Guia Flâneur de Paris

Por Daniel Marinho

(Originalmente publicado no Site Curta Crônicas)

Cambaleando, acordo rogando pelo banho depois de uma noite de desavenças com o relógio biológico. O sono, graças aos caprichos do novo fuso, fora encomendado cinco horas mais cedo que o de costume. Esperou deitado, claro… bufando, reclamando, revirando-se na cama.

O box do banheiro é  uma estrutura plástica branca, sobreposta à cerâmica original, que denuncia mais de dois séculos de idade do prédio do Hotel Istria; por onde um dia estiveram Duchamps, Picasso, Modigliani, Rainer Maria Rilke, essa gente que aparece em comédias de época parisiense do Woody Allen. De fato, não é difícil ambientar-se em edificações do século XVII por aqui. Mas caminhar sobre pisos que rangem e cheiram a rapé de cubistas que viraram busto de bronze mundo afora… Essas pieguices atiçam o imaginário de quem vem do Novo Mundo. 34 anos de espera. Não precisava tanto. É natural que sobrem expectativas.

O café espreita por toda a cidade. Vou pelo chá, mas quero mesmo é vinho, que é o preço da água. Não importa. Qualquer um deles levará involuntariamente aos subterrâneos da cidade. É assim que se começa um dia em Paris. Cavando os degraus inacabáveis de um metrô que ignorou a modernidade e fez que não ouviu da invenção das escadas rolantes. Os subterrâneos de um metrô velho, feioso, mas eficaz. Aliás, uma instituição nessa cidade.

O suficiente para encontrar nele a resposta de algo inquietante: como pode o parisiense bater ponto nos achocolatados cremosos, comer pão puro com cerveja, ‘fromages’ de sobremesas, tiramissús do tamanho de potes de sorvete e estar sempre em forma?

Na capital francesa, como se sabe,  não se come a refeição à vista. Come-se, em Paris, em parcelas a se perder de vista. Entrada, antepasto, salada, sopa, prato principal, sobremesa… Vai mais um vinho?

No entanto, não há gente rechonchuda, fora de forma ou mal vestida nas cercanias do Sena. Ao menos eu não vejo.  Alguma lei deve os obrigar a serem magros, elegantes e a saberem combinar o blazer com o cachecol – que por aqui, aliás, é usado na cor rosa por homens de muita coragem. Mas não lembro de ter visto academias de ginástica pela cidade e, creio, que o parisiense médio faz um tipo intelectual demais para correr na esteira ao som da Beyonce.

Restou a tese do step involuntário ao qual o parisiense é investido diariamente nas escadarias do metrô, articuladas por conexões numa cama de gato que só francês entende. De malas na mão, cruzando-as do aeroporto ao hotel é boa malhação aeróbica.

O dia então amadurece. Com o sol a pino, salto na estação Étoile/ Charles de Gaulle, linha 9, Zona 1, encarado por um grande Arco de concreto que triunfa na intersessão de doze avenidas hermeticamente arborizadas. Uma delas chamará mais atenção. Mais pela fama do que pela estima, já que a Avenida des Champs Élysées não me faz a cabeça.

Paris é mais do que uma boulevard de quatro faixas cercada por vitrines que anunciam jóias e bolsas de sobrenome famoso a preço de automóvel. É bem mais do que uma avenida elegante, voltada ao abastecimento de uma elite de latinos e de esposas do médio oriente que fazem dela sua Meca há alguns anos.

É que quando me dou conta, Paris é um beco de paralepípedos de desenhos ondulares, cujo silêncio foi quebrado pelo ronco vintage de um motor de lambreta. Paris é uma esquina, em sépia, cruzada por passos de botas de couro, de uma bela mulher cujas curvas se espreguiçam dentro de um sobretudo bege.

Paris é então um encontro das Rue Balzac e Lord Byron, adornado por cinco andares de acabamentos em Art Nouveou e fitado pela película de algum diretor da Nouvelle Vague. Paris quer falar comigo; diz que é uma passarela disfarçada de calçada, onde as cadeiras ignoram as próprias mesas e, voltam-se à rua, servidas de cafés lotados a luz de um dia ordinário da semana.

Paris, no cair de uma tarde de quinta-feira, é uma farra voyeur,  onde todos se encontram lá fora, no final de um expediente que não existe, já que os escritórios só podem estar vazios e alguém haverá de ocupar mais um bate-papo  entre a cerveja belga e o crepe de nutella.

E sorvido por uma errância flâneur incontrolável, o dia passa por completo e quase não me dou conta. Do Arco do Triunfo a região do Grand Palais, costurando as amenidades da vida parisiense, uma ficção era escrita pela distração do passo, para ser eternizada dentro de uma caixinha de música de Monmartre. Um dia perdido em Paris vale mais do que qualquer outro encontrado.

Porque ir até lá também pode ser um fiasco: filas, ninguém fala inglês, pontos turísticos  ‘conquistados’, o Louvre parecendo shopping em véspera de natal.  Só se chega  a Paris, de fato, quando se desiste de ir até ela . É preciso deixar que ela encontre você.

É quando uma brisa úmida do Sena começa a sussurrar a pele; é quando o caminho por si só traceja o que de melhor Paris tem a oferecer: a vocação para a degustação do prazer do cotidiano. A Paris que veste o corpo, a casa, o prato, a taça, a paisagem ou mesmo a própria vida que passa a não se confundir mais com a realidade.

Daniel Marinho