Pagando 39 mil reais, a passagem é de graça…

Uma loja de móveis da moda acaba de anunciar uma campanha que chancelou de vez minha teoria a respeito da esquizofrenia universal que acomete essa nossa terra de Lordes. É assim: a cada 39 mil reais em compras você ganha (?) uma passagem para Nova York… “de graça”!

Antes de bater a cabeça na parede nove vezes de desgosto e perder de vez qualquer esperança na evolução da condição humana, fui obrigado a conjecturar o tamanho do fosso dos dissabores do pobre (rico?) consumidor brasileiro.

O anúncio em momento algum fala “ao alcançar 39 mil reais”. Deixava claro que a premiação ocorreria a cada R$ 39 mil reais em compras! Em outras palavras, somos levados a crer que a empresa pressupõe ou a esclerose do consumidor médio brasileiro ou a clonagem – para posterior replicação – dos moradores do Alto Leblon ao longo de todo território do País.

Eu sei, eu sei… Ela orienta-se a um consumidor classe A, gente com bala na agulha, etc. Mas então já começaram errando feio de público alvo; essa gincana de Luis XIV não devia nem ter devaneado em materializar-se na tela da TV lá de casa.

E ainda que alguém tenha por hobby queimar meia-dúzia de cotas de 40 mil reais em móveis numa tarde ensolarada de domingo, depois daquela partidinha de Gamão Escocês num tabuleiro de mármore carrara, não me venha com essa conversa de passagem aérea de graça para Nova York!

Se o sujeito largar agora o Gamão com a “criadagem”, desistir do conjuntinho de sofá de pele de orangotangos de Madagascar da Todeschini e for à Internet, ele vai descobrir que pode, com esses mesmos 39 mil reais, (pela tarifa da Copa Airlines do início de março, por exemplo) cruzar o continente americano de Norte a Sul exatas 65 vezes!

Eu disse 65 vezes!  Seria demais explicar que dentro dos 39 mil em móveis esse brinde já estaria embutido tantas, tantas vezes, que com ele já daria pra amortizar o financiamento da viagem de quinze anos de sua futura bisneta à Lua!

Exageros à parte, o consumidor brasileiro mais abastado é manjadíssimo por comerciantes do mundo inteiro como o pato da patota. Presa fácil; adora pagar mais caro por uma grife. E pior, ainda tira onda disso! Ainda bem que por aqui no País ninguém passa necessidade.

Outro dia numa jornada ao Fashion Mall (toda ida a esse shopping de gente “diferenciada” é um estudo antropológico e divertido do comportamento da espécie, trabalho de campo, entende?) me peguei confabulando com a minha mulher se um camisa-jaqueta diferenciada (a venda por cinco mil reais!) devia ou não ser declarada no Imposto de Renda… Lá, a propósito, também tinha relógio de 40 mil reais. Será que também “davam” uma passagenzinha pra os States de graça?

Curioso é que quando chegar a Nova York, o sujeito ‘premiado’ vai acabar irremediavelmente comparando os preços que pagou na Todeschini com as tradicionais barbadas das congêneres norte-americanas… Lojas, aliás, de grifes mais esnobes e famosas. Vai espumar de ódio! Aí ele é que vai bater com a cara parede! E olha que parede de mármore carrara dói pra cacete!!!

Daniel Marinho

Vocabularite: ‘tioria’ e diagnóstico


“Vamos combinar” que “menas” coisas “estão sendo” mais irritantes do que essas expressõezinhas “mal colocadas” por essa gente “sinixxtra” que tem por aí. “Fala sério!” “Ninguém merece, nem!”

“Na real”, “a nível de uma releitura lingüística”,  “a nível de reengenharia bate-papal”, “a nível de racionalização de processos” com o intuito de – vai entender – fazer-se mais interessante a outrem, essa “vocabularite de acadimia” não “vai estar agregando” valor nenhum a nossa afamada cultura de massa de padaria, cujos proprietários são – “mais do que nunca” – exemplos de “grande-figura-humana”, como costuma afirmar um famoso apresentador de programa de auditório dominical.

(SIC ad eternum)

Menos, gente! Seje o que for, nem, ao menos em tioria, o que mais me irrita pra mi mesmo, o que mais agrega perca, é que tem muita gente supostamente instruída dando eco para tanta colocação.

S-u-r-r-e-aaaal… Tipo assim, é gente que já passou da puberdade há m-i-l-êêê-n-i-o-s (!?). Não, cara…nem!

Então…eu, a nível de grande figura humana, não quero combinar nada com ninguém. Ninguém merece! Não quero fazer colocação nenhuma, nem estar compactuando com essas tiorias!! Assim você me mata, véio!!!!

Pronto, falei! Fala séééééério!!!!!!!!!!!

Segue, enfim, mais desabafos de “colocações” do lado-negro-da-força que perderam-se no tempo:

Fulano é “da pá virada”: atualíssima, para os pais do Niemayer.
Balada: Uma caixa cheia de halls?
Supimpa: Argh!
“No seio de”: Pornografia? Expressãozinha típica de “adevogado”.
Destarte: Ídem ! Só para maiores de 18 ou menores acompanhados.
Internauta: só o Silvio Santos ainda fala assim.
Blogosfera: outra megalomania… Não tem nada mais lugar comum do que Internet.
Minha paquera: tem cheiro de romance do século XIX.
Bráulio: já não tem mais graça.
“Vou chapar!” – não, não vai. Quem fala assim é mais careta que o Bolsonaro.
“Meu possante” – atestado de playboy.
“Procuro parceiros estratégicos para…”: sem comentários!
“Sem comentários”: falta de vocabulário!
Garçom, “la dolorosa!”: batido
“adoooooooro”: deteeeeeesto
“Vamus-nélsom”: put a keep are you!
“Afogar o ganso”: do tempo da “pá virada” ·
“Da pá virada”: do tempo de “manda brasa”
“Manda brasa”: em que ano nós estamos, mesmo?´
E a pior de todas… Inconteste expressão rainha da propagação de toda a dor e sofrimento do mundo; evocado pelas expressões-piadas-des-graça-damente-sem-graça:

“É pavê ou pá comer?” Afff!!!

E aí? Alguém conhece mais alguma vocabularite?

Daniel Marinho

Dois Pierre ao quadrado é poliedro para cateto, Duda!!

 

Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?

Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.

Duda Spreafico é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.

É… Duda está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?

Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para ele, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”

Duda gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.

Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Duda, ao que consta, sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – dentre outros impropérios – a cor das calcinhas das moçoilas…

Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se por um lado Sr Spreafico  tem cabeça de polinômio, por outro tem coração de manteiga. E, em meio às ruelas antigas do Cosme Velho – ou de Friburgo -, emociona-se com os contrastes da vida, com as interlocuções poético urbanas e as fábulas do cotidiano, tal como um senhor de idade com espírituosidade de um menino curioso.

E por mais que pose de calculadora científica, Duda-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.

 

Daniel Marinho


(Esse texto é uma homenagem especial a Luigi Spreafico e aos escribas do Curta Crônicas, com quem tive a oportunidade de germinar grandes momentos e projetos ao longo do ano)

Magazine Compulsiva: o atacadão dos perturbados

Você é daquele tipo de gente que não pode ver uma porta de armário aberta ou um par de chinelos virado do avesso? Só entra nos lugares com o pé direito? Rói as unhas? Ou prefere os copos de plástico? Tem essa mania de ficar estalando os dedos o tempo todo?

Talvez você já fora alçado a uma condição de maior conceito e adquirira cacoetes mais nobres: quando atravessa a rua pela faixa de pedestres, só pisa em cima das listras brancas, não é? Você tem de esperar o telefone tocar quatro vezes e dar uma coçadinha na orelha antes de atender a chamada? Não termina nada em número impar e afirma que o grande dilúvio final chegará se não deixar suas cédulas de dinheiro convenientemente organizadas por ordem de antiguidade na carteira ou for forçado a pisar dentro daqueles losangos desenhados no piso do hall do prédio?

Ou isso tudo ainda é fichinha para você! Você é tão ‘exótico’, tão disforme que, quando fala das suas manias, é capaz de fazer corar até o Roberto Carlos! Você precisa ajustar o volume da TV em algum número múltiplo de sete; precisa limpar, uma por uma, todas as cerdas da sua escova de dente antes de bochechar e cuspir a pasta!  Você está certo de que se não lavar as mãos três vezes seguidas, com sabonetes glicerinados de cores diferentes, depois de  dar duas corridinhas ao redor da mesa de jantar antes de dormir, uma bigorna gigante cor de chumbo cairá sobre a sua cabeça!

Você é uma pessoa perturbada… É!  É sim…  E nem precisa fazer vista grossa, fingir que não ouviu, sair de fininho… Sabemos de coisas sobre você que até Deus e o diabo duvidariam…  Aliás, dá para parar com esse tremelique na  perna enquanto falo contigo?

Não esquenta… Somos discretos. Temos anos de experiência e nosso foco é nos resultados – ainda que repetitivos! Só a Magazine Compulsiva lembra de você!

Só a Compulsiva dispõe da mais seleta linha de itens especialmente dedicados às pessoas perturbadas. Não perca essa oportunidade! Tranque e destranque a porta da sala três vezes – para confirmar se ela está realmente fechada – e confira já algumas de nossas ofertas em destaque.

Na sessão de obsessões femininas, já está à venda (ao menos nas filiais de bairros que começam com a letra F e não tenham o número 13) um aplicativo para celulares smartphone, programado para ligar automaticamente para o seu marido de 30 em 30 minutos! O software já vem com um pre-set de perguntas gravadas em áudio: “Amor, no que você está pensando?” “Amor, confessa eu tô gorda, né?” e “Que voz é essa aí do lado, hein?”.

No módulo especial voltado aos paulistanos, um dicionário de concordância verbal desenvolvido por bêbados dará, enfim, legitimidade a estranha obsessão do paulista em de dar tanta porrada na gramática diariamente… Graças à Compulsiva, pedir ‘dois pastéus’ e ‘um chops’ agora terá jurisprudência vernacular!

Na sessão japonesa, a novidade é a câmera fotográfica que já vem com todas as fotos reveladas antes mesmo do japa sair de viagem obcecado pelo seu fotocídio… Ou seja, o resto da humanidade, enfim, agora também terá espaço para fotografar nos principais pontos turísticos mundiais! Nada daqueles grupos enormes de japa (existe algum deles que não ande em grupo?) com dedos nervosos, clicando Nikons e Canons caríssimas, a torto e a direito, impiedosamente por onde quer que passem (argh!).

Atenção também para nossa sessão de importados: o badalado “Neuros Assépsius Compulsive Washer”, limpador sistemático e repetitivo de maçanetas da Crazy Washer´s.

E mais! Relógios programáveis e personalizados: que não marcam segundos repetidos; que não marcam minutos múltiplos de oito; que só marcam os números pares; que não marcam os números primos; que não marcam as horas! (oi?)

Organização congênita, assepsia crônica, simetria aguda, verificação endêmica, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição (bate duas vezes na mesa, agora!!!!!). Você vai se sentir em casa!

Acesse já o nosso site (depois de limpar os teclados com aguarrás de novo) e confira as promoções da Compulsiva.

“Compulsiva! Obcecada por você!”

Daniel Marinho
Texto originalmente publicado no site Curta Crônicas 

 


O Conto da Vigária

Há quem diga que vingança é um prato que se come frio. Mas é que às vezes a oportunidade bate a porta e aí é pegar ou largar, só dá tempo de uma assoprada; come-se morno mesmo.

Foi assim com a Marcela numa dessas festas caretas de boatezinha da moda na Barra da Tijuca. Aquele tipo de boate que se você chegar de tênis ou barba por fazer é capaz de te darem voz de prisão!

– E aí gaaaaata, eu não te conheço de algum lugar, princêêêsa? (sussurrou ele, fazendo cara de Wando)

Luis Alfredo; notadamente um mala. Uma valise sem alça e assunto, expondo a chave do Audi por fora da calça jeans da ‘Diesel’ e os braços apertados por uma daquelas camisetas do tipo mamãe-sou-forte (da… ‘Diesel’, digamos).

Mauriçoca até o último fio de cabelo bem penteado, que por ter nascido com tudo o que quis – e o que não quis -, cresceu com a certeza de que a Terra só estava lhe aguardando para recomeçar a girar. Ainda assim, dado seus prin$ípios, estava acostumado a sempre – sempre mesmo – faturar na noite com as garotas dos condomínios do bairro emergente.

Àquelas horas, porém, com a casa quase por fechar, Marcela – gata paulistana escaldada das baladas cosmopolitas (de Ibiza à Istanbul, de onde inclusive acabara de chegar de mais uma turnê da sua Cia de Dança Contemporânea) – fez que não ouviu. Nunca o tinha visto na vida; nada lhe interessara dentro daquele invólucro. Era fazer-se de sonsa, virar o rosto, dar de ouvidos. Nada que qualquer mulher com seus atributos não tenha de fazer quase todo dia.

Mas “chato” para Luis Alfredo era um eufemismo… O garotão insistia com olhares, bocas e poses de Julio Iglesias a cada desdém da morena de longos cabelos lisos e tatuagem no pescoço. Afinal, não era possível! E o Audi?

Quando Luis Alfredo começou a recitar, em voz alta, versos do Roupa Nova, Marcela – já contendo a taça de Pina Colada que teimava em atirar-se involuntariamente de sua mão rumo à face do rapaz – resolveu ponderar. Ao andar da carruagem, quase aliás já virando abóbora, resolveu  pagar para ver. Pagar para ver e assistir de camarote. Quem diz o que quer…

– Claro! Eu me lembro de você! Nossa você é o…
– Luis Alfredo!
– Isso… Luis Alfredo… Claro!
– Você lembra?

Luis Alfredo perguntou,  surpreso.

– Claro! Lá da…da… escola, não?
– Você também estudou no Sacre Couer de Marie?
– Sacre Couer… isso! Aí que saudades das freiras… (ela mal podia acredita no que estava dizendo)
– Aha! Suspeitei desde o princípio!

Emendou Luis Alfredo, ao balançar os braços para simular o herói de anteninhas daquele programa que provavelmente o inspirara como projeto de vida e conhecimento.

– Mas então… Você não mudou nada, hein, Pintinho? Ainda continua com aqueles tiques estranhos?
– Tiques?  Pintinho?
– É! Aliás, você ainda lembra daquele gordinho metido a besta da turma (toda escola tem um gordinho metido a besta). E do João (esse aí, então…), lembra dele?
– É… Lembro. Mas você…
– Ana ! (Sempre haverá uma Ana). Meu nome é Ana! Lembrou?
– Da 6ª F?
– Isso! A que pegava o ônibus com aquela garota que você dava em cima? Como é mesmo o nome dela? Era a..
– Fernanda!?
– A Fernandinha! Quanto tempo eu não vejo a Nanda…
– Coincidência, hein, Ana!

Luis Alfredo estava preocupado.

– Nossa! Olha, nem te conto! Ela fazia a tua caveira viu! Aliás dava dó… Você de quatro, rastejando daquele jeito e todas as meninas da sala te sacaneando! Você também sempre foi meio esquisito, vai confessa…
– Como assim? Tá gozando com a minha cara?!
– Eu sei, não era fácil, não é?  Ninguém queria nem ser visto contigo, Pintinho…
– Mas… 
– Olha eu não zoava, não! Ficava com pena, mesmo… Era horrível o que falavam por trás de você! E era muito injusto, porque você não ficava sabendo… Mas agora os tempos são outros, Pintinho!
– Perá lá! Que negócio é esse de Pintinho?
– Sei lá os meninos que te chamavam assim. Pediam para não te dizer nada. Gente… Você nunca soube né?  Tadinho… Aliás, é mesmo! Por que será que te chamavam de Pintinho, Luis Alfredo?
– Mas eu não tenho… Eu não sou Pintinho!!!!
– Gente, até a professora de matemática pedia para eu te evitar. Essa gente não tem sentimento!
– Quem?
– Não lembra da professora carrasco da sexta-série?
– A Professora Vânia????
– Aham! Ela mesma!
– Mas como assim, me evitar?
– Olha, eu nem levava a sério, Pintinho. Mas é que…
-Para de me chamar assim!
– Achava meio escárnio das meninas. Além do que aquele fedor todo era gazes. Todo mundo tem…
– Fedor?
– É! Por que você acha que nenhuma menina queria ficar contigo?
– Mas ficavam sim!
– Ficava nada, Pintinho!
– LUIS!!
– Tá , Luis… Então, lembra a festa surpresa da Carolzinha?
– Não.
– Das festas do pijama na casa de Búzios do pai da Luana?
-Não!
– E das festas da lingerie na casa da Kelly?
– Não…
– E quando agente fingia que ia fazer trabalho de grupo na biblioteca e se escondia lá no vestiário do ginásio para brincar de salada mista?  Todo mundo chapadão… Todo mundo muito louco!!!
– NÃÃÃÃÃO!!!
– Pois é!
– Pois é o que?
– Ninguém te convidava, Pintinho!
– LUÍÍÍÍSSSS!!!
– Desculpa! Aí… Coitado! Nunca soube de nada…  

Sua euforia minguara. Luis não podia acreditar. Era duro demais para o velho pegador do Audi Conversível Vermelho. Até a professora Vânia?!  Nem o Marcelão-quebra-queixo lhe contara nada!

Como seria de agora em diante? Lidar para sempre com os traumas do passado? E ainda que tudo estivesse mal explicado, Pintinho (perdão, Luis!) estava desolado…

– Mas eu nunca soube de nada, Ana! Nunca ninguém me contou!  Por quê, meu Deus? Por quê?
– É Pintinho… Vou te dizer uma coisa, o que é o ser humano…

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Daniel Marinho

O Diário de Suzana Barraqueira: uma ficção egótica em cinco atos

2 de novembro – Não A-C-R-E-D-I-T-O! Acordei hoje mais gostosa do que já tinha acordado ontem! Pode? O espelho até quis me agarrar no banheiro!

Depois da academia, fui para o salão. Não via a hora de chegar ao Diva´s… Gosto muito das meninas de lá; a gente aprende tanto…

À tarde, passei o resto do dia em casa. Preciso mandar o Roderbal (meu mucamo que aluguei junto à agência de ex-bombeiros marombados) dar um jeito nesse apartamento, porque já não cabe mais nada por aqui.

Mas vou me desfazer de quê? Só guardo o necessário… Toda mulher merece ter, ao menos, um par de sapatos para cada dia do ano… O que o meu público (que me ama!) pensaria da Suzana, repetindo a mesma meia-calça mais de um dia?

E nem adianta a Hebe implicar com as minhas fotos de capa de Revista Contigo emolduradas em cristais, pele de chinchila e lantejoulas ao longo das paredes do corredor que leva à minha suítes… É invééééja

Obs: Lembrar o Roderbal de gravar programa do Nelson Rubens.

3 de novembro – Sonhei que tinha me mudado. No sonho, Roderbal, recém chegado do 23º Registro de Imóveis do 2º tabelionato do Cairo, no Egito, me entregava a escritura, lavrada em meu nome, da Grande Pirâmide de Quenfrén, onde ele já derrubava as paredes de um dos saguões superiores, para caber a minha penteadeira.

Fiquei puta com o Roderbal! Preferia a Quéops, que dá sol da manhã, vista para a Esfinge e é muito maior! Lá ainda dava para sobrar um espaço para guardar a minha maquiagem! Acho que ele não gostou… Disse que compraria o Rio Nilo para mim…

– Bota lá seu ego, Dona Suzana… Se apertar, cabe!

Não entendi…

4 de novembro – Acordo e, ao me ver no espelho, começo a ter espasmos orgásticos oníricos… Não fosse a gravação da novela do Aguinaldo, me comia todinha ali mesmo. O vizinho interfonou reclamando dos gemidos… Respondi a ele com toda a classe e compostura que me é pertinente, mandando-o à puta que o pariu, porque eu não sou mulhérzinha de aturar desaforo de vizinho! Além do que, o público brasileiro M-E  A-M-A!!

Sabe, fiquei encucada com o sonho do Egito… Pensei nele o resto do dia. O que era aquilo tudo, hein? Um sinal de algum Faraó? Será que agora até Ramsés vai querer agendar uma hora comigo? Ou seriam contatos de minha encarnação passada: a Cleópatra. Aí, gente… somos tão parecidas!

Obs: Lembrar Roberval da inscrição para a próxima Dança dos Famosos.

5 de novembro

11h00min AM – Acordo e vou direto à cozinha, tentando evitar o espelho. Não adianta, ele é que sai correndo atrás de mim. Quase me estupra em cima da mesa de centro.

Hoje vou ter de ir ao PROJAC de novo. Só vou por causa do Aguinaldo! Mas também…deve ser tão importante pra aqueles atores contracenar comigo… Melhor ir mesmo. Ah! E aquele personagem foi um preseeente… Vou ver se atraso um pouquinho para fazer um charme (a Vera vai ficar possessa de não ter tido a mesma ideia!

11h00min PM – De noite fiquei vendo TV em casa. Não tem nada que preste na TV a Cabo à noite… Nem tem programa de auditório!! Depois querem dar educação ao povo… Mudei pra Rede TV.

OBS: Gente tô passada! O que era aquilo que a Luciana Gimenez vestiu no Superpop de hoje? Uma mulher desse porte, que subiu na vida pelo próprio talento… usando Gucci!? Coisa mais popular!

6 de novembro – Nem dormi direito. Fiquei triste… Sabe, é nessas horas que a gente vê o quanto nós nos martirizamos por coisas tão passageiras, tão efêmeras, tão pequenas… Gente, coitada da Lu !!!!!!!

À tarde, fui para Sampa. A Hebe ficou lá em casa, tomando conta do Roderbal. Tive de fingir o tempo todo que não percebia que todo mundo ficava me notando no saguão do Santos-Dumont. Carioca da Zona Sul é besta! Nem me pede foto. É inveeeja!

Vou direto ao guichê da TAM e uma senhora – dessas já de idade avançada, sei lá uns 60 – tem o disparate de dizer que eu, como todo mundo, tinha de ir para o final da fila! Pode?

Olha…

Tem gente que não tem N-O-O-O-O-O-O-Ç-Ã-O!!!!

Daniel Marinho

Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

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