Ágora do Tempo

A culpa não é do tempo.
Não disfarça.
Mas a pressa esquece…
E a vida passa.

Tempo é:

.
Aroma de incenso.
É pirraça.
É rabisco de fumaça
com o lápis de vento.

.

Uma pipa de criança
que, vencida,
se faz vitoriosa.
E empina sonho de moleque,
porque fixou residência no espaço.

.

O som bronzeado do sol.
A cigarra de bunda pra a lua.
Uma silhueta num banho nua.
O abrigo das lãs de um cachecol.

.

Um doce gole de cana.
Embriagado, rolando na grama.
Na grama melado de lama.
Zombando do homem de aço.

.

O louco, a pinguça, o cantante.
A sana de aproveitar devagar
cada instante.
.

A brisa nos ouvidos.
A lerdeza leveza
do crescimento das arvores.
Os causos dos viajantes.

.

.

Já: Ágora do tempo.
Abrigo do instante.
Na pressa, um levante,
vamos jorrar vinho na boca do velocímetro.
A graça e a arruaça
das deusas bacantes.

.

.

Agora: abrigo da vida.
Templo derradeiro do único tempo.
Indiferente, mas significante, e mesmo signo,
de tudo que dela é constituída.
Do que enfim constitui a vida:
a arte do instante.

 

Daniel Marinho