O deserto e a roda

Corto estradas do deserto.
É a sede… a aridez que periga.
Me escoro no incerto,
no vácuo sonoro do silêncio,
nos retratos
de uma natureza despida.

Cruzo dimensões tortas.
Abro janelas no tempo.
O céu é a última porta.
Só o horizonte
cala os uivos de vento.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

Não há derrota, vitória, empate;
os deuses estão na torcida.
Não há sombra num Calafate
e a noite quase se dá
por esquecida.

São frutos de matéria morta
de uma natureza vencida.
Não importa,
ainda assim,
fecundaram minha vida.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

A Luz é insônia;
o mundo, rasteiro.
Miragens de piscina.
Desertos da Patagônia.
Não há mais roteiro,
nem Argentina

É o Tao.
O pulso timoneiro.
O roteiro que a vida ensina.

..

Daniel Marinho



Ágora do Tempo

A culpa não é do tempo.
Não disfarça.
Mas a pressa esquece…
E a vida passa.

Tempo é:

.
Aroma de incenso.
É pirraça.
É rabisco de fumaça
com o lápis de vento.

.

Uma pipa de criança
que, vencida,
se faz vitoriosa.
E empina sonho de moleque,
porque fixou residência no espaço.

.

O som bronzeado do sol.
A cigarra de bunda pra a lua.
Uma silhueta num banho nua.
O abrigo das lãs de um cachecol.

.

Um doce gole de cana.
Embriagado, rolando na grama.
Na grama melado de lama.
Zombando do homem de aço.

.

O louco, a pinguça, o cantante.
A sana de aproveitar devagar
cada instante.
.

A brisa nos ouvidos.
A lerdeza leveza
do crescimento das arvores.
Os causos dos viajantes.

.

.

Já: Ágora do tempo.
Abrigo do instante.
Na pressa, um levante,
vamos jorrar vinho na boca do velocímetro.
A graça e a arruaça
das deusas bacantes.

.

.

Agora: abrigo da vida.
Templo derradeiro do único tempo.
Indiferente, mas significante, e mesmo signo,
de tudo que dela é constituída.
Do que enfim constitui a vida:
a arte do instante.

 

Daniel Marinho

O velho, o garoto e o mar

 

Ou o que dizer de um ancião cambalhoteando à beira da praia.

O garoto é o mar,

bebendo a sede das ondas,
batendo palmas na areia,

procurando curvas de sereia
no mais rareado ar.

.

O garoto é um velho
na fase derradeira
com uma vara de pescar.

.

Um velho, uma criança.
Mais do que uma lembrança
de tempos atrás
quando muito
nunca era demais

.

Na distração sem esforço.
Nas arruaças do tempo de moço.
Mas sem bananeiras…
Já não poderá.

.

O velho, o garoto e o mar.
Dentro da mesma lente
mas numa vida somente.
O garoto, de partida.
O velho, de despedida

.

Talhando novos traços.
Novas margens.
O entorno de gratas miragens.

.

O velho nem lembra da idade
se esqueceu de cansar.
Tá de sacanagem:
ele nada com as pernas
viradas pro ar.

 

Daniel Marinho

Vida e despedida

Letra :  Daniel Marinho
Música :  Daniel Guimarães
Clique na figura abaixo para ouvir !



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(Interpretada por Marcela Velon)


Versos são retratos
revelados no violão.
Com versos te converso
in memorian, gratidão.

.

Teu silêncio fala,
ainda canta essa canção
você partiu no trem
Expresso Redenção.

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Nem a primavera
escapa à perda, a dor da flor.
Nem ninguém espera
o dom das horas,
esse favor.

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Vida e a despedida
dão as mãos na estação,
vão te acolher no trem
Expresso Redenção.

.

Sentido imensidão
Nos trilhos, silêncio no porão

.

(Instrumental)

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Vida e a despedida
dão as mãos na estação,
vão te acolher no trem
Expresso Redenção
Sentido imensidão
Nos trilhos, silêncio no porão.

Sentidos Urbanos

A maior agressão a vista

Estou ficando cego. Ensurdessedoramente cego.
Não cheiro mais tudo que ouço, nem sinto mais o gosto que enxergo.

Não distingo o mignon do osso e estou sem tato pra o prato.
O cheiro da seda é insosso. E o da fumaça, o desespero do olfato.

As paredes urbanas me cegaram a vista. Assaltaram o meu horizonte.
E o vento se escondeu da brisa num engarrafamento da ponte.

Essa sombra de cal, mofo e cimento, antes um céu azulado,
virou cinema de vesgo. Pros ácaros uma biografia.
A vista da minha janela um firmamento aleijado
de quem sofre de miopia.

Lá fora, entre as trilhas do asfalto, as opiniões caem no braço.
Tudo aglomera, pouco se une. Só a goela se firma no palco.

Apito ou buzina. Indiferença ao sossego.
Liquidação de patricinha. A polícia, o flanelinha…
A sessão de descarrego.

Até Kepler, quem diria, aqui é tagarelo.
Os ruídos… ininterruptos. Em quiálteras.
A música… “das quimeras”.
E o ouvido, coitado, não tem pálpebras.

Um barulho com cheiro de cidade
Gaba-se por esculpir um outro plano.
Uma outra realidade.
Mas é um sonho com gosto de perda de validade.

É que parece que, de repente, só vale o que “agita”.
Ainda que, na verdade, pouco de divertido se permita.

E cada vez mais eu menos veja.
E sinta tudo pela metade

Porque quanto mais se grita,
mais se aumenta a sede.
E não há maior agressão à vista,
do que a visão de uma parede.

Daniel Marinho

Paleta Branca

Para a amiga Renata Mizrahi


Um dia branco
é um tempo que serve de esteio
.
Dia que esquece
não escurece
dia de nenhuma espécie
não diz a que veio
.
É um dia brando
e é assim porque
nem apetece
não chega floreiro
não bate escanteio
nada que
você me dissesse
.
Mas se há vazio
há espaço.
E a ausência
é só um pedaço
do que ainda não veio
.
É porque o destino é etéreo
reserva a paleta das cores
à sombra do temor dos mistérios
mas a mão dos corações trangressores
no peito que rasgam os tambores
.
Aquarela do dia
que não compadece
não desfalece
diante do que nem sabia
.
E cria no que antes temia
borrifando na penugem das dores
odores de flores
novos amores
as cores do dia.
Daniel Marinho

Renúncia

Difícil é estar triste e não saber por que.
O inexplicável vazio, a angústia, a culpa cristã.
O vácuo calafrio, em meio à fartura,
acordar vira tortura no café da manhã.

Ao leite e ao pão, as dúvidas, as estórias infundadas.
A faca esfola a manteiga e desvale-se ferida.
Numa reflexão desesperada à procura de uma saída

Difícil é não acordar tão feliz quando é tudo o que quero.
Ainda que quando tudo a mim nada falta.
Engolir minhas culpas, meus arrependimentos,
sem se sentir culpado

Saber do pouco que falta para as cores em luzes de ribalta
e para o cheiro da brisa úmida, que me curam a miopia,
já cega, doente e abarrotada de complexas teorias.

E então, o meu desencantamento se perde,
some silencioso na madrugada
e solenemente indefeso.

A longa amargura, o vazio,  o crepúsculo de outrora
É agora doçura. É aurora.

É o alaranjado no horizonte, que já sobe e reina sobre a quaresmeira,
que sem fuga e já crescida e sem seu consentimento,
despe-se e veste-se florida sem precisar entender a si mesmo.
Só ouve e intui a voz intermitente da flora.

São os segredos mudos que nos despertam
do desasossego. Quando há a fuga de tudo que é agora.

Abandonar o carro no meio da corrida.
O maior controle é a renúncia.
Para aceitar o convite de namoro com a vida.

 

Daniel Marinho