O fim é o começo de tudo: rumo à Patagônia

 

 

Carta de Navegação - Terra do Fogo

 

Acabo de comprar passagens para o ‘Fim do Mundo’… Ou – como oportunamente completam os viajantes – o ‘Começo de Tudo’.

É que a assembléia extraordinária lá de casa reuniu-se na última semana para votar a favor de um reveillon na… Patagônia. Onze dias de expedição com escalas em Ushuaia, para nadar com os pinguins; El Calafate, para virar boneco de neve de geleira e – a cereja do bolo – Torres Del Paine – que se realmente for tudo isso que o Google Images diz que é… Fico por lá mesmo.

Para os neófitos, digo que a Patagônia não é só bloco de gelo boiando em meio a guanacos perdidos nos fiordes da Cordilheira do Andes. Há também as lhamas…

Escolhemos o verão, quando bate aquele calorzinho gostoso de nove graus Celsius ao meio-dia… Ou seja, se rolar um sol, ainda dá pra pegar uma praia…

Brincadeiras à parte, apesar de o pé das Américas ainda ser uma região pouco explorada, é destino acalentado por muita gente do mundo inteiro que aterrissa por lá todo ano. O que os leva até tão longe? Antes de tudo, paisagens, que não fossem os viajantes para assegurar sua veracidade, algum apressado acusaria de editadas pelo Photoshop, tamanho o ‘coeficiente de surrealidade’.

Claro, há também a curiosidade de chegar a um dos extremos continentais. Depois da “Terra do Fogo”, o extremo sul da Patagônia, só mesmo a Antártida, pouco mais de dois mil quilômetros dali. E convenhamos, não é todo dia que se vai a um lugar que tem por alcunha “O Fim do Mundo”.

E o destino vem a calhar financeiramente também. Como se não bastasse já há algum tempo tudo estar muito barato na Argentina, o dólar bateu a casa dos R$ 1,75 na última semana. Se somado a isso você adquirir o talento da arte da garimpagem de tarifas aéreas inadvertidamente baratas com antecedência – da qual me graduei recentemente – você ainda vai rindo, com a economia que fez ao desistir daquela festa, sempre igual, daquele hotel de gringo em alguma praia do Rio.

Las Patas

A Patagônia fica, digamos, no pé das Américas. Uma região que abrange o sul argentino e chileno, incluindo aí os chamados Andes Patagônios. É a porção de terra, como disse, mais austral do planeta antes das geleiras do Pólo Sul. Região mítica e simbólica da luta humana contra a força de uma natureza de extremos, onde além da temperatura e da dificuldade de locomoção em meio a um relevo montanhoso, sucederam-se ao longo dos tempos erupções de vulcões, que ainda estão ativos. Mesmo assim a Patagônia é hoje uma das Mecas do ecoturismo mundial, orgulhosa por seus habitats, flora, fauna e imagens que não se vêem em qualquer outro lugar.

 

Foto de Breno Fortes (National Geographic)

 

Lugar, aliás, para quem gosta de horizontes distantes, daqueles que dão férias à vista. Silêncio, céus de tons alaranjados, pores-de-sol no verão às 23 horas… Bem, isso é o que eu ando lendo por aí e o post da chegada dará, ou não, o corolário. Mas, numa região onde as estatísticas falam em 1,5 habitante por quilômetro quadrado, eu exijo, no mínimo, um céu estrelado à altura das minhas expectativas, que, aliás, costumam- e eu tenho de parar com isso – ser grandes.

O fato é que da natureza de paisagens lisérgicas que de lá se fez inquilina foram aparecendo com o tempo: primeiro os colonos, depois os viajantes, e, por fim, a atmosfera e estrutura que consolidaram a verdadeira vocação da região, o turismo. Pequenas cidadezinhas típicas de montanha com boa intraestrutura vivendo basicamente da atividade, recebendo mochileiros e viajantes de toda ordem.

O nome Patagônia é originado de mais uma daquelas observações insólitas que os europeus – entre a decapitação de um índio e outro – adoravam de fazer. O termo foi cunhado pelos homens da lendária expedição de Fernão de Magalhães que por lá passara em 1520 na então primeira viagem de (bota 80 dias nisso) volta ao mundo.

Era uma alusão aos indígenas que lá habitavam. Eles pareciam maiores do que realmente eram provavelmente por usar gorros altos e calçados de couro de guanaco (o calçado lhes exagerava o tamanho dos pés). Pata + gones = homens de patas grandes.

E o que é que isso tudo tem a ver com o meu café-com-leite? Você me pergunta. Não sei, mas é que estou empolgado com o assunto e tenho virado noites devorando literaturas sobre o tema – criança é assim mesmo. Tanto que andei descobrindo algumas preciosidades a respeito. A Patagônia tem história. Desconhecida mesmo, só dos brasileiros.

Veturas Del Sur

Bem, o fato é que após Magalhães descobrir o estreito de Magalhães (que na ocasião não se chamava assim, você supôs, eu espero), muita gente arrumou um meio de partir também para o fim do mundo. Não, necessariamente, movidas pelos mais nobres princípios. Piratas de todos os quadrantes passaram a bater ponto na então única passagem entre o Atlântico e o Pacífico – termo, aliás, também batizado por Magalhães, que mais uma vez mostrava ao mundo a sua mania e curiosa inaptidão para dar nome aos bois por onde quer que passasse: “el pacífico” como o chamou, é o mais instável, turbulento e perigoso dos nossos oceanos (o negócio do Magá era comandar esquadra).

Ainda no século XVI, os espanhóis tentaram por vezes fixarem-se no sul da região, na “Terra do Fogo”, dada à localidade estratégica do ‘entreposto’ dos oceanos. Em 1589 uma expedição gigantesca, liderada pelo capitão Sarmiento de Gamboa, partiu em direção à região com 23 Naus e mais de três mil homens, um disparate para a época.

Acontece que toda megalomania tem seu preço e das 23 Naus, 18 embarcações terminariam por banhar eternamente suas respectivas tripulações nas águas do Atlântico. As restantes, ao desembarcarem no destino programado por lá ficaram até a fundação de dois assentamentos, ambos na margem norte do estreito. Quatro naus regressaram à Espanha em seguida. A nau que sobrara, numa pequena viagem às proximidades, descobriria, tarde demais, que não poderia contar com a previsão do tempo patagônio dos ‘telejornais da época’.

Arrastada por uma das famosas tempestades da região, a nau foi levada a milhares de léguas de distância, aportando – é sério – no Rio de Janeiro. De lá, enviou alguns barcos às colônias do Sul; todos naufragaram. Atônito, o capitão Gamboa decide ir a Espanha em busca de ajuda. Mas, como todo castigo é pouco, a nau é atacada no meio do caminho por piratas ingleses, que insistem em, dias depois, fazer deles hóspedes compulsórios de uma prisão britânica, para nunca mais voltarem a estalar castanholas na Catalunha.

Mas e os colonos que lá ficaram? Bem, conta a história que em algum inverno do século XVI, quando tiveram de enfrentar algo em torno de 30 graus abaixo de zero (com vento!) depois de acabar os gatos, passaram a comer o couro dos bois, depois de acabar o couro dos bois, passaram a comer o das botas, depois… Bem, agora Inês é morta.

Mas, de fato, com o tempo os espanhóis conseguiriam ao menos colonizar o Norte patagônio, a região das estepes. Ao introduzir os rebanhos, porém, começaram a se incomodar com os índios que ‘ocupavam’ boa parte da terra impedindo o crescimento das estâncias – enfim, coisa de europeu… Práticos, contrataram ‘caçadores’ para dar uma solução à pendência. A recompensa dos rapazes era assegurada ao apresentar os pedaços de testículos e seios arrancados de suas vítimas – enfim, coisa de europeu.

Charles Darwin também veio sentir frio por lá. Integrante de uma expedição científica, foi praticamente o primeiro cientista a estudar a natureza selvagem da Patagônia, citada no livro Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo (1890) – o que não é lá grande coisa depois que descobri que até por Itaipuaçú o naturalista já passou…

Devo registrar também que Butch Cassidy e Sundance Kid – os fora-da-lei do oeste americano, cuja história já virou um filme interpretado por Paul Newman e Robert Redford – também deram as caras pela Pata. Apesar de não aparecer na película, historiadores – entre eles o escritor chileno de “Patagônia Express”, Luis Sepúlveda – afirmam que ambos não teriam morrido na Bolívia como reza a história oficial, mas sim no sul do Chile. Com nomes falsos, no início do século passado, depois de vaguear pela Patagônia, passaram a levar a vida como fazendeiros em Cholila, fazendo vez-e-outra um servicinho extra (provavelmente de assalto a banco). A história descrita por Sepúlveda, aliás, é a base do roteiro de um filme de Walter Salles, que o adaptará para as telas em breve.

Enfim, histórias e estórias não faltam à Patagônia. E também não faltarão, para escrevinhar amenidades de uma jornada ao pé das Américas. Anotar, registrar, narrar, passar as dicas e o que mais der na telha. Porque fim do mundo mesmo, nem existe. Seja no Ushuaia ou em alguma data pretensamente eleita por teóricos conspiradores depressivos de plantão. O fim, aliás, é distante, é o caminho…de uma vida inteira.


Daniel Marinho

O Fantasma do Theatro Municipal

(memórias ‘crônicas’ de uma ópera particular)

Um camisão xadrez de flanela grunge, a barbicha estilizada e o violão no case carregado à mão. Voltava do Villa Lobos, uma escola de música centenária do centro antigo do Rio.  O rumo era o metrô e, não sei por que ‘quimeras’, ao invés de abreviar o caminho descendo na carioca, como de costume, alonguei uma caminhada noturna até a Cinelândia.

Não que esses rompantes de decisão de meio de caminho sejam raros. Tudo é desculpa para a rua ser a regra e a casa, a exceção. Mas era só uma caminhada breve e estava convencido de descer na primeira escadaria do metrô, em frente ao Theatro Municipal do Rio.

No caminho, um homem mal vestido com pinta de malandro “com aparato de malandro oficial” me aborda. Faço que não ouvi e sigo em frente, mas ele insiste e parece não oferecer alguma ameaça séria. Queria me vender alguma coisa; tickets para uma ópera do Municipal. Era um cambista.

Não sou chegado a óperas.  Com todo o respeito, mas não gosto. Curto e me emociono com orquestras sinfônicas, música clássica e outras ditas “erudições” , mas alguns segundos ouvindo aquele vibrato em italiano e eu já tenho aflições.

O ingresso era 100 reais, mas ele – ‘bom rapaz’, veja só – não se importava em, nas palavras dele, ‘dar’ essa oportunidade única para mim por 60.

– Não! – respondi certo do que não queria.

Mais certo ainda do que dizia estava o meu interlocutor. Ele agora me lembrava que o evento começaria em cinco minutos e por isso ele não se importaria de fazer por 40…

– Afinal, você é músico, não é? – tentava me convencer ao notar o violão a tiracolo.

Naquela época dinheiro era para mim era uma espécie de ente mítico que insistia em brincar de pique-esconde com a minha carteira. Eu era capaz de ir e voltar do Maracanã à Usina a pé (uns cinco quilômetros) para assegurar que o joelho de queijo e presunto do dia seguinte seria acompanhado de um Guaravita. 40 reais ? Por uma ópera?

– Não!

Ele mudou então sua estratégia de abordagem: de malandro a chato mesmo. E começou a elucubrar as razões pelas quais eu não poderia deixar de aproveitar a oportunidade, segundo ele,” única em uma vida!”. Perguntei por que insistia tanto e ele não demorou na resposta:

– Trinta reais, agora!

– Não! – retruquei.

– Então por vinte – ele era chato.

– Também não!

– Quinzeee!!!!!!!

Ele não desistia… Eu estava decidido a ir para casa, já estava tarde, acordaria cedo, não tinha nem companhia…

– Eu faço por dez reais SÓ POR QUE É PRA VOCÊ – (maior cara dura, impossível!)

Hesitei por um instante… Afinal, haveria de ter algum motivo para aquilo tudo. Na pior das hipóteses, eu nunca tinha entrado no Municipal do Rio. E que mal teria…

Ainda assim, achava caro o custo/benefício pra minha carteira que ocasionalmente realizava experiências com o vácuo absoluto. Por outro lado, nesse andar da carruagem, já tinha notado que o balanço da barganha já estava afundando no meu pé de tanto pender para o meu lado. Acontece que também sei ser nojento:

– Cinco reais! Por cinco reais eu compro o seu ingresso! – afirmei com uma cara de pau ainda maior (a gente aprende rápido).

Deu para notar, mais do que alívio, uma baba esquisita saindo da boca do cambista que começara então a espumar. Não só por mim, mas também pelas outras dúzias de ingressos com as quais ele provavelmente morreria na mão. O que de certo ponto de vista não era um bom presságio para o espetáculo. De qualquer modo, o negócio foi fechado. Eu ia, enfim, a uma ópera no Municipal.

Assombrações Traviattas


Entreguei o ingresso à hostess da casa – lá não há bilheteira, há hostess – e foi o tempo de pisar sob o fresquíssimo foyer do imaculado Theatro centenário e já ser convidado a entrar. O espetáculo começaria imediatamente.

Vi o primeiro ato de uma daquelas poltronas do andar mais baixo (deve haver algum nome empolado em francês para este tipo de assento; não faço idéia). Logo ao abrir do pano, um senhor barbudo de meia idade entra no palco. Exageradamente maquiado ele começa a cantar – em minha opinião também exageradamente – em italiano. Os vibratos, claro, todos eles lá, bem alto. Não podia esperar outra coisa. Eram os meus piores pesadelos se concretizando.

Não demora muito e começo a me mexer na cadeira. Espero o intervalo – até porque não estava disposto a enfrentar a fúria enraivecida de um típico freqüentador de espetáculos eruditos capaz de chamar os seguranças no primeiro acesso de pigarro de qualquer espectador, imagina trocar de lugar – e subo ao segundo andar para, ao menos, buscar uma… nova perspectiva. Quem sabe?

Não resolve. O segundo ato começava e as coisas não melhoravam para mim. Puxei papo com o senhor ao lado, mas notei que a conversa de pé de ouvido não iria muito longe. Para me distrair vou ao banheiro.

No caminho, noto os detalhes arquitetônicos do interior da casa e tenho um insight repentino. Se o estupro é inevitável, vamos ao menos conhecer o Theatro Municipal!

Inside the actor´s studios

Parto rumo a todas as direções possíveis e em algumas dezenas de minutos não há mais um só canto da área aberta ao público que eu não conheça. A peregrinação é válida e descortina muitos dos pomposos mimos que o teatro réplica da Ópera de Paris oferece a um representante da plebe. Salões enormes, escadarias adornadamente desertas, ornamentos em ônix, pinturas a óleo, peças em bronze, castiçais, tenho a nítida impressão de esbarrar com fantasma de Pereira Passos. A brincadeira parece estar próxima do fim, mas no último andar há uma porta no meio do caminho e ela grita:

“Entrada expressamente proibida” .

Veja, não sou deseducado. Entendo quando não sou convidado. De modo que não continuaria diante uma entrada que é proibida. Mas “expressamente” proibida? Era demais! A curiosidade não agüentou! O grito a acordara de seus sonos mais profundos… Era girar a maçaneta e entrar, porque a porta, como costuma acontecer nessas ocasiões, estava aberta.

O segundo ato ainda corria, mas a partir daí o espetáculo não seria mais o dos tenores. A porta dava acesso a uma estrutura de metal já próxima ao teto, na parte posterior do teatro exatamente sobre o palco. Nessas horas, a velha máxima “penso, logo HESITO” faz toda a diferença. Como não ponderei muito a respeito, depois de um ligeiro esforço, consegui subir. Era, de fato, uma nova perspectiva: passava a ter de olhar para a direção de meus pés para ver os atores!

O mundo das coxias então se abriu em cada detalhe dos melhores planos possíveis lá de cima. E a sensação era curiosa, já que de meu ponto de vista eu podia observar a tudo sem ser observado. Era um vulto, uma sombra em meio à escuridão, esbarrando nas pinturas seculares que Eliseu Visconti pintara no teto há mais de um século atrás (agora que foi reformado posso dizer mesmo), quando também precisou subir até essa área só de alcance dos menos escrupulosos.

Ao caminhar pelas vigas horizontais, lembro que mal podia diferenciar meu pé das cabeças dos atores, e sabia que qualquer passo em falso me tornaria, em questão de segundos, parte do espetáculo de uma cena mórbida lá em baixo.

A noite finalmente começava a melhorar…

Lá de cima todos os takes possíveis dos bastidores estavam, em grande angular e tele, ao meu alcance. Os detalhes dos ornamentos nos figurinos, as camareiras que corriam de um lado para outro para vestir os atores, os refletores que se movimentavam ao meu lado para ambientar as cenas, as partes móveis do cenário a postos para dele fazer parte, contra-regras, maquiadores, produtores, atores, todos correndo de um lado para outro de modo a deixar tinindo o espetáculo para alguém que, supostamente, não deveria estar assistindo a tudo isso de onde eu estava.

Atravesso o palco por cima e, enfim, depois de algumas lições autodidatas de equilibrismo e em meio a algumas acrobacias eu consigo pular da estrutura de metal com vida – Dionísio sempre esteve do meu lado – e alcanço o edifício da administração do teatro.

Lá bemol

A cena então muda. Longos corredores com salas e escritórios ordinários como quaisquer outros. Não fosse um som gostoso de coxia e os vocalizes, poderia ser algum outro prédio antigo do centro do Rio, mas a súbita presença de moças seminuas mascaradas e com o corpo pintado correndo em minha direção põem em cheque a ideia. Garbosas, elas dão um sorriso e passam rumo ao camarim. Não era comigo. Estão com pressa e não para papo.

Desço também. O volume do som dos vocalizes aumenta significativamente, as moças já não estão mais lá e não há exatamente camarins. Estava mais para um complexo hoteleiro, um resort cênico voltado aos atores. Tudo grandiloqüente, a começar pela lanchonete, muito maior que o ‘bistrôzinho’ recém inaugurado no anexo do prédio aos mortais espectadores.

Passava, entretanto, a ser observado. Mas o case de violão na mão, aquela barbicha disciplinadamente mal feita e o camisão grunge somados a um ar blasé me confundiriam com qualquer um daquela casa. Na pior das hipóteses, era só fazer cara de amigo do diretor artístico.

O tempo começava a ficar escasso e sabia que a obra estava por terminar. Desci mais. No subsolo sou brindado pela grata surpresa de tropeçar no espaço reservado à orquestra logo abaixo do palco.

Nunca me esqueço daquele momento. Enquanto me deixavam, eu ia entrando e me vi completamente em meio à ‘instrumentália’ toda de um momento para o outro. O oboé era ainda mais suave. As cordas arqueadas dos violoncelos, a distorção acústica dos baixos, a estridência dos flautins… O que não arrepiava, assustava. Tudo era mais impressionante ainda dali de baixo e eu parecia estar imerso numa partitura mesmo – nenhum ingresso poderia pagar aquilo.

Poucos, mas eternos minutos. Tempo suficiente para ouvir um Grand Finale apoteótico ao lado dos rufares finais dos tambores e do furor propositalmente dissonante das notas de um sax soprano curiosamente envenenado.

If Nothing is ventured, nothing is earned

O espetáculo acabaria e eu continuaria ainda muito tempo por lá. Puxando assunto com os cenógrafos, preparadores vocais, camareiras, as moças mascaradas – agora compostas -, até os seguranças, transeuntes de qualquer ordem. Não queria mais ir embora. Bati papo com os músicos – cheguei até a experimentar um cello – minha cara de amigo de diretor era convincente. Em algum momento eles tiveram de ir embora e – como eu não tinha as chaves para trancar o Theatro na saída – fui obrigado a ir também.

Já se vão anos que isso aconteceu, mas eu nunca me esqueci dessa noite do Municipal. Ela cheira àquelas limonadas que ficam por aí por fazer a nossa espreita escondidas em meio às rotinas do dia-a-dia com seus parcos limõezinhos – ao menos para quem está disponível ao acaso. E não dá para marcar um encontro com o acaso; ele sempre pinta com aquele papo malandrão de “é pegar ou largar!”. Pior, às vezes se esconde atrás de uma porta sacana cuja entrada, sem algum motivo razoável, é expressamente proibida. Na mosca! É o buraco do coelho! Morpheus e a pílula vermelha!

E a ideia era ter pegado metrô, lembra? Se soubesse, pagaria os 100 reais rindo.

Daniel Marinho


O velho, o garoto e o mar

 

Ou o que dizer de um ancião cambalhoteando à beira da praia.

O garoto é o mar,

bebendo a sede das ondas,
batendo palmas na areia,

procurando curvas de sereia
no mais rareado ar.

.

O garoto é um velho
na fase derradeira
com uma vara de pescar.

.

Um velho, uma criança.
Mais do que uma lembrança
de tempos atrás
quando muito
nunca era demais

.

Na distração sem esforço.
Nas arruaças do tempo de moço.
Mas sem bananeiras…
Já não poderá.

.

O velho, o garoto e o mar.
Dentro da mesma lente
mas numa vida somente.
O garoto, de partida.
O velho, de despedida

.

Talhando novos traços.
Novas margens.
O entorno de gratas miragens.

.

O velho nem lembra da idade
se esqueceu de cansar.
Tá de sacanagem:
ele nada com as pernas
viradas pro ar.

 

Daniel Marinho

Vida e despedida

Letra :  Daniel Marinho
Música :  Daniel Guimarães
Clique na figura abaixo para ouvir !



.

(Interpretada por Marcela Velon)


Versos são retratos
revelados no violão.
Com versos te converso
in memorian, gratidão.

.

Teu silêncio fala,
ainda canta essa canção
você partiu no trem
Expresso Redenção.

.

Nem a primavera
escapa à perda, a dor da flor.
Nem ninguém espera
o dom das horas,
esse favor.

.

Vida e a despedida
dão as mãos na estação,
vão te acolher no trem
Expresso Redenção.

.

Sentido imensidão
Nos trilhos, silêncio no porão

.

(Instrumental)

.

Vida e a despedida
dão as mãos na estação,
vão te acolher no trem
Expresso Redenção
Sentido imensidão
Nos trilhos, silêncio no porão.

Sentidos Urbanos

A maior agressão a vista

Estou ficando cego. Ensurdessedoramente cego.
Não cheiro mais tudo que ouço, nem sinto mais o gosto que enxergo.

Não distingo o mignon do osso e estou sem tato pra o prato.
O cheiro da seda é insosso. E o da fumaça, o desespero do olfato.

As paredes urbanas me cegaram a vista. Assaltaram o meu horizonte.
E o vento se escondeu da brisa num engarrafamento da ponte.

Essa sombra de cal, mofo e cimento, antes um céu azulado,
virou cinema de vesgo. Pros ácaros uma biografia.
A vista da minha janela um firmamento aleijado
de quem sofre de miopia.

Lá fora, entre as trilhas do asfalto, as opiniões caem no braço.
Tudo aglomera, pouco se une. Só a goela se firma no palco.

Apito ou buzina. Indiferença ao sossego.
Liquidação de patricinha. A polícia, o flanelinha…
A sessão de descarrego.

Até Kepler, quem diria, aqui é tagarelo.
Os ruídos… ininterruptos. Em quiálteras.
A música… “das quimeras”.
E o ouvido, coitado, não tem pálpebras.

Um barulho com cheiro de cidade
Gaba-se por esculpir um outro plano.
Uma outra realidade.
Mas é um sonho com gosto de perda de validade.

É que parece que, de repente, só vale o que “agita”.
Ainda que, na verdade, pouco de divertido se permita.

E cada vez mais eu menos veja.
E sinta tudo pela metade

Porque quanto mais se grita,
mais se aumenta a sede.
E não há maior agressão à vista,
do que a visão de uma parede.

Daniel Marinho

Paleta Branca

Para a amiga Renata Mizrahi


Um dia branco
é um tempo que serve de esteio
.
Dia que esquece
não escurece
dia de nenhuma espécie
não diz a que veio
.
É um dia brando
e é assim porque
nem apetece
não chega floreiro
não bate escanteio
nada que
você me dissesse
.
Mas se há vazio
há espaço.
E a ausência
é só um pedaço
do que ainda não veio
.
É porque o destino é etéreo
reserva a paleta das cores
à sombra do temor dos mistérios
mas a mão dos corações trangressores
no peito que rasgam os tambores
.
Aquarela do dia
que não compadece
não desfalece
diante do que nem sabia
.
E cria no que antes temia
borrifando na penugem das dores
odores de flores
novos amores
as cores do dia.
Daniel Marinho

Renúncia

Difícil é estar triste e não saber por que.
O inexplicável vazio, a angústia, a culpa cristã.
O vácuo calafrio, em meio à fartura,
acordar vira tortura no café da manhã.

Ao leite e ao pão, as dúvidas, as estórias infundadas.
A faca esfola a manteiga e desvale-se ferida.
Numa reflexão desesperada à procura de uma saída

Difícil é não acordar tão feliz quando é tudo o que quero.
Ainda que quando tudo a mim nada falta.
Engolir minhas culpas, meus arrependimentos,
sem se sentir culpado

Saber do pouco que falta para as cores em luzes de ribalta
e para o cheiro da brisa úmida, que me curam a miopia,
já cega, doente e abarrotada de complexas teorias.

E então, o meu desencantamento se perde,
some silencioso na madrugada
e solenemente indefeso.

A longa amargura, o vazio,  o crepúsculo de outrora
É agora doçura. É aurora.

É o alaranjado no horizonte, que já sobe e reina sobre a quaresmeira,
que sem fuga e já crescida e sem seu consentimento,
despe-se e veste-se florida sem precisar entender a si mesmo.
Só ouve e intui a voz intermitente da flora.

São os segredos mudos que nos despertam
do desasossego. Quando há a fuga de tudo que é agora.

Abandonar o carro no meio da corrida.
O maior controle é a renúncia.
Para aceitar o convite de namoro com a vida.

 

Daniel Marinho