía) de Janeiro. Aliás, não só dele. Do ano inteiro.

A Avenida Delfim Moreira, por exemplo. Tanto lugar para homenagear Dr Delfim e vão escolher o metro quadrado mais caro do País… A praia do Leblon é da família do Dr? Então vamos ao brainstorming:  Avenida da Maré Mansa e Água Fresca,  Avenida Sombra de Coqueiro, Boulevard Ninfas du Biquíni, Travessa do Banho de Sol Travêsso?

A Rua Bulhões de Carvalho – inconteste campeã mundial dos trocadilhos infames! Por que insistir nesse auto-vexame? Parece masoquismo… Muda para Boulevard das Tulipas Provençais, Rua du Brie com Damasco, Travessa La Dolce Vida, Avenida Sauvignon Blanc, sei lá! Garanto que o metro quadrado valoriza!

Por que a Almirante Alexandrino, de Santa Teresa, não vira logo “Estrada da Good Trip”? Todo mundo acha que o povo de lá só anda chapado mesmo… Na praia dos surfistas, no Arpoador: Rua Aloha! As curvas longas da via do Aterro do Flamengo dariam origem, não a outra Linha cromática do Lacerda, mas a “Linha das Silhuetas do Burle” e a Viera Souto, em homenagem a “fumacinha” da rapaziada, Boulevard du Paz e Amor!

E essa coisa sem sentido de homenagear artista com o nome completo que ninguém conhece? O Cazuza ganhou a Escola Estadual Agenor de Miranda Araújo Neto. E aí eu pergunto: quantos ligam o nome à pessoa? Não é tão difícil assim vai: “Escola Pro Dia Nascer Feliz”, “Escola Um Trem para as Estrelas”, “Escola Todo Amor que Houver nessa Vida”. Se fosse rua, votava na “Rua do Sabor de Fruta Mordida” ou na Avenida do Exagerado – com os limites de velocidade da lei, claro.

E não é? Por que ao invés de Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, não descemos no Aeroporto do Samba do Avião? Pensa que é sacanagem? Aposto dinheiro que muito gringo estaria fazendo fila para tirar foto em frente à placa do aeroporto!

E quando o Caetano morrer? Será a Avenida Caetano Emanuel Vianna Teles…? Depois de tanta dica do cara: Estrada da Meia Lua Inteira; Rua Samba de Verão; Avenida Trem das Cores; Rua Sem Lenço e Sem Documento; Estrada das Outras Palavras?

Daí então, a Avenida Lucio Costa, na Praia da Barra,  viraria a “Avenida Bronzeada de Sol; a Av Mem de Sá – point dos fanfarrões da Lapa – Avenida da Gargalhada Gaiata e a Niemayer, Estrada Desfiladeiro do Paraíso.

Há também as ruas mais gustativas! Convenientes aos Pólos Gastronômicos – como o de Botafogo, por exemplo – onde agora o Plebeu, o Informal e o Ipiati seriam recortados pela “Travessa ao Molho Pesto”, “a Rua à Piamontése”, a “Via do Cupcake de Limão”, e – representando a alta gastronomia – a “Travessa Creme de la Creme”.

Parada de Lucas ganharia, enfim, a Avenida Pétalas da Primavera; os inferninhos de Copa, a Travessa Travêssa do Prazer Imediato. As avenidas Churchil e Presidente Roosvelt – que não nos dizem respeito em nada – dariam voz a Jackson do Pandeiro com o cruzamento da “Avenida Só ponho o beebop no meu samba” com a “Rua Quando o Tio Sam pegar no tamborim”. E a Tijuca honraria não um fazendeiro que ninguém viu mais gordo, o Barão de Mesquita, mas seu filho mais nobre – e gordo também -, o “Síndico”, para matar as saudades da praia distante na “Rua Azul da Cor do Mar”.

Ingenuidade? Melhor começar por ela mesmo…

Aplainando a longa a Estrada da Utopia.

Daniel Marinho
Crônica originalmente publicada no Curta Crônicas

Conversa de Bar (e o teste do elevador)

Dizem que isso tudo começou com os Sumérios que já entornavam a jarra na taverna muito antes de a Baviera e o Lula existirem. Daí pra frente, só variou de nome: conversa de birosca, bodega, bar, baiúca, tasca, cantina, “butiquim” (com “u” e “i” que lhe são de direito), barzinho, pub, boteco, bistrô, taberna, pé sujo, e por aí vai…

E vai até onde der mesmo, porque conversa de bar só anda de ida e não assume compromisso com lugar algum. Ronda trôpega pelos mesmos grandes temas da humanidade de sempre – ainda que disfarçados aqui e acolá de alguma erudição – e segue como que numa novela eterna de próximos capítulos, intervalada pelos compromissos da luz do dia.

Ainda assim, realmente creio que o chamado bate-papo é mesmo uma cria do bar. Imagina uma reunião de ‘cumpadres’ às margens do Rio Eufrates antes da invenção da escrita, do rock, do cinema, do futebol, da política, da fidelidade, da igreja, das musiquinhas insuportáveis do momento… Falar-se-ia de quê? Era uma falta de assunto Sumérica! Daí a fermentação da cevada datar-se de mais de 4 mil anos antes de Cristo. Sem ela, a humanidade nem arriscaria a evolução. Pergunta aos aborígenes que não a conheceram?

Foi assim que primeiro Deus criou a cerveja; de onde nasceu a contemplação; que, por sua vez inventou o conflito; de onde nasceu o assunto, para este, por fim, assentar os alicerces de sustentação da conversa de bar… Só daí então, chegamos a esse mundo dos aplicativos do IPhone. Tá tudo nos Manuscritos do Mar Morto…

Porque o bar é uma de nossas ágoras contemporâneas; e é na conversa de boteco – ou de ambientes de conseqüências análogas – que se extravasam os anseios e angústias mais viscerais, sem se dar muita trela para o que pensa o Pajé da tribo. Um ambiente social de confluência de ideias, ainda que nem sempre durem mais de uma noite.

E as demais oportunidades de parola? Não são iguais. A conversa de boate, por exemplo. Um paradoxo em si; ouve-se alguma coisa? Não há. A conversa de fila de repartição pública? Uma ode à reclamação da vida, do tempo, do governo, da dor nas costas… também não é conversa.

Aliás, há algo mais blasé do que a conversa de elevador? Tem coisa mais chata, mais sem assunto do que ficar batucando na porta pantográfica ou discutindo se vai ou não chover amanhã?

Conversa de portaria há, mas com ressalvas! Futebol, novela ou no máximo, falar mal do governo; e mesmo assim que não se entre em detalhes porque a conversa volta ao futebol!

Conversa de ônibus, que pode contar com assiduidade dos atrasos do transporte público, até dá pano pra manga, mas conversa de taxista, convenhamos, não dá. Chega uma hora que o assunto se esconde, não agüenta mais ficar ali e termina virando conversa de elevador também!

No bar já não é assim, você distrai e já se vê correlacionando Deleuze com a conta de Gás. Tem espaço para tudo, ainda que muitas das vezes ninguém tenha propriedade alguma sobre o assunto. Até porque em dado momento ninguém liga. E com exceção da conversa de mictório – de longe a mais medíocre do gênero – no bar é, pelo menos, mais difícil alguém sair-se com a perguntinha infame: “será que chove amanhã?”.

Por que é assim funciona o ardiloso Teste do Elevador. Por quanto tempo? Até quando o sujeito resiste até abrir o pleito da previsão do tempo?

Eu, se fosse Meteorologista, só usava escada!

Daniel Marinho

Dois Pierre ao quadrado é poliedro para cateto, Duda!!

 

Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?

Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.

Duda Spreafico é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.

É… Duda está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?

Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para ele, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”

Duda gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.

Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Duda, ao que consta, sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – dentre outros impropérios – a cor das calcinhas das moçoilas…

Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se por um lado Sr Spreafico  tem cabeça de polinômio, por outro tem coração de manteiga. E, em meio às ruelas antigas do Cosme Velho – ou de Friburgo -, emociona-se com os contrastes da vida, com as interlocuções poético urbanas e as fábulas do cotidiano, tal como um senhor de idade com espírituosidade de um menino curioso.

E por mais que pose de calculadora científica, Duda-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.

 

Daniel Marinho


(Esse texto é uma homenagem especial a Luigi Spreafico e aos escribas do Curta Crônicas, com quem tive a oportunidade de germinar grandes momentos e projetos ao longo do ano)

Magazine Compulsiva: o atacadão dos perturbados

Você é daquele tipo de gente que não pode ver uma porta de armário aberta ou um par de chinelos virado do avesso? Só entra nos lugares com o pé direito? Rói as unhas? Ou prefere os copos de plástico? Tem essa mania de ficar estalando os dedos o tempo todo?

Talvez você já fora alçado a uma condição de maior conceito e adquirira cacoetes mais nobres: quando atravessa a rua pela faixa de pedestres, só pisa em cima das listras brancas, não é? Você tem de esperar o telefone tocar quatro vezes e dar uma coçadinha na orelha antes de atender a chamada? Não termina nada em número impar e afirma que o grande dilúvio final chegará se não deixar suas cédulas de dinheiro convenientemente organizadas por ordem de antiguidade na carteira ou for forçado a pisar dentro daqueles losangos desenhados no piso do hall do prédio?

Ou isso tudo ainda é fichinha para você! Você é tão ‘exótico’, tão disforme que, quando fala das suas manias, é capaz de fazer corar até o Roberto Carlos! Você precisa ajustar o volume da TV em algum número múltiplo de sete; precisa limpar, uma por uma, todas as cerdas da sua escova de dente antes de bochechar e cuspir a pasta!  Você está certo de que se não lavar as mãos três vezes seguidas, com sabonetes glicerinados de cores diferentes, depois de  dar duas corridinhas ao redor da mesa de jantar antes de dormir, uma bigorna gigante cor de chumbo cairá sobre a sua cabeça!

Você é uma pessoa perturbada… É!  É sim…  E nem precisa fazer vista grossa, fingir que não ouviu, sair de fininho… Sabemos de coisas sobre você que até Deus e o diabo duvidariam…  Aliás, dá para parar com esse tremelique na  perna enquanto falo contigo?

Não esquenta… Somos discretos. Temos anos de experiência e nosso foco é nos resultados – ainda que repetitivos! Só a Magazine Compulsiva lembra de você!

Só a Compulsiva dispõe da mais seleta linha de itens especialmente dedicados às pessoas perturbadas. Não perca essa oportunidade! Tranque e destranque a porta da sala três vezes – para confirmar se ela está realmente fechada – e confira já algumas de nossas ofertas em destaque.

Na sessão de obsessões femininas, já está à venda (ao menos nas filiais de bairros que começam com a letra F e não tenham o número 13) um aplicativo para celulares smartphone, programado para ligar automaticamente para o seu marido de 30 em 30 minutos! O software já vem com um pre-set de perguntas gravadas em áudio: “Amor, no que você está pensando?” “Amor, confessa eu tô gorda, né?” e “Que voz é essa aí do lado, hein?”.

No módulo especial voltado aos paulistanos, um dicionário de concordância verbal desenvolvido por bêbados dará, enfim, legitimidade a estranha obsessão do paulista em de dar tanta porrada na gramática diariamente… Graças à Compulsiva, pedir ‘dois pastéus’ e ‘um chops’ agora terá jurisprudência vernacular!

Na sessão japonesa, a novidade é a câmera fotográfica que já vem com todas as fotos reveladas antes mesmo do japa sair de viagem obcecado pelo seu fotocídio… Ou seja, o resto da humanidade, enfim, agora também terá espaço para fotografar nos principais pontos turísticos mundiais! Nada daqueles grupos enormes de japa (existe algum deles que não ande em grupo?) com dedos nervosos, clicando Nikons e Canons caríssimas, a torto e a direito, impiedosamente por onde quer que passem (argh!).

Atenção também para nossa sessão de importados: o badalado “Neuros Assépsius Compulsive Washer”, limpador sistemático e repetitivo de maçanetas da Crazy Washer´s.

E mais! Relógios programáveis e personalizados: que não marcam segundos repetidos; que não marcam minutos múltiplos de oito; que só marcam os números pares; que não marcam os números primos; que não marcam as horas! (oi?)

Organização congênita, assepsia crônica, simetria aguda, verificação endêmica, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição (bate duas vezes na mesa, agora!!!!!). Você vai se sentir em casa!

Acesse já o nosso site (depois de limpar os teclados com aguarrás de novo) e confira as promoções da Compulsiva.

“Compulsiva! Obcecada por você!”

Daniel Marinho
Texto originalmente publicado no site Curta Crônicas 

 


O Conto da Vigária

Há quem diga que vingança é um prato que se come frio. Mas é que às vezes a oportunidade bate a porta e aí é pegar ou largar, só dá tempo de uma assoprada; come-se morno mesmo.

Foi assim com a Marcela numa dessas festas caretas de boatezinha da moda na Barra da Tijuca. Aquele tipo de boate que se você chegar de tênis ou barba por fazer é capaz de te darem voz de prisão!

– E aí gaaaaata, eu não te conheço de algum lugar, princêêêsa? (sussurrou ele, fazendo cara de Wando)

Luis Alfredo; notadamente um mala. Uma valise sem alça e assunto, expondo a chave do Audi por fora da calça jeans da ‘Diesel’ e os braços apertados por uma daquelas camisetas do tipo mamãe-sou-forte (da… ‘Diesel’, digamos).

Mauriçoca até o último fio de cabelo bem penteado, que por ter nascido com tudo o que quis – e o que não quis -, cresceu com a certeza de que a Terra só estava lhe aguardando para recomeçar a girar. Ainda assim, dado seus prin$ípios, estava acostumado a sempre – sempre mesmo – faturar na noite com as garotas dos condomínios do bairro emergente.

Àquelas horas, porém, com a casa quase por fechar, Marcela – gata paulistana escaldada das baladas cosmopolitas (de Ibiza à Istanbul, de onde inclusive acabara de chegar de mais uma turnê da sua Cia de Dança Contemporânea) – fez que não ouviu. Nunca o tinha visto na vida; nada lhe interessara dentro daquele invólucro. Era fazer-se de sonsa, virar o rosto, dar de ouvidos. Nada que qualquer mulher com seus atributos não tenha de fazer quase todo dia.

Mas “chato” para Luis Alfredo era um eufemismo… O garotão insistia com olhares, bocas e poses de Julio Iglesias a cada desdém da morena de longos cabelos lisos e tatuagem no pescoço. Afinal, não era possível! E o Audi?

Quando Luis Alfredo começou a recitar, em voz alta, versos do Roupa Nova, Marcela – já contendo a taça de Pina Colada que teimava em atirar-se involuntariamente de sua mão rumo à face do rapaz – resolveu ponderar. Ao andar da carruagem, quase aliás já virando abóbora, resolveu  pagar para ver. Pagar para ver e assistir de camarote. Quem diz o que quer…

– Claro! Eu me lembro de você! Nossa você é o…
– Luis Alfredo!
– Isso… Luis Alfredo… Claro!
– Você lembra?

Luis Alfredo perguntou,  surpreso.

– Claro! Lá da…da… escola, não?
– Você também estudou no Sacre Couer de Marie?
– Sacre Couer… isso! Aí que saudades das freiras… (ela mal podia acredita no que estava dizendo)
– Aha! Suspeitei desde o princípio!

Emendou Luis Alfredo, ao balançar os braços para simular o herói de anteninhas daquele programa que provavelmente o inspirara como projeto de vida e conhecimento.

– Mas então… Você não mudou nada, hein, Pintinho? Ainda continua com aqueles tiques estranhos?
– Tiques?  Pintinho?
– É! Aliás, você ainda lembra daquele gordinho metido a besta da turma (toda escola tem um gordinho metido a besta). E do João (esse aí, então…), lembra dele?
– É… Lembro. Mas você…
– Ana ! (Sempre haverá uma Ana). Meu nome é Ana! Lembrou?
– Da 6ª F?
– Isso! A que pegava o ônibus com aquela garota que você dava em cima? Como é mesmo o nome dela? Era a..
– Fernanda!?
– A Fernandinha! Quanto tempo eu não vejo a Nanda…
– Coincidência, hein, Ana!

Luis Alfredo estava preocupado.

– Nossa! Olha, nem te conto! Ela fazia a tua caveira viu! Aliás dava dó… Você de quatro, rastejando daquele jeito e todas as meninas da sala te sacaneando! Você também sempre foi meio esquisito, vai confessa…
– Como assim? Tá gozando com a minha cara?!
– Eu sei, não era fácil, não é?  Ninguém queria nem ser visto contigo, Pintinho…
– Mas… 
– Olha eu não zoava, não! Ficava com pena, mesmo… Era horrível o que falavam por trás de você! E era muito injusto, porque você não ficava sabendo… Mas agora os tempos são outros, Pintinho!
– Perá lá! Que negócio é esse de Pintinho?
– Sei lá os meninos que te chamavam assim. Pediam para não te dizer nada. Gente… Você nunca soube né?  Tadinho… Aliás, é mesmo! Por que será que te chamavam de Pintinho, Luis Alfredo?
– Mas eu não tenho… Eu não sou Pintinho!!!!
– Gente, até a professora de matemática pedia para eu te evitar. Essa gente não tem sentimento!
– Quem?
– Não lembra da professora carrasco da sexta-série?
– A Professora Vânia????
– Aham! Ela mesma!
– Mas como assim, me evitar?
– Olha, eu nem levava a sério, Pintinho. Mas é que…
-Para de me chamar assim!
– Achava meio escárnio das meninas. Além do que aquele fedor todo era gazes. Todo mundo tem…
– Fedor?
– É! Por que você acha que nenhuma menina queria ficar contigo?
– Mas ficavam sim!
– Ficava nada, Pintinho!
– LUIS!!
– Tá , Luis… Então, lembra a festa surpresa da Carolzinha?
– Não.
– Das festas do pijama na casa de Búzios do pai da Luana?
-Não!
– E das festas da lingerie na casa da Kelly?
– Não…
– E quando agente fingia que ia fazer trabalho de grupo na biblioteca e se escondia lá no vestiário do ginásio para brincar de salada mista?  Todo mundo chapadão… Todo mundo muito louco!!!
– NÃÃÃÃÃO!!!
– Pois é!
– Pois é o que?
– Ninguém te convidava, Pintinho!
– LUÍÍÍÍSSSS!!!
– Desculpa! Aí… Coitado! Nunca soube de nada…  

Sua euforia minguara. Luis não podia acreditar. Era duro demais para o velho pegador do Audi Conversível Vermelho. Até a professora Vânia?!  Nem o Marcelão-quebra-queixo lhe contara nada!

Como seria de agora em diante? Lidar para sempre com os traumas do passado? E ainda que tudo estivesse mal explicado, Pintinho (perdão, Luis!) estava desolado…

– Mas eu nunca soube de nada, Ana! Nunca ninguém me contou!  Por quê, meu Deus? Por quê?
– É Pintinho… Vou te dizer uma coisa, o que é o ser humano…

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Daniel Marinho

O Diário de Suzana Barraqueira: uma ficção egótica em cinco atos

2 de novembro – Não A-C-R-E-D-I-T-O! Acordei hoje mais gostosa do que já tinha acordado ontem! Pode? O espelho até quis me agarrar no banheiro!

Depois da academia, fui para o salão. Não via a hora de chegar ao Diva´s… Gosto muito das meninas de lá; a gente aprende tanto…

À tarde, passei o resto do dia em casa. Preciso mandar o Roderbal (meu mucamo que aluguei junto à agência de ex-bombeiros marombados) dar um jeito nesse apartamento, porque já não cabe mais nada por aqui.

Mas vou me desfazer de quê? Só guardo o necessário… Toda mulher merece ter, ao menos, um par de sapatos para cada dia do ano… O que o meu público (que me ama!) pensaria da Suzana, repetindo a mesma meia-calça mais de um dia?

E nem adianta a Hebe implicar com as minhas fotos de capa de Revista Contigo emolduradas em cristais, pele de chinchila e lantejoulas ao longo das paredes do corredor que leva à minha suítes… É invééééja

Obs: Lembrar o Roderbal de gravar programa do Nelson Rubens.

3 de novembro – Sonhei que tinha me mudado. No sonho, Roderbal, recém chegado do 23º Registro de Imóveis do 2º tabelionato do Cairo, no Egito, me entregava a escritura, lavrada em meu nome, da Grande Pirâmide de Quenfrén, onde ele já derrubava as paredes de um dos saguões superiores, para caber a minha penteadeira.

Fiquei puta com o Roderbal! Preferia a Quéops, que dá sol da manhã, vista para a Esfinge e é muito maior! Lá ainda dava para sobrar um espaço para guardar a minha maquiagem! Acho que ele não gostou… Disse que compraria o Rio Nilo para mim…

– Bota lá seu ego, Dona Suzana… Se apertar, cabe!

Não entendi…

4 de novembro – Acordo e, ao me ver no espelho, começo a ter espasmos orgásticos oníricos… Não fosse a gravação da novela do Aguinaldo, me comia todinha ali mesmo. O vizinho interfonou reclamando dos gemidos… Respondi a ele com toda a classe e compostura que me é pertinente, mandando-o à puta que o pariu, porque eu não sou mulhérzinha de aturar desaforo de vizinho! Além do que, o público brasileiro M-E  A-M-A!!

Sabe, fiquei encucada com o sonho do Egito… Pensei nele o resto do dia. O que era aquilo tudo, hein? Um sinal de algum Faraó? Será que agora até Ramsés vai querer agendar uma hora comigo? Ou seriam contatos de minha encarnação passada: a Cleópatra. Aí, gente… somos tão parecidas!

Obs: Lembrar Roberval da inscrição para a próxima Dança dos Famosos.

5 de novembro

11h00min AM – Acordo e vou direto à cozinha, tentando evitar o espelho. Não adianta, ele é que sai correndo atrás de mim. Quase me estupra em cima da mesa de centro.

Hoje vou ter de ir ao PROJAC de novo. Só vou por causa do Aguinaldo! Mas também…deve ser tão importante pra aqueles atores contracenar comigo… Melhor ir mesmo. Ah! E aquele personagem foi um preseeente… Vou ver se atraso um pouquinho para fazer um charme (a Vera vai ficar possessa de não ter tido a mesma ideia!

11h00min PM – De noite fiquei vendo TV em casa. Não tem nada que preste na TV a Cabo à noite… Nem tem programa de auditório!! Depois querem dar educação ao povo… Mudei pra Rede TV.

OBS: Gente tô passada! O que era aquilo que a Luciana Gimenez vestiu no Superpop de hoje? Uma mulher desse porte, que subiu na vida pelo próprio talento… usando Gucci!? Coisa mais popular!

6 de novembro – Nem dormi direito. Fiquei triste… Sabe, é nessas horas que a gente vê o quanto nós nos martirizamos por coisas tão passageiras, tão efêmeras, tão pequenas… Gente, coitada da Lu !!!!!!!

À tarde, fui para Sampa. A Hebe ficou lá em casa, tomando conta do Roderbal. Tive de fingir o tempo todo que não percebia que todo mundo ficava me notando no saguão do Santos-Dumont. Carioca da Zona Sul é besta! Nem me pede foto. É inveeeja!

Vou direto ao guichê da TAM e uma senhora – dessas já de idade avançada, sei lá uns 60 – tem o disparate de dizer que eu, como todo mundo, tinha de ir para o final da fila! Pode?

Olha…

Tem gente que não tem N-O-O-O-O-O-O-Ç-Ã-O!!!!

Daniel Marinho