Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

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A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho

Curso Prático para Audição Aplicada da Conversa Alheia

Conversa dos outros? Nenhuma conversa é necessariamente… dos outros. Seus ouvidos têm pálpebras? Então que não venham conversar perto de você!Porque para mim, se me interessar, vou fingir que estou escrevendo, vou fingir que estou lendo, vou fingir que estou cochilando, sei lá, mas vou ouvir…

Distrai que é uma beleza. Especialmente em filas de banco, restaurantes, elevador apertado , metrô demorado, viagens intermináveis de ônibus e quando o sistema do Check In da Aérea caí e você tem de ficar enrolando mais quatro horas até começar a exigir a barrinha de cereal a que tem direito por lei. Mas tudo por interesse antropológico. Claro, você entende.

O problema é que com o tempo você começa a tomar gosto pela coisa. E quando vê cria o hábito. Começa, então, a dar “ouvidadelas” à parolagem alheia – a qualquer tempo e momento – e acha isso bonito.

Daí começa a dar “ouvidos” a um perfil mais exigente e requintado de fofoqueiro, que você não sabia, mas morava adormecido dentro de você. Ele então cresce exponencialmente – na proporção inversa da sua credibilidade –  já que essa ‘atividade’ passa a demandar um aprimoramento técnico que não lhe fora ensinado em nosso precário sistema educacional.

Foi pensando em preencher esta lacuna – e emprestar certo afago existencial a essas almas – que desenvolvi a mais completa metodologia extensiva aos pretensos escutadores da vida alheia. Afinal, em meio à pós-modernidade BBB, serão eles os empreendedores cada vez mais requisitados por um mercado de trabalho aquecido, porém carente de profissionais da fofoca qualificados.

Certamente, em um mundo sob jugo da crise do sistema capitalista, como nos prognostica o presente, eles irão assentar as bases da nova ordem mundial, ao oferecerem uma releitura do regime de trocas simbólicas convencional.

Segue, ao nosso aguardado corpo discente, a grade curricular do curso completo, já regulamentado pelo organismo normativo  responsável, com as respectivas descrições das disciplinas:

Dissimulação Aplicada I
Sabe quando a conversa alheia interessa, mas você está longe da “cena”?  Os mais ansiosos, sobretudo, se complicam nessa hora… Arrumam desculpa para chegar perto e terminam por dar bandeira.
Nessa disciplina o aluno assimilará, por meio de experimentações psicomotoras práticas, técnicas de dissimulação instrumental que dão margem e flexibilidade ao raio de abrangência de seu campo sensorial “curiosístico”. Uma esticadinha de pescoço aqui, uma moeda que cai ‘sem querer’ no chão ali, uma leve inclinação da testa à mesa para encenar uma dor de cabeça e despistar suspeitas, dentre outras técnicas, serão abordadas pelos instrutores ao longo dos semestres.

Acústica Distributiva
Mais difícil do que escutar o bate-papo convencional é você se ver em meio uma conversa com o ‘compadre’ (ou a comadre) e se interessar ainda mais por outra conversa ao lado! Não é simples lidar com a difícil equação da audição distributiva, que nos permite conversar com alguém e ouvir o vizinho ao mesmo tempo! A Acústica Distributiva disciplinará o ouvido do aluno a ouvir em faixas.
Por meio desta técnica, ele poderá distinguir com comprovada eficácia mais de três informações sonoras no mesmo instante, registrando-as em pistas cerebrais diferentes, sem que suas sinapses entrem em curto. A técnica agrega notável melhoria de performance ao auscultador alheio!

História da Vida Privada
Certamente, é do conhecimento de todos a vasta e accessível bibliografia sobre o assunto. Difícil é fugir dele! Bastaria ir a qualquer banca de jornal, ligar a TV ou bater na porta da Dona Gertrude do 302.
O desafio da cadeira em questão é abordar a temática sobre uma perspectiva mais ampla, que propicie aos discentes uma reflexão profícua e a análise conjuntural dos fatos que levam a raça humana a se comportar do jeito que se comporta, por exemplo, numa reunião de condomínio.

Acústica Subaquática
Ouvir a conversa alheia num bar é fácil! E se a prosa em foco for realizada em a uma aula de Hidro? Isso porque o som se propaga cerca de quatro vezes mais rápido na água do que no ar! E como o meio líquido é constituído de maior elasticidade, a compressão e descompressão sonora deturpam a qualidade das ondas. Daí todos falarem dentro d’água com voz de pato.
Esta disciplina propiciará ao aluno, por meio de aulas de laboratório, o domínio da decodificação dos timbres subaquáticos, bem como a percepção de seu campo harmônico.

Direito Amoral
A vida dos outros é problema seu, não é verdade? Por meio da leitura reflexiva dos códigos e leis que regulam o doutrinário do Direito Amoral, o aluno apreenderá a legislação pertinente a seu ofício. Atuará respaldado de conteúdo normativo em face aos  processos por invasão de privacidade e do que não lhes diz respeito.

Introdução a Neurofisiopatologia Românica dos Gestos Italianos
O que você faz para auscultar o parlatório da vida coletiva? Abre bem os ouvidos, certo? Pois, saiba que se quem tem boca vai a Roma, para quem chegou a Roma de nada adiantam os ouvidos, ragazzo maledito!!! Questo italiano non parla con la bocca!!!!!!!!! Italiano parla con “la mão”!!!!!. Capiche? Ragazzo dannato!!!

A cadeira “Introdução a Neurofisiopatologia Românica dos Gestos Italianos” irá iniciar o aluno na pantomímica e, por assim dizer, expansiva língua italiana. Uma vez que o curso completo tem por objetivo capacitar o discente a auscultação da vida alheia em qualquer ocasião,  provê-lo-emos das aptidões necessárias à compreensão do gestual românico, seja na Itália ou nos países de comportamento patológico-congênere.

Disciplinas Eletivas Extracurriculares
– Checar suas respectivas descrições na secretaria
(falar com  Dona Léa, a senhora da vila que passa à tarde na janela)

Antropologia da Curiosidade Funcional
Anatomofisiologia da Fofoca Instrumental
Leitura Labial em Braile à Distância (!)
Estágio Supervisionado (à escolha do aluno)

Daniel Marinho

O Pastor quer o meu dinheiro!

E qual não foi a surpresa, de novo, quando abri o envelope que chegara do correio. O Pastor Silas Malafaia – sim, aquele que passa mais de 25 horas por dia pregando “em nome de Deus” em horários comprados na Rede TV, Band e, claro, Record – tem insistido em querer se corresponder comigo.

Já é o terceiro envelope que recebo. Sempre polpudo, cheio de propagandas, folders, livretos e ensinamentos sobre como EU devo viver a MINHA VIDA, além das promessas de realizações e de um futuro próspero àqueles que agraciarem o valor de sua fé malafaica.

A fé, nesse caso, veio escrita num papel com código de barras, que é pagável preferencialmente nas agências Bradesco. Para facilitar, o ‘Boleto de Contribuição’ já estava até mesmo com o meu nome completo impresso – naturalmente, sem meu consentimento -, seguido de minha nova titulação, até então por mim ignorada: “Parceiro Ministerial Especial da Associação Vitória em Cristo”.

Na encomenda divina, além do mais bem diagramado boleto de cobrança que já vi em vida, veio também o libreto “Um Bom Futuro para Você”, do Pastor Silas Malafaia, uma mensagem desejando Feliz Natal (atrasada) e um 2011 de bênçãos para mim “e para toda a minha família” do Pastor Silas Malafaia e uma edição da Revista Fiel, cuja matéria de capa abordava o assunto… Pastor Silas Malafaia.

É bem verdade que o Natal de felicidades à que o Pastor se referia só estaria completo, segundo um encarte anexo, se eu desse aos meus chegados o que era então anunciado como “o melhor presente do mundo: a palavra de Deus – um presente para a vida eterna”. Em outras palavras: A “Bíblia da Mulher Vitoriosa”, disponíveis nas cores branca, duotone (?) e lilás-bordô; a “Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira”, nas cores marrom-creme, cinza-azul, creme-vermelho ou preta, dentre outras obras de renome da literatura mundial contemporânea.

Os ‘presentes melhores do mundo’, indicados pelo Pastor, são todos editados pela Editora Central Gospel – cujo endereço por coincidência é o mesmo da Associação Vitória em Cristo, do Pastor Silas Malafaia – e podem ser adquiridos em até 10 vezes sem juros no cartão ou cheque pré.

Como já dá para supor eram as mais nobres as intenções do meu novo “Pen Pal”; ele inclusive assegurava que uma vez depositada a contribuição do Parceiro Ministerial Especial – aquela do Boleto bem diagramado – na sua sacra-conta-corrente ele (sic) “glorificaria o Senhor por minha vida”. E ainda, por solidariedade, fazia o favor de me lembrar que caso eu já estivesse com o dinheiro, deveria enviá-lo I-M-E-D-I-A-T-A-M-E-N-T-E…

É que é o seguinte, o Pastor mesmo disse: “quando Deus fala ao nosso coração a respeito de uma semeadura, é porque Ele já tem uma colheita preparada para a gente”.

Entendeu?

Quando Deus fala??!?!

Das duas uma, ou o Pastor num grau acentuado de esquizofrenia lunática acredita piamente ser o procurador da palavra – e por extensão da conta bancária – de Deus, ou estão querendo me fazer crer que Jeová desce ao Brasil todo dia para, vestido de terno e gravata e com o cabelo chupado de gumex, gravar programas de auditório evangélicos em templos do subúrbio carioca!

Até onde o sacro óleo de peroba pode limpar o pecado do mundo?

Pastor, tende piedade de nós!

Daniel Marinho

O deserto e a roda

Corto estradas do deserto.
É a sede… a aridez que periga.
Me escoro no incerto,
no vácuo sonoro do silêncio,
nos retratos
de uma natureza despida.

Cruzo dimensões tortas.
Abro janelas no tempo.
O céu é a última porta.
Só o horizonte
cala os uivos de vento.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

Não há derrota, vitória, empate;
os deuses estão na torcida.
Não há sombra num Calafate
e a noite quase se dá
por esquecida.

São frutos de matéria morta
de uma natureza vencida.
Não importa,
ainda assim,
fecundaram minha vida.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

A Luz é insônia;
o mundo, rasteiro.
Miragens de piscina.
Desertos da Patagônia.
Não há mais roteiro,
nem Argentina

É o Tao.
O pulso timoneiro.
O roteiro que a vida ensina.

..

Daniel Marinho



Já abriu a porta de um avião em voo? Tomada 1: Fernando de Noronha!

“… e caso precise pousar em alto-mar, a aeronave afundará em 20 segundos” Atônito, eu ouvia as últimas orientações no Bandeirantes EMB-110, minutos antes da decolagem de um voo de quase duas horas sobre um longínquo mar aberto.

O Suboficial da Aeronáutica definitivamente não tinha a voz adocicada de uma aeromoça cheirando a flor de azaléia, mas fazia as vezes de um Comissário de Bordo atípico que nos passava as instruções necessárias, no caso de alguma pane com aquele bimotor mais velho do que eu e pouco maior do que a cozinha lá de casa. Em breve o Bandeirantes – espécie de “fusquinha da aviação brasileira” – cruzaria mais de 500 quilômetros sobre o Oceano Atlântico.

“ E os coletes estão nos acentos”, prosseguiu. “Há um bote salva-vidas, aquele amarelo do final da aeronave que também pode ser usado, caso haja tempo, porque o pior não é nem a queda; tem muito tubarão lá em baixo”. “Não se esqueçam! Se o piloto apagar, assume o co-piloto!”

Tem coisas que a gente até precisa saber, mas não precisavam se dar ao trabalho…

Minha jangada vai voar pra o mar

Eu sei. Nem podia reclamar muito. Apesar de já contabilizar mais de dois mil quilômetros no bimotor naquele momento, ainda faltava o trecho derradeiro para então aportar no destino final: um paraíso digno daqueles livrões de fotografias (belos, mas sempre esquecidos nas prateleiras das livrarias, talvez por essa estranha mania de lhes atribuírem três ou quatro dígitos ao preço de capa).

E ainda que a viagem fosse a trabalho, após subir a costa brasileira do Rio de Janeiro a Recife, o Banderulho – como o chamava graças ao ronco ensurdecedor daquelas turbinas que já vinham discutindo com meus ouvidos há algumas horas – ainda precisava cruzar muito oceano para chegar a Fernando de Noronha.

Enfim, que Ícaro nos proteja as asas; pouco menos de duas horas depois o Bandeirantes aterrissava com todo o charme que lhe é peculiar na curta pista da ilha principal do arquipélago.

A ida àquele punhado de “praias-capa-de-guia-de-viagem” – onde é mais fácil nadar com golfinho do que esbarrar com um ambulante na xepa do biscoito “Grobo” – tinha como principal objetivo a captação de imagens, aéreas e em solo, para duas produções de vídeo e uma revista – tudo assim, de uma vez mesmo; não é todo dia que se consegue ir para um lugar desses…

Nos dois dias e meio subsequentes, faríamos alguns takes das locações pré-planejadas e os voos para as filmagens e fotografias aéreas. Pouco tempo, é verdade, mas depois do tanto que tive de ‘ouvir’ dos amigos que tiveram de ficar no Rio de Janeiro quando reclamei do tempo curto de permanência em Noronha, não digo mais nada…

Aliás, esta é uma das situações inusitadas pelas quais você passa quando a boa ventura do destino te leva a Noronha, sobretudo se pelos ossos do seu estimado ofício. Os vídeos em questão estão, inclusive, dando mais trabalho do que deveriam por conta da viagem. A ida ao arquipélago era, de todo modo, essencial, mas uma vez que gente como eu – de minha ‘digníssima’ classe social, não costuma – ou pode – optar por desembolsar da própria carteira o equivalente a uma viagem para Europa para nadar por aquelas bandas, e ainda ter de pagar diariamente ao IBAMA simplesmente por estar pisando numa ilha, minha ida a trabalho ao paraíso atlântico tem curiosamente despertado um comportamento estranho de meus entes chegados quando os conto de minha jornada. Já perdi a conta das vezes que fui “xingado”!

Você vai a Noronha! Seu filho da p***!!!! Dizem carinhosamente… Do período que antecedeu a partida às tradicionais sessões de fotos com o cabinho USB da TV, na volta, tive de ouvir muito. Mais um pouco teria de me desculpar publicamente pela viagem…

The Treasure Island

De fato, Noronha sacode a imaginação de muita gente. Um paraíso perdido em meio a um azul que nunca acaba – e que vez por outra ainda comete o acinte de virar verde-esmeralda. Restrito e caro, nunca será para muitos, até mesmo pelas limitações logísticas e restrições de acesso impostas pelos órgãos ambientais do governo.

São 21 ilhas cercadas de mar em um micro-universo de cerca de 25 quilômetros quadrados. Na prática, porém, tudo se resume a ilha principal, que dá nome ao arquipélago; as demais são ilhotas pequenas.

Cachaça dos mergulhadores, o arquipélago possui uma vida marinha quase inverossímil: algumas braçadas com o snorkel na beira do mar e você já se sente num documentário do Discovery Channel. Peixe de tudo que é cor e tamanho e, pelo que se diz, tartarugas marinhas, arraias, golfinhos, recifes de de todo jeito, uma vegetação marinha singular e, eventualmente, tubarões inofensivos.

E não é só isso, a ilha é coberta por uma vegetação preservada, bem arborizada, e a vista das formações rochosas, esculpidas segundo a algazarra das erupções vulcânicas de milhões de anos atrás, apaziguam qualquer resquício de stress levado na bagagem. Violência? Nem se sabe o que é isso por lá. Malandro vai fugir para onde?

Em suma, um belo balneário que não conhece registros de homicídio, sem trânsito, sem buzinaço, sem carro com a mala aberta tocando funk e – a raça humana predadora finalmente deu uma dentro – sem cobras!

Mas isso não vem ao caso. O trabalho tomou praticamente toda a estada e o tempo que sobrou para descortinar a ilha como um vagante destemido que se preze foi escasso, espremido entre as horas e mais horas que as lentes e câmeras impuseram o foco da expedição: a captação das imagens. E , ao menos no que diz respeito à labuta, o velho Banderulho nos brindou em cheio, e com muita ousadia!

Noronha de portas abertas…

Imagine uma máquina de lavar roupa no pico da fase de centrifugação. Imagine agora também o barulho dentro de um negócio daquele com a tampa fechada…Ta ouvindo? Daí você se põe de frente àquele ventilador de Itu com uma ventania capaz de quase fazer do seu netbook uma pipa. Pronto, você está fazendo imagens aéreas de um Bandeirantes de porta aberta a 300 metros do nível do mar.

Nem vou aqui insistir muito em falar das curvas retorcidas, do avião sambando com o vento ou das sacudidas ininterruptas do valente voador, mas, confesso, qualquer desconforto é compensado pelas perspectivas únicas dos enquadramentos que te deixam a flor da pele – ao menos até você começar a sentir o almoço querendo subir esôfago acima…

Porque também não pense que tudo são flores, não… Ficar cerca de uma hora indo e voltando, subindo e descendo, num avião que se julga dublê de acrobata e não faz a menor cerimônia diante de uma curva fechada… Quando ela for daquelas afoitas, você, que já estava voando diante de uma porta aberta, será virado quase que de cara para o solo – por conseguinte para o vazio do espaço aéreo – sustentado somente pela alça de um cinto de segurança que acabou de lhe ser apresentado!

Gaiatices a parte, a verdade é que o que já é único do chão, ganha contornos relevantes de uma obra divina, quando do alto do céu num cair de tarde em Noronha. Por mais que tivesse de ficar atento a todo o momento, intermediando o contato da equipe com a tripulação para traçarmos as manobras de interesse sobre a ilha, era só distrair que vinha aquele silêncio particular em que o tempo entra em estado de suspensão.

Um silêncio que ouve tudo o que vê e ainda enxerga mais longe, porque entende que os contornos e as cores vão pular a cerca dos limites ordinários do dia-a-dia. E partir daí, meu caro, se já não há mais a surpresa da vista, há a catarse da alma, que se funde às lentes da máquina.

Exagero? Bem, ta certo que as palavras sempre gostam de puxar uma brasa para o seu lado, mas dá para imaginar que se trata, no mínimo, de uma experiência inusitada.

Assim, ao menos, foram os dois voos sobre Noronha de porta aberta. Cada qual em torno de uma hora, indo e voltando de todo jeito naqueles 25 quilômetros quadrados de arquipélago.

No primeiro, o céu estava da cor do mar e a ilha parecia ter se preparado para as fotos. No segundo, com o céu mais denso, as atrações foram os registros  das decolagens e dos pousos dos aviões sobre um plano de fundo insular e  selvagem.

E a verdade é que ainda que só estivesse no chão, essas “mirações” também embarcariam. Até porque esta ladainha toda de transcendência anímica é algo muito particular. Próprio de quem se deixa tomar pela atmosfera do lugar e pelos desígnios do momento – independentemente da perspectiva das lentes.

No ar, no chão ou dentro do mar, Noronha é assim. Um quadro desenhado por encomenda do ócio, onde não bastasse poder entrar, você ainda se banha em água quente. E nem precisa fazer muito esforço. A natureza já fez o dela há milhões de anos e se ninguém tiver nenhuma idéia extraordinária nos próximos milhões, talvez ela continue desse jeito. Deixa quieto! Não meche que piora!

Daniel Marinho


Ágora do Tempo

A culpa não é do tempo.
Não disfarça.
Mas a pressa esquece…
E a vida passa.

Tempo é:

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Aroma de incenso.
É pirraça.
É rabisco de fumaça
com o lápis de vento.

.

Uma pipa de criança
que, vencida,
se faz vitoriosa.
E empina sonho de moleque,
porque fixou residência no espaço.

.

O som bronzeado do sol.
A cigarra de bunda pra a lua.
Uma silhueta num banho nua.
O abrigo das lãs de um cachecol.

.

Um doce gole de cana.
Embriagado, rolando na grama.
Na grama melado de lama.
Zombando do homem de aço.

.

O louco, a pinguça, o cantante.
A sana de aproveitar devagar
cada instante.
.

A brisa nos ouvidos.
A lerdeza leveza
do crescimento das arvores.
Os causos dos viajantes.

.

.

Já: Ágora do tempo.
Abrigo do instante.
Na pressa, um levante,
vamos jorrar vinho na boca do velocímetro.
A graça e a arruaça
das deusas bacantes.

.

.

Agora: abrigo da vida.
Templo derradeiro do único tempo.
Indiferente, mas significante, e mesmo signo,
de tudo que dela é constituída.
Do que enfim constitui a vida:
a arte do instante.

 

Daniel Marinho