O deserto e a roda

Corto estradas do deserto.
É a sede… a aridez que periga.
Me escoro no incerto,
no vácuo sonoro do silêncio,
nos retratos
de uma natureza despida.

Cruzo dimensões tortas.
Abro janelas no tempo.
O céu é a última porta.
Só o horizonte
cala os uivos de vento.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

Não há derrota, vitória, empate;
os deuses estão na torcida.
Não há sombra num Calafate
e a noite quase se dá
por esquecida.

São frutos de matéria morta
de uma natureza vencida.
Não importa,
ainda assim,
fecundaram minha vida.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

A Luz é insônia;
o mundo, rasteiro.
Miragens de piscina.
Desertos da Patagônia.
Não há mais roteiro,
nem Argentina

É o Tao.
O pulso timoneiro.
O roteiro que a vida ensina.

..

Daniel Marinho



Já abriu a porta de um avião em voo? Tomada 1: Fernando de Noronha!

“… e caso precise pousar em alto-mar, a aeronave afundará em 20 segundos” Atônito, eu ouvia as últimas orientações no Bandeirantes EMB-110, minutos antes da decolagem de um voo de quase duas horas sobre um longínquo mar aberto.

O Suboficial da Aeronáutica definitivamente não tinha a voz adocicada de uma aeromoça cheirando a flor de azaléia, mas fazia as vezes de um Comissário de Bordo atípico que nos passava as instruções necessárias, no caso de alguma pane com aquele bimotor mais velho do que eu e pouco maior do que a cozinha lá de casa. Em breve o Bandeirantes – espécie de “fusquinha da aviação brasileira” – cruzaria mais de 500 quilômetros sobre o Oceano Atlântico.

“ E os coletes estão nos acentos”, prosseguiu. “Há um bote salva-vidas, aquele amarelo do final da aeronave que também pode ser usado, caso haja tempo, porque o pior não é nem a queda; tem muito tubarão lá em baixo”. “Não se esqueçam! Se o piloto apagar, assume o co-piloto!”

Tem coisas que a gente até precisa saber, mas não precisavam se dar ao trabalho…

Minha jangada vai voar pra o mar

Eu sei. Nem podia reclamar muito. Apesar de já contabilizar mais de dois mil quilômetros no bimotor naquele momento, ainda faltava o trecho derradeiro para então aportar no destino final: um paraíso digno daqueles livrões de fotografias (belos, mas sempre esquecidos nas prateleiras das livrarias, talvez por essa estranha mania de lhes atribuírem três ou quatro dígitos ao preço de capa).

E ainda que a viagem fosse a trabalho, após subir a costa brasileira do Rio de Janeiro a Recife, o Banderulho – como o chamava graças ao ronco ensurdecedor daquelas turbinas que já vinham discutindo com meus ouvidos há algumas horas – ainda precisava cruzar muito oceano para chegar a Fernando de Noronha.

Enfim, que Ícaro nos proteja as asas; pouco menos de duas horas depois o Bandeirantes aterrissava com todo o charme que lhe é peculiar na curta pista da ilha principal do arquipélago.

A ida àquele punhado de “praias-capa-de-guia-de-viagem” – onde é mais fácil nadar com golfinho do que esbarrar com um ambulante na xepa do biscoito “Grobo” – tinha como principal objetivo a captação de imagens, aéreas e em solo, para duas produções de vídeo e uma revista – tudo assim, de uma vez mesmo; não é todo dia que se consegue ir para um lugar desses…

Nos dois dias e meio subsequentes, faríamos alguns takes das locações pré-planejadas e os voos para as filmagens e fotografias aéreas. Pouco tempo, é verdade, mas depois do tanto que tive de ‘ouvir’ dos amigos que tiveram de ficar no Rio de Janeiro quando reclamei do tempo curto de permanência em Noronha, não digo mais nada…

Aliás, esta é uma das situações inusitadas pelas quais você passa quando a boa ventura do destino te leva a Noronha, sobretudo se pelos ossos do seu estimado ofício. Os vídeos em questão estão, inclusive, dando mais trabalho do que deveriam por conta da viagem. A ida ao arquipélago era, de todo modo, essencial, mas uma vez que gente como eu – de minha ‘digníssima’ classe social, não costuma – ou pode – optar por desembolsar da própria carteira o equivalente a uma viagem para Europa para nadar por aquelas bandas, e ainda ter de pagar diariamente ao IBAMA simplesmente por estar pisando numa ilha, minha ida a trabalho ao paraíso atlântico tem curiosamente despertado um comportamento estranho de meus entes chegados quando os conto de minha jornada. Já perdi a conta das vezes que fui “xingado”!

Você vai a Noronha! Seu filho da p***!!!! Dizem carinhosamente… Do período que antecedeu a partida às tradicionais sessões de fotos com o cabinho USB da TV, na volta, tive de ouvir muito. Mais um pouco teria de me desculpar publicamente pela viagem…

The Treasure Island

De fato, Noronha sacode a imaginação de muita gente. Um paraíso perdido em meio a um azul que nunca acaba – e que vez por outra ainda comete o acinte de virar verde-esmeralda. Restrito e caro, nunca será para muitos, até mesmo pelas limitações logísticas e restrições de acesso impostas pelos órgãos ambientais do governo.

São 21 ilhas cercadas de mar em um micro-universo de cerca de 25 quilômetros quadrados. Na prática, porém, tudo se resume a ilha principal, que dá nome ao arquipélago; as demais são ilhotas pequenas.

Cachaça dos mergulhadores, o arquipélago possui uma vida marinha quase inverossímil: algumas braçadas com o snorkel na beira do mar e você já se sente num documentário do Discovery Channel. Peixe de tudo que é cor e tamanho e, pelo que se diz, tartarugas marinhas, arraias, golfinhos, recifes de de todo jeito, uma vegetação marinha singular e, eventualmente, tubarões inofensivos.

E não é só isso, a ilha é coberta por uma vegetação preservada, bem arborizada, e a vista das formações rochosas, esculpidas segundo a algazarra das erupções vulcânicas de milhões de anos atrás, apaziguam qualquer resquício de stress levado na bagagem. Violência? Nem se sabe o que é isso por lá. Malandro vai fugir para onde?

Em suma, um belo balneário que não conhece registros de homicídio, sem trânsito, sem buzinaço, sem carro com a mala aberta tocando funk e – a raça humana predadora finalmente deu uma dentro – sem cobras!

Mas isso não vem ao caso. O trabalho tomou praticamente toda a estada e o tempo que sobrou para descortinar a ilha como um vagante destemido que se preze foi escasso, espremido entre as horas e mais horas que as lentes e câmeras impuseram o foco da expedição: a captação das imagens. E , ao menos no que diz respeito à labuta, o velho Banderulho nos brindou em cheio, e com muita ousadia!

Noronha de portas abertas…

Imagine uma máquina de lavar roupa no pico da fase de centrifugação. Imagine agora também o barulho dentro de um negócio daquele com a tampa fechada…Ta ouvindo? Daí você se põe de frente àquele ventilador de Itu com uma ventania capaz de quase fazer do seu netbook uma pipa. Pronto, você está fazendo imagens aéreas de um Bandeirantes de porta aberta a 300 metros do nível do mar.

Nem vou aqui insistir muito em falar das curvas retorcidas, do avião sambando com o vento ou das sacudidas ininterruptas do valente voador, mas, confesso, qualquer desconforto é compensado pelas perspectivas únicas dos enquadramentos que te deixam a flor da pele – ao menos até você começar a sentir o almoço querendo subir esôfago acima…

Porque também não pense que tudo são flores, não… Ficar cerca de uma hora indo e voltando, subindo e descendo, num avião que se julga dublê de acrobata e não faz a menor cerimônia diante de uma curva fechada… Quando ela for daquelas afoitas, você, que já estava voando diante de uma porta aberta, será virado quase que de cara para o solo – por conseguinte para o vazio do espaço aéreo – sustentado somente pela alça de um cinto de segurança que acabou de lhe ser apresentado!

Gaiatices a parte, a verdade é que o que já é único do chão, ganha contornos relevantes de uma obra divina, quando do alto do céu num cair de tarde em Noronha. Por mais que tivesse de ficar atento a todo o momento, intermediando o contato da equipe com a tripulação para traçarmos as manobras de interesse sobre a ilha, era só distrair que vinha aquele silêncio particular em que o tempo entra em estado de suspensão.

Um silêncio que ouve tudo o que vê e ainda enxerga mais longe, porque entende que os contornos e as cores vão pular a cerca dos limites ordinários do dia-a-dia. E partir daí, meu caro, se já não há mais a surpresa da vista, há a catarse da alma, que se funde às lentes da máquina.

Exagero? Bem, ta certo que as palavras sempre gostam de puxar uma brasa para o seu lado, mas dá para imaginar que se trata, no mínimo, de uma experiência inusitada.

Assim, ao menos, foram os dois voos sobre Noronha de porta aberta. Cada qual em torno de uma hora, indo e voltando de todo jeito naqueles 25 quilômetros quadrados de arquipélago.

No primeiro, o céu estava da cor do mar e a ilha parecia ter se preparado para as fotos. No segundo, com o céu mais denso, as atrações foram os registros  das decolagens e dos pousos dos aviões sobre um plano de fundo insular e  selvagem.

E a verdade é que ainda que só estivesse no chão, essas “mirações” também embarcariam. Até porque esta ladainha toda de transcendência anímica é algo muito particular. Próprio de quem se deixa tomar pela atmosfera do lugar e pelos desígnios do momento – independentemente da perspectiva das lentes.

No ar, no chão ou dentro do mar, Noronha é assim. Um quadro desenhado por encomenda do ócio, onde não bastasse poder entrar, você ainda se banha em água quente. E nem precisa fazer muito esforço. A natureza já fez o dela há milhões de anos e se ninguém tiver nenhuma idéia extraordinária nos próximos milhões, talvez ela continue desse jeito. Deixa quieto! Não meche que piora!

Daniel Marinho


O fim é o começo de tudo: rumo à Patagônia

 

 

Carta de Navegação - Terra do Fogo

 

Acabo de comprar passagens para o ‘Fim do Mundo’… Ou – como oportunamente completam os viajantes – o ‘Começo de Tudo’.

É que a assembléia extraordinária lá de casa reuniu-se na última semana para votar a favor de um reveillon na… Patagônia. Onze dias de expedição com escalas em Ushuaia, para nadar com os pinguins; El Calafate, para virar boneco de neve de geleira e – a cereja do bolo – Torres Del Paine – que se realmente for tudo isso que o Google Images diz que é… Fico por lá mesmo.

Para os neófitos, digo que a Patagônia não é só bloco de gelo boiando em meio a guanacos perdidos nos fiordes da Cordilheira do Andes. Há também as lhamas…

Escolhemos o verão, quando bate aquele calorzinho gostoso de nove graus Celsius ao meio-dia… Ou seja, se rolar um sol, ainda dá pra pegar uma praia…

Brincadeiras à parte, apesar de o pé das Américas ainda ser uma região pouco explorada, é destino acalentado por muita gente do mundo inteiro que aterrissa por lá todo ano. O que os leva até tão longe? Antes de tudo, paisagens, que não fossem os viajantes para assegurar sua veracidade, algum apressado acusaria de editadas pelo Photoshop, tamanho o ‘coeficiente de surrealidade’.

Claro, há também a curiosidade de chegar a um dos extremos continentais. Depois da “Terra do Fogo”, o extremo sul da Patagônia, só mesmo a Antártida, pouco mais de dois mil quilômetros dali. E convenhamos, não é todo dia que se vai a um lugar que tem por alcunha “O Fim do Mundo”.

E o destino vem a calhar financeiramente também. Como se não bastasse já há algum tempo tudo estar muito barato na Argentina, o dólar bateu a casa dos R$ 1,75 na última semana. Se somado a isso você adquirir o talento da arte da garimpagem de tarifas aéreas inadvertidamente baratas com antecedência – da qual me graduei recentemente – você ainda vai rindo, com a economia que fez ao desistir daquela festa, sempre igual, daquele hotel de gringo em alguma praia do Rio.

Las Patas

A Patagônia fica, digamos, no pé das Américas. Uma região que abrange o sul argentino e chileno, incluindo aí os chamados Andes Patagônios. É a porção de terra, como disse, mais austral do planeta antes das geleiras do Pólo Sul. Região mítica e simbólica da luta humana contra a força de uma natureza de extremos, onde além da temperatura e da dificuldade de locomoção em meio a um relevo montanhoso, sucederam-se ao longo dos tempos erupções de vulcões, que ainda estão ativos. Mesmo assim a Patagônia é hoje uma das Mecas do ecoturismo mundial, orgulhosa por seus habitats, flora, fauna e imagens que não se vêem em qualquer outro lugar.

 

Foto de Breno Fortes (National Geographic)

 

Lugar, aliás, para quem gosta de horizontes distantes, daqueles que dão férias à vista. Silêncio, céus de tons alaranjados, pores-de-sol no verão às 23 horas… Bem, isso é o que eu ando lendo por aí e o post da chegada dará, ou não, o corolário. Mas, numa região onde as estatísticas falam em 1,5 habitante por quilômetro quadrado, eu exijo, no mínimo, um céu estrelado à altura das minhas expectativas, que, aliás, costumam- e eu tenho de parar com isso – ser grandes.

O fato é que da natureza de paisagens lisérgicas que de lá se fez inquilina foram aparecendo com o tempo: primeiro os colonos, depois os viajantes, e, por fim, a atmosfera e estrutura que consolidaram a verdadeira vocação da região, o turismo. Pequenas cidadezinhas típicas de montanha com boa intraestrutura vivendo basicamente da atividade, recebendo mochileiros e viajantes de toda ordem.

O nome Patagônia é originado de mais uma daquelas observações insólitas que os europeus – entre a decapitação de um índio e outro – adoravam de fazer. O termo foi cunhado pelos homens da lendária expedição de Fernão de Magalhães que por lá passara em 1520 na então primeira viagem de (bota 80 dias nisso) volta ao mundo.

Era uma alusão aos indígenas que lá habitavam. Eles pareciam maiores do que realmente eram provavelmente por usar gorros altos e calçados de couro de guanaco (o calçado lhes exagerava o tamanho dos pés). Pata + gones = homens de patas grandes.

E o que é que isso tudo tem a ver com o meu café-com-leite? Você me pergunta. Não sei, mas é que estou empolgado com o assunto e tenho virado noites devorando literaturas sobre o tema – criança é assim mesmo. Tanto que andei descobrindo algumas preciosidades a respeito. A Patagônia tem história. Desconhecida mesmo, só dos brasileiros.

Veturas Del Sur

Bem, o fato é que após Magalhães descobrir o estreito de Magalhães (que na ocasião não se chamava assim, você supôs, eu espero), muita gente arrumou um meio de partir também para o fim do mundo. Não, necessariamente, movidas pelos mais nobres princípios. Piratas de todos os quadrantes passaram a bater ponto na então única passagem entre o Atlântico e o Pacífico – termo, aliás, também batizado por Magalhães, que mais uma vez mostrava ao mundo a sua mania e curiosa inaptidão para dar nome aos bois por onde quer que passasse: “el pacífico” como o chamou, é o mais instável, turbulento e perigoso dos nossos oceanos (o negócio do Magá era comandar esquadra).

Ainda no século XVI, os espanhóis tentaram por vezes fixarem-se no sul da região, na “Terra do Fogo”, dada à localidade estratégica do ‘entreposto’ dos oceanos. Em 1589 uma expedição gigantesca, liderada pelo capitão Sarmiento de Gamboa, partiu em direção à região com 23 Naus e mais de três mil homens, um disparate para a época.

Acontece que toda megalomania tem seu preço e das 23 Naus, 18 embarcações terminariam por banhar eternamente suas respectivas tripulações nas águas do Atlântico. As restantes, ao desembarcarem no destino programado por lá ficaram até a fundação de dois assentamentos, ambos na margem norte do estreito. Quatro naus regressaram à Espanha em seguida. A nau que sobrara, numa pequena viagem às proximidades, descobriria, tarde demais, que não poderia contar com a previsão do tempo patagônio dos ‘telejornais da época’.

Arrastada por uma das famosas tempestades da região, a nau foi levada a milhares de léguas de distância, aportando – é sério – no Rio de Janeiro. De lá, enviou alguns barcos às colônias do Sul; todos naufragaram. Atônito, o capitão Gamboa decide ir a Espanha em busca de ajuda. Mas, como todo castigo é pouco, a nau é atacada no meio do caminho por piratas ingleses, que insistem em, dias depois, fazer deles hóspedes compulsórios de uma prisão britânica, para nunca mais voltarem a estalar castanholas na Catalunha.

Mas e os colonos que lá ficaram? Bem, conta a história que em algum inverno do século XVI, quando tiveram de enfrentar algo em torno de 30 graus abaixo de zero (com vento!) depois de acabar os gatos, passaram a comer o couro dos bois, depois de acabar o couro dos bois, passaram a comer o das botas, depois… Bem, agora Inês é morta.

Mas, de fato, com o tempo os espanhóis conseguiriam ao menos colonizar o Norte patagônio, a região das estepes. Ao introduzir os rebanhos, porém, começaram a se incomodar com os índios que ‘ocupavam’ boa parte da terra impedindo o crescimento das estâncias – enfim, coisa de europeu… Práticos, contrataram ‘caçadores’ para dar uma solução à pendência. A recompensa dos rapazes era assegurada ao apresentar os pedaços de testículos e seios arrancados de suas vítimas – enfim, coisa de europeu.

Charles Darwin também veio sentir frio por lá. Integrante de uma expedição científica, foi praticamente o primeiro cientista a estudar a natureza selvagem da Patagônia, citada no livro Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo (1890) – o que não é lá grande coisa depois que descobri que até por Itaipuaçú o naturalista já passou…

Devo registrar também que Butch Cassidy e Sundance Kid – os fora-da-lei do oeste americano, cuja história já virou um filme interpretado por Paul Newman e Robert Redford – também deram as caras pela Pata. Apesar de não aparecer na película, historiadores – entre eles o escritor chileno de “Patagônia Express”, Luis Sepúlveda – afirmam que ambos não teriam morrido na Bolívia como reza a história oficial, mas sim no sul do Chile. Com nomes falsos, no início do século passado, depois de vaguear pela Patagônia, passaram a levar a vida como fazendeiros em Cholila, fazendo vez-e-outra um servicinho extra (provavelmente de assalto a banco). A história descrita por Sepúlveda, aliás, é a base do roteiro de um filme de Walter Salles, que o adaptará para as telas em breve.

Enfim, histórias e estórias não faltam à Patagônia. E também não faltarão, para escrevinhar amenidades de uma jornada ao pé das Américas. Anotar, registrar, narrar, passar as dicas e o que mais der na telha. Porque fim do mundo mesmo, nem existe. Seja no Ushuaia ou em alguma data pretensamente eleita por teóricos conspiradores depressivos de plantão. O fim, aliás, é distante, é o caminho…de uma vida inteira.


Daniel Marinho

O Fantasma do Theatro Municipal

(memórias ‘crônicas’ de uma ópera particular)

Um camisão xadrez de flanela grunge, a barbicha estilizada e o violão no case carregado à mão. Voltava do Villa Lobos, uma escola de música centenária do centro antigo do Rio.  O rumo era o metrô e, não sei por que ‘quimeras’, ao invés de abreviar o caminho descendo na carioca, como de costume, alonguei uma caminhada noturna até a Cinelândia.

Não que esses rompantes de decisão de meio de caminho sejam raros. Tudo é desculpa para a rua ser a regra e a casa, a exceção. Mas era só uma caminhada breve e estava convencido de descer na primeira escadaria do metrô, em frente ao Theatro Municipal do Rio.

No caminho, um homem mal vestido com pinta de malandro “com aparato de malandro oficial” me aborda. Faço que não ouvi e sigo em frente, mas ele insiste e parece não oferecer alguma ameaça séria. Queria me vender alguma coisa; tickets para uma ópera do Municipal. Era um cambista.

Não sou chegado a óperas.  Com todo o respeito, mas não gosto. Curto e me emociono com orquestras sinfônicas, música clássica e outras ditas “erudições” , mas alguns segundos ouvindo aquele vibrato em italiano e eu já tenho aflições.

O ingresso era 100 reais, mas ele – ‘bom rapaz’, veja só – não se importava em, nas palavras dele, ‘dar’ essa oportunidade única para mim por 60.

– Não! – respondi certo do que não queria.

Mais certo ainda do que dizia estava o meu interlocutor. Ele agora me lembrava que o evento começaria em cinco minutos e por isso ele não se importaria de fazer por 40…

– Afinal, você é músico, não é? – tentava me convencer ao notar o violão a tiracolo.

Naquela época dinheiro era para mim era uma espécie de ente mítico que insistia em brincar de pique-esconde com a minha carteira. Eu era capaz de ir e voltar do Maracanã à Usina a pé (uns cinco quilômetros) para assegurar que o joelho de queijo e presunto do dia seguinte seria acompanhado de um Guaravita. 40 reais ? Por uma ópera?

– Não!

Ele mudou então sua estratégia de abordagem: de malandro a chato mesmo. E começou a elucubrar as razões pelas quais eu não poderia deixar de aproveitar a oportunidade, segundo ele,” única em uma vida!”. Perguntei por que insistia tanto e ele não demorou na resposta:

– Trinta reais, agora!

– Não! – retruquei.

– Então por vinte – ele era chato.

– Também não!

– Quinzeee!!!!!!!

Ele não desistia… Eu estava decidido a ir para casa, já estava tarde, acordaria cedo, não tinha nem companhia…

– Eu faço por dez reais SÓ POR QUE É PRA VOCÊ – (maior cara dura, impossível!)

Hesitei por um instante… Afinal, haveria de ter algum motivo para aquilo tudo. Na pior das hipóteses, eu nunca tinha entrado no Municipal do Rio. E que mal teria…

Ainda assim, achava caro o custo/benefício pra minha carteira que ocasionalmente realizava experiências com o vácuo absoluto. Por outro lado, nesse andar da carruagem, já tinha notado que o balanço da barganha já estava afundando no meu pé de tanto pender para o meu lado. Acontece que também sei ser nojento:

– Cinco reais! Por cinco reais eu compro o seu ingresso! – afirmei com uma cara de pau ainda maior (a gente aprende rápido).

Deu para notar, mais do que alívio, uma baba esquisita saindo da boca do cambista que começara então a espumar. Não só por mim, mas também pelas outras dúzias de ingressos com as quais ele provavelmente morreria na mão. O que de certo ponto de vista não era um bom presságio para o espetáculo. De qualquer modo, o negócio foi fechado. Eu ia, enfim, a uma ópera no Municipal.

Assombrações Traviattas


Entreguei o ingresso à hostess da casa – lá não há bilheteira, há hostess – e foi o tempo de pisar sob o fresquíssimo foyer do imaculado Theatro centenário e já ser convidado a entrar. O espetáculo começaria imediatamente.

Vi o primeiro ato de uma daquelas poltronas do andar mais baixo (deve haver algum nome empolado em francês para este tipo de assento; não faço idéia). Logo ao abrir do pano, um senhor barbudo de meia idade entra no palco. Exageradamente maquiado ele começa a cantar – em minha opinião também exageradamente – em italiano. Os vibratos, claro, todos eles lá, bem alto. Não podia esperar outra coisa. Eram os meus piores pesadelos se concretizando.

Não demora muito e começo a me mexer na cadeira. Espero o intervalo – até porque não estava disposto a enfrentar a fúria enraivecida de um típico freqüentador de espetáculos eruditos capaz de chamar os seguranças no primeiro acesso de pigarro de qualquer espectador, imagina trocar de lugar – e subo ao segundo andar para, ao menos, buscar uma… nova perspectiva. Quem sabe?

Não resolve. O segundo ato começava e as coisas não melhoravam para mim. Puxei papo com o senhor ao lado, mas notei que a conversa de pé de ouvido não iria muito longe. Para me distrair vou ao banheiro.

No caminho, noto os detalhes arquitetônicos do interior da casa e tenho um insight repentino. Se o estupro é inevitável, vamos ao menos conhecer o Theatro Municipal!

Inside the actor´s studios

Parto rumo a todas as direções possíveis e em algumas dezenas de minutos não há mais um só canto da área aberta ao público que eu não conheça. A peregrinação é válida e descortina muitos dos pomposos mimos que o teatro réplica da Ópera de Paris oferece a um representante da plebe. Salões enormes, escadarias adornadamente desertas, ornamentos em ônix, pinturas a óleo, peças em bronze, castiçais, tenho a nítida impressão de esbarrar com fantasma de Pereira Passos. A brincadeira parece estar próxima do fim, mas no último andar há uma porta no meio do caminho e ela grita:

“Entrada expressamente proibida” .

Veja, não sou deseducado. Entendo quando não sou convidado. De modo que não continuaria diante uma entrada que é proibida. Mas “expressamente” proibida? Era demais! A curiosidade não agüentou! O grito a acordara de seus sonos mais profundos… Era girar a maçaneta e entrar, porque a porta, como costuma acontecer nessas ocasiões, estava aberta.

O segundo ato ainda corria, mas a partir daí o espetáculo não seria mais o dos tenores. A porta dava acesso a uma estrutura de metal já próxima ao teto, na parte posterior do teatro exatamente sobre o palco. Nessas horas, a velha máxima “penso, logo HESITO” faz toda a diferença. Como não ponderei muito a respeito, depois de um ligeiro esforço, consegui subir. Era, de fato, uma nova perspectiva: passava a ter de olhar para a direção de meus pés para ver os atores!

O mundo das coxias então se abriu em cada detalhe dos melhores planos possíveis lá de cima. E a sensação era curiosa, já que de meu ponto de vista eu podia observar a tudo sem ser observado. Era um vulto, uma sombra em meio à escuridão, esbarrando nas pinturas seculares que Eliseu Visconti pintara no teto há mais de um século atrás (agora que foi reformado posso dizer mesmo), quando também precisou subir até essa área só de alcance dos menos escrupulosos.

Ao caminhar pelas vigas horizontais, lembro que mal podia diferenciar meu pé das cabeças dos atores, e sabia que qualquer passo em falso me tornaria, em questão de segundos, parte do espetáculo de uma cena mórbida lá em baixo.

A noite finalmente começava a melhorar…

Lá de cima todos os takes possíveis dos bastidores estavam, em grande angular e tele, ao meu alcance. Os detalhes dos ornamentos nos figurinos, as camareiras que corriam de um lado para outro para vestir os atores, os refletores que se movimentavam ao meu lado para ambientar as cenas, as partes móveis do cenário a postos para dele fazer parte, contra-regras, maquiadores, produtores, atores, todos correndo de um lado para outro de modo a deixar tinindo o espetáculo para alguém que, supostamente, não deveria estar assistindo a tudo isso de onde eu estava.

Atravesso o palco por cima e, enfim, depois de algumas lições autodidatas de equilibrismo e em meio a algumas acrobacias eu consigo pular da estrutura de metal com vida – Dionísio sempre esteve do meu lado – e alcanço o edifício da administração do teatro.

Lá bemol

A cena então muda. Longos corredores com salas e escritórios ordinários como quaisquer outros. Não fosse um som gostoso de coxia e os vocalizes, poderia ser algum outro prédio antigo do centro do Rio, mas a súbita presença de moças seminuas mascaradas e com o corpo pintado correndo em minha direção põem em cheque a ideia. Garbosas, elas dão um sorriso e passam rumo ao camarim. Não era comigo. Estão com pressa e não para papo.

Desço também. O volume do som dos vocalizes aumenta significativamente, as moças já não estão mais lá e não há exatamente camarins. Estava mais para um complexo hoteleiro, um resort cênico voltado aos atores. Tudo grandiloqüente, a começar pela lanchonete, muito maior que o ‘bistrôzinho’ recém inaugurado no anexo do prédio aos mortais espectadores.

Passava, entretanto, a ser observado. Mas o case de violão na mão, aquela barbicha disciplinadamente mal feita e o camisão grunge somados a um ar blasé me confundiriam com qualquer um daquela casa. Na pior das hipóteses, era só fazer cara de amigo do diretor artístico.

O tempo começava a ficar escasso e sabia que a obra estava por terminar. Desci mais. No subsolo sou brindado pela grata surpresa de tropeçar no espaço reservado à orquestra logo abaixo do palco.

Nunca me esqueço daquele momento. Enquanto me deixavam, eu ia entrando e me vi completamente em meio à ‘instrumentália’ toda de um momento para o outro. O oboé era ainda mais suave. As cordas arqueadas dos violoncelos, a distorção acústica dos baixos, a estridência dos flautins… O que não arrepiava, assustava. Tudo era mais impressionante ainda dali de baixo e eu parecia estar imerso numa partitura mesmo – nenhum ingresso poderia pagar aquilo.

Poucos, mas eternos minutos. Tempo suficiente para ouvir um Grand Finale apoteótico ao lado dos rufares finais dos tambores e do furor propositalmente dissonante das notas de um sax soprano curiosamente envenenado.

If Nothing is ventured, nothing is earned

O espetáculo acabaria e eu continuaria ainda muito tempo por lá. Puxando assunto com os cenógrafos, preparadores vocais, camareiras, as moças mascaradas – agora compostas -, até os seguranças, transeuntes de qualquer ordem. Não queria mais ir embora. Bati papo com os músicos – cheguei até a experimentar um cello – minha cara de amigo de diretor era convincente. Em algum momento eles tiveram de ir embora e – como eu não tinha as chaves para trancar o Theatro na saída – fui obrigado a ir também.

Já se vão anos que isso aconteceu, mas eu nunca me esqueci dessa noite do Municipal. Ela cheira àquelas limonadas que ficam por aí por fazer a nossa espreita escondidas em meio às rotinas do dia-a-dia com seus parcos limõezinhos – ao menos para quem está disponível ao acaso. E não dá para marcar um encontro com o acaso; ele sempre pinta com aquele papo malandrão de “é pegar ou largar!”. Pior, às vezes se esconde atrás de uma porta sacana cuja entrada, sem algum motivo razoável, é expressamente proibida. Na mosca! É o buraco do coelho! Morpheus e a pílula vermelha!

E a ideia era ter pegado metrô, lembra? Se soubesse, pagaria os 100 reais rindo.

Daniel Marinho