Manual para cruzar geleiras na Patagônia

Por Daniel Marinho

*Originalmente publicado no site O Viajante

Já passava das 18h quando os motores da embarcação foram acionados. Numa latitude do planeta em que o sol, nessa época, só vai para cama pouco antes da meia-noite, os passageiros ainda empapuçavam o rosto de protetor solar, precavidos da “insolação noturna”. Não era um barco comum. Para adentrar o Brazo Rico do Lago Argentino – que margeia a face sul do Glaciar Perito Moreno – a embarcação há de cortar, vez por outra, pedaços de gelo desgarrados das pedras maiores que então, boiando, nos observavam de mais longe. Um cenário por si só inusitado; o mais próximo do que pude imaginar de algum “passeio” de Amyr Klink. Curioso, pergunto sobre temperatura da água: “dos grados Celsius… Lo suficiente como para morir de hipotermia en cuestión de minutos” afirmava o Comandante, antes de meu arrependimento.

A imponência daquela monstruosidade branca surpreendia. Subia a 70m acima da água, margeando-a por 5km e adentrava Cordilheira dos Andes afora. Invariavelmente, despedaçava-se nas beiradas, em estrondos graves e cinematográficos; em constante movimento, o penhasco avança e retrocede, há muito tempo, conforme as vaidades da estação do ano.

Do desembarque no píer, uma fila indiana seguiu pelos últimos resquícios da terra árida dos arredores de El Calafate, cidade-base da expedição. Gorros, óculos, ceroulas, casacos, cachecol, impermeáveis, luvas… faltava o mais indispensável: “los crampones”. Uma estrutura forte de ferro grudada à sola do sapato com extremidades pontiagudas afiadas para baixo e para frente para a aderência dos pés ao gelo. Em geleira, anda-se de “ferradura”. Sem elas, é patinação na certa.

Aos poucos, as passadas deixavam de arranhar a terra que agora se escondia sob um manto poroso. De pedra em pedra, floco em floco, começa clarear tudo por completo. Os pés afundavam cada vez mais, exigindo mais do corpo para lançar-se a um deserto branco, infinito até onde a vista alcança. Aquele gigante precipício branco avistado do barco, aquele despenhadeiro inóspito de gelo jazia, enfim, sob os pés.

Foto-2

Andar já não seria como antes. Crocante, o chão falava a cada pegada numa conexão intensa com uma terra que já não mais existia e dava vez ao estado mais bruto da água. Sólida, ela é que leva adiante, empurrando as travas dos crampones, me balançando como um pinguim. Como o destino não se revelava, em meio à amplidão nívea do jardim de esculturas de gelo, sem referências espaciais evidentes, restava confiar na fila indiana. A fila de babel, onde os mais diferentes idiomas se compreendiam, já que encanto – e o espanto – são linguagens universais.

Subindo e descendo as colinas de gelo por mais de uma hora, o olhar ia sendo treinado a enxergar o que até então fora menos óbvio. O derretimento dos picos em pequenas duchas de verão, os poços de água límpida brotando do fundo da Terra, as fendas que sob o reflexo da luz revelavam-se em um azul anil da cor do céu daquele dia, agora espelhado na sensação de caminhar sobre cristais no mundo de Guliver. Uma experiência ficcional, não fosse o frio do gelo que desperta mais do que qualquer beliscão.

No desfecho, um convite. Em uma mesa improvisada sobre a geleira com vista para o lago, alfajores de dulce de leche alternavam-se com doses de whisky numa festa poliglota. Caubói? Que nada! Whisky resfriado por pedrinhas de gelo, claro, catadas do chão. Era a redenção derradeira daquela noite ensolarada. Sem compromisso algum com a sensatez, havíamos acabado de conquistar a Era do Gelo.

neve-patagônia01

Aviso aos Navegantes
COMO CHEGAR

O Glaciar Perito Moreno é apenas mais uma das 356 geleiras do Parque Nacional Los Glaciares, na Patagônia Argentina. Dado o fácil acesso – e sua beleza também, claro – terminou por sagrar-se como o glaciar mais famoso da região. Fica a 78 km da cidade de El Calafate, que dispõe de aeroporto e rodoviária.

Há voos diários de Buenos Aires – pouco mais de três horas de percurso – que custam, em média, US$ 350 (tarifa cheia normal, sem promoção). Um bilhete de múltiplos destinos, no entanto, que conjugue a partida de uma cidade brasileira a desembarques em Buenos Aires, El Calafate – e quem sabe outra cidade da Patagônia – sairá, sem dúvida, um custo-benefício muito melhor e, todos os trechos, mais em conta.

Para chegar ao glaciar a partir de El Calafate é preciso pegar a estrada. É distante, cerca de uma hora e meia, mas o trajeto, entre as áreas desérticas e as margens do Lago Argentino é belíssimo e apaziguador, muito incomum às paisagens brasileiras. Pode-se chegar ao parque de carro, taxi ou por meio de ônibus dos tours organizados pelas agências de El Calafate.

QUANDO IR

Faz frio durante o ano inteiro, mas no inverno o negócio realmente complica e não fica muito amistoso para um brasileiro. De novembro a março é a época ideal, não só pela temperatura, mas, sobretudo pelas longas horas de sol do dia. Nessa época do ano a temperatura à noite em El Calafate, fica, em média, de 0 a 10 graus e ao longo do dia pode chegar a picos de até 28 graus graças à aridez da região.

ONDE FICAR

Ao longo da estrada RP 11, que liga o parque à cidade, há alguns campings e dentro do parque, um único hotel. A grande maioria dos viajantes, porém, prefere ficar na própria El Calafate, já que as idas ao parque terminam por tomar quase o dia todo. El Calafate é, aliás, uma vila minúscula, mas um tanto charmosa. Com restaurantes, creperias, pequenos museus, cafés e um pub/livraria bacaninha. Há até um pequeno cassino na cidade, na rua principal, onde, aliás, concentram-se quase todas atrações. Ou seja, apesar de turística, a cidade é uma atração à parte que oferece lá seus encantos.

QUANTO CUSTA

Os tours de aventura em cidades como El Calafate e outras da região da Patagônia são caros e raríssimos desavisados, ou muito experientes, encaram um glaciar sozinho. Não é como uma trilha na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. O trekking guiado no Glaciar Perito Moreno é atualmente monopolizado pela agência Hielo e Aventura que faz dois tours diferentes: o menor, de duas horas de caminhada sobre o gelo (Minitrekking – 800 pesos, com o traslado) e o maior, de uma caminhada de três horas e meia (Big Ice – 1200 pesos com o traslado).

É caro, mas quanto se gasta numa viagem aos Estados Unidos ou Europa? Quanto se gasta para hospedar-se numa pousada num balneário brasileiro em alta temporada? Desconhecida de muitos brasileiros, a Patagônia reúne paisagens que não deixam nada a dever aos Alpes ou às montanhas do Canadá (e fica aqui do lado). Além do que, los pesitos doem bem menos no bolso do que dólar, euro ou libra esterlina!

O Som do Atacama

Por Daniel Marinho
Não se vê arvores daqui de cima, nenhuma. Há um vácuo cor de rocha de entardecer, entrecortado pelas escarpas afiadas das montanhas da Cordilheira. Com os cumes descoloridos pelo branco esparramado de neve,  faz vigília a mais uma travessia do LA152 da LAN rumo a San Pedro do Atacama, “hub” das expedições ao deserto mais seco do mundo.

O paredão andino alcança, em alguns casos, quase sete mil metros de pedra e água congelada; altitude muito próxima do meu capuchino, que acima do colo, sobre a mesinha afixada à poltrona do passageiro inquieto da frente, não precisava estar fervendo, já que agora saltita com mais vigor, por galhofa da turbulência típica do Cruce del Andes.

O comandante tira o motor e cala a turbina, aumentando, na proporção inversa, a apreensão de quem não gosta de lembrar os efeitos da gravidade nessa altitude. Pede para atar os cintos e a tripulação some correndo com o carrinho sortido de amendoins, que levado às cortinas do fim do corredor, não distrairá mais o nervosismo dos passageiros .

É quando, da janelinha, os picos que predominavam dão vez a uma profusão de minúsculos lagos trançados por corredeiras. Inquilinos do Planalto Atacamenho, imagina-se, devem resultar de algum degelo, já que chuva por aqui…

Na terra árida do Atacama não há traços retos. Há uma sucessão de fendas anônimas, rasgadas involuntariamente pelo tempo. Por vezes, colorem o deserto com tons que só a luz do sol enxerga ou, quando um olhar mais atento denuncia, revelam-se nas variações do ocre da terra seca de vegetação rasteira, aclarado por estrelas de todas as ordens de grandeza e pela raspagem do vento que já as entalha há algum tempo. Desabitadas, tem por vocação, hoje, a de passarela de Airbus.

O que chama atenção, porém, é o vazio. O silencio. O não preenchido. O fruto do intervalo no espaço. O parênteses do tempo. A aerodinâmica perfeita para a credibilidade do movimento. Uma ode do espaço à inércia.

Em nosso cotidiano urbano, que nos ocupa permanentemente de compromissos, horários, tarefas, informações de toda ordem, nada contrapõem melhor o caótico do que a vastidão inócua e surpreendente da imensidão lunar do deserto mais seco do mundo. Vazio que lava alma, descansa a vista e descasca – polo a polo – a ansiedade, revelando o excesso de desenecessidades acumuladas.

Tal como um papel pedra – daqueles que colávamos no isopor para os trabalhos de grupo da escola – as montanhas do deserto estão rabiscadas a esmo, segundo uma fundamentação libertária e infantil. Um tipo de estrada cujo fim não chega e que quando termina, até onde a vista alcança, não chega a nenhum lugar. Longas, afinam-se cada vez mais, até, por fim, desfocarem-se, espetando a bunda do horizonte.

Considerado o mais próximo do que se pode entender da Lua, o Atacama é a Terra em sua condição mais arcaica, mais ingênua, simples e essencial.

É o mesmo planeta. Despossuído de tudo que hoje o possui.

Aqui, a Terra está Nua. O resto é silêncio.

..
27 de Dezembro de 2012
Atacama, Chile

Daniel Marinho

Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

istambul.jpg

Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

.
Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas

Londres: os ingleses em 8 lições

Por Daniel Marinho

Lesson 1 – Como falar como eles
 
Antes de qualquer coisa, ajeite a postura. Erga o nariz de Duke de alguma coisa “SHIRE”, dê uma franzida de testa, fazendo aquele tipo “espião-misterioso-do-fog-londrino-da-madrugada”.
Inspire o fog. Prenda o fog. Não solte o fog!
Simule um ovo mal cozido dentro da boca e vibrando o ar entre o palato central e a epiglote Real, repita:  Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Did Peter Piper pick a peck of pickled peppers? If Peter Piper picked a peck of pickled peppers, where the fuck the peck of pickled peppers Peter Piper picked?  Fuck, Peter!!
So what? Sentiu-se do tamanho da Abadia de Westminister? Já pode soltar o fog.
Lesson 2 – Como entender o que eles dizem
 
Os ingleses não sabem falar inglês. Aquele que se aprende no Brasil, não! Você se esforça, escuta com atenção, faz força para não rir, quando percebe, está quase pedindo para conversarem… em inglês! Mas segura a onda; assim é briga na certa e os ingleses são sempre mais altos que você!
Por outro lado, seu ‘american accent’ – com o qual nós brasileiros estamos acostumados – não ajuda. Corre-se risco ainda mais vexaminoso: ser tomado por um latino querendo tirar onda de americano, o que, na Inglaterra, atende por crime de lesa-pátria. Em síntese, não dá para voltar para o cursinho de inglês e estudar tudo de novo… Finja que parecem normal. Pensa assim, se o problema é sotaque, imagine que poderia ser pior… Lembre-se dos escoceses!
Lesson 3 – God save the Pounds!
 
Ainda assim, uma vez em Londres, você não vai querer mais ir embora dessas brumas esterlinas. Você, enfim, chegou à capital do rock, das lendas medievais, dos romances de espionagem,  mitos, Avalon, Távola Redonda,  Rei Arthur, Sherlock Holmes… e das Spice Girls.
Diante disso tudo, as excentricidades britânicas só tornarão sua experiência ainda mais estimulante. As vezes em que você é quase atropelado por olhar para o lado errado na mão inglesa, os picos de pressão ao converter a Libra para o Real, a cerveja estupidamente quente, aquele sistema métrico bacana (pés, milhas, jardas, ounces, lembra?) e a degustação da alta gastronomia inglesa, que tem como iguaria expoente o “Kidney Pie”; em português: Torta de Rim. Servido?
Lesson 4 – I Beg your Pardon!
 
Com o tempo você também acaba assimilando alguns hábitos Reais e incorporando comportamentos insuspeitos. Começa a desenvolver um senso de humor esquisito, a fazer ironia em missa de velório, a se preocupar em pedir desculpas até para a calçada por pisar nela, a fazer piada que só metade dos seus amigos entende – como este texto! -, e se pega dizendo “I beg your pardon, madam!” antes de dirigir a palavra a uma criança. Normal.
Lesson 5 – Há ingleses em Londres?
 
Como também é do conhecimento de todos, os ingleses, além de não falarem inglês, também não estão em Londres. A capital da Inglaterra –  do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte – é, na verdade,  terra nativa de indianos, paquistaneses, turcos, árabes, sul-africanos, tailandeses e de alguns americanos redimidos. Dependendo do bairro, você até encontra um ou outro irlandês. Inglês mesmo, só no campeonato de Cricket da TV.
Lesson 6 – O Umbigo Britânico
 
O inglês que se preza é orgulhoso de suas raízes e um tanto quanto centrado em si mesmo (é como um americano, só que mais magro). Não é a toa que, com a modéstia que lhe é peculiar, decidiu, certa vez, – em nome do planeta inteiro – que o dia deveria começar… por ali mesmo. Num meridiano que estava de bobeira, fumando o haxixe colonial em Greenwich.
Lesson 7 – A coerência Britânica
 
O inglês que se preza suspeita de tudo que vem de fora e só valoriza as genialidades produzidas pela prodigiosidade anímica britânica. O que é curioso já que, quando Libra sobra, ele só compra carro alemão, só vai a Pub Irlandês, só toma cerveja belga e kebab turco com Cury indiano. Chocolate inglês? (argh!) Só se for suíço! Para comer assistindo as minisséries americanas na TV. Chinesa, claro!
Lesson 8 – Enfim, a Educação Real
 
O inglês que se preza não confere o troco quando compra (não é de bom tom); não barganha preço de nada (For god sake!); é incapaz de criar um escândalo verbalmente (só nos tablóides); não reclama de serviço mal prestado com o gerente (vai direto ao Juiz, gesto mais britânico) e não discute com outrem em público (that´s repugnant!) – a não ser dentro do Pub, onde todas as alternativas acima estão erradas.
Enfim, ingleses são tão ingleses, que só não são mais ingleses por educação!
Apologize!

 

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site CurtaCrônicas.com

Guia Flâneur de Paris

Por Daniel Marinho

(Originalmente publicado no Site Curta Crônicas)

Cambaleando, acordo rogando pelo banho depois de uma noite de desavenças com o relógio biológico. O sono, graças aos caprichos do novo fuso, fora encomendado cinco horas mais cedo que o de costume. Esperou deitado, claro… bufando, reclamando, revirando-se na cama.

O box do banheiro é  uma estrutura plástica branca, sobreposta à cerâmica original, que denuncia mais de dois séculos de idade do prédio do Hotel Istria; por onde um dia estiveram Duchamps, Picasso, Modigliani, Rainer Maria Rilke, essa gente que aparece em comédias de época parisiense do Woody Allen. De fato, não é difícil ambientar-se em edificações do século XVII por aqui. Mas caminhar sobre pisos que rangem e cheiram a rapé de cubistas que viraram busto de bronze mundo afora… Essas pieguices atiçam o imaginário de quem vem do Novo Mundo. 34 anos de espera. Não precisava tanto. É natural que sobrem expectativas.

O café espreita por toda a cidade. Vou pelo chá, mas quero mesmo é vinho, que é o preço da água. Não importa. Qualquer um deles levará involuntariamente aos subterrâneos da cidade. É assim que se começa um dia em Paris. Cavando os degraus inacabáveis de um metrô que ignorou a modernidade e fez que não ouviu da invenção das escadas rolantes. Os subterrâneos de um metrô velho, feioso, mas eficaz. Aliás, uma instituição nessa cidade.

O suficiente para encontrar nele a resposta de algo inquietante: como pode o parisiense bater ponto nos achocolatados cremosos, comer pão puro com cerveja, ‘fromages’ de sobremesas, tiramissús do tamanho de potes de sorvete e estar sempre em forma?

Na capital francesa, como se sabe,  não se come a refeição à vista. Come-se, em Paris, em parcelas a se perder de vista. Entrada, antepasto, salada, sopa, prato principal, sobremesa… Vai mais um vinho?

No entanto, não há gente rechonchuda, fora de forma ou mal vestida nas cercanias do Sena. Ao menos eu não vejo.  Alguma lei deve os obrigar a serem magros, elegantes e a saberem combinar o blazer com o cachecol – que por aqui, aliás, é usado na cor rosa por homens de muita coragem. Mas não lembro de ter visto academias de ginástica pela cidade e, creio, que o parisiense médio faz um tipo intelectual demais para correr na esteira ao som da Beyonce.

Restou a tese do step involuntário ao qual o parisiense é investido diariamente nas escadarias do metrô, articuladas por conexões numa cama de gato que só francês entende. De malas na mão, cruzando-as do aeroporto ao hotel é boa malhação aeróbica.

O dia então amadurece. Com o sol a pino, salto na estação Étoile/ Charles de Gaulle, linha 9, Zona 1, encarado por um grande Arco de concreto que triunfa na intersessão de doze avenidas hermeticamente arborizadas. Uma delas chamará mais atenção. Mais pela fama do que pela estima, já que a Avenida des Champs Élysées não me faz a cabeça.

Paris é mais do que uma boulevard de quatro faixas cercada por vitrines que anunciam jóias e bolsas de sobrenome famoso a preço de automóvel. É bem mais do que uma avenida elegante, voltada ao abastecimento de uma elite de latinos e de esposas do médio oriente que fazem dela sua Meca há alguns anos.

É que quando me dou conta, Paris é um beco de paralepípedos de desenhos ondulares, cujo silêncio foi quebrado pelo ronco vintage de um motor de lambreta. Paris é uma esquina, em sépia, cruzada por passos de botas de couro, de uma bela mulher cujas curvas se espreguiçam dentro de um sobretudo bege.

Paris é então um encontro das Rue Balzac e Lord Byron, adornado por cinco andares de acabamentos em Art Nouveou e fitado pela película de algum diretor da Nouvelle Vague. Paris quer falar comigo; diz que é uma passarela disfarçada de calçada, onde as cadeiras ignoram as próprias mesas e, voltam-se à rua, servidas de cafés lotados a luz de um dia ordinário da semana.

Paris, no cair de uma tarde de quinta-feira, é uma farra voyeur,  onde todos se encontram lá fora, no final de um expediente que não existe, já que os escritórios só podem estar vazios e alguém haverá de ocupar mais um bate-papo  entre a cerveja belga e o crepe de nutella.

E sorvido por uma errância flâneur incontrolável, o dia passa por completo e quase não me dou conta. Do Arco do Triunfo a região do Grand Palais, costurando as amenidades da vida parisiense, uma ficção era escrita pela distração do passo, para ser eternizada dentro de uma caixinha de música de Monmartre. Um dia perdido em Paris vale mais do que qualquer outro encontrado.

Porque ir até lá também pode ser um fiasco: filas, ninguém fala inglês, pontos turísticos  ‘conquistados’, o Louvre parecendo shopping em véspera de natal.  Só se chega  a Paris, de fato, quando se desiste de ir até ela . É preciso deixar que ela encontre você.

É quando uma brisa úmida do Sena começa a sussurrar a pele; é quando o caminho por si só traceja o que de melhor Paris tem a oferecer: a vocação para a degustação do prazer do cotidiano. A Paris que veste o corpo, a casa, o prato, a taça, a paisagem ou mesmo a própria vida que passa a não se confundir mais com a realidade.

Daniel Marinho

 

Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

.

A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho

O deserto e a roda

Corto estradas do deserto.
É a sede… a aridez que periga.
Me escoro no incerto,
no vácuo sonoro do silêncio,
nos retratos
de uma natureza despida.

Cruzo dimensões tortas.
Abro janelas no tempo.
O céu é a última porta.
Só o horizonte
cala os uivos de vento.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

Não há derrota, vitória, empate;
os deuses estão na torcida.
Não há sombra num Calafate
e a noite quase se dá
por esquecida.

São frutos de matéria morta
de uma natureza vencida.
Não importa,
ainda assim,
fecundaram minha vida.

Tudo é tela vazia.
Tudo é o que anda comigo.
Tudo é o motivo da ida.
Tudo é pra ser preenchido.

A Luz é insônia;
o mundo, rasteiro.
Miragens de piscina.
Desertos da Patagônia.
Não há mais roteiro,
nem Argentina

É o Tao.
O pulso timoneiro.
O roteiro que a vida ensina.

..

Daniel Marinho



Já abriu a porta de um avião em voo? Tomada 1: Fernando de Noronha!

“… e caso precise pousar em alto-mar, a aeronave afundará em 20 segundos” Atônito, eu ouvia as últimas orientações no Bandeirantes EMB-110, minutos antes da decolagem de um voo de quase duas horas sobre um longínquo mar aberto.

O Suboficial da Aeronáutica definitivamente não tinha a voz adocicada de uma aeromoça cheirando a flor de azaléia, mas fazia as vezes de um Comissário de Bordo atípico que nos passava as instruções necessárias, no caso de alguma pane com aquele bimotor mais velho do que eu e pouco maior do que a cozinha lá de casa. Em breve o Bandeirantes – espécie de “fusquinha da aviação brasileira” – cruzaria mais de 500 quilômetros sobre o Oceano Atlântico.

“ E os coletes estão nos acentos”, prosseguiu. “Há um bote salva-vidas, aquele amarelo do final da aeronave que também pode ser usado, caso haja tempo, porque o pior não é nem a queda; tem muito tubarão lá em baixo”. “Não se esqueçam! Se o piloto apagar, assume o co-piloto!”

Tem coisas que a gente até precisa saber, mas não precisavam se dar ao trabalho…

Minha jangada vai voar pra o mar

Eu sei. Nem podia reclamar muito. Apesar de já contabilizar mais de dois mil quilômetros no bimotor naquele momento, ainda faltava o trecho derradeiro para então aportar no destino final: um paraíso digno daqueles livrões de fotografias (belos, mas sempre esquecidos nas prateleiras das livrarias, talvez por essa estranha mania de lhes atribuírem três ou quatro dígitos ao preço de capa).

E ainda que a viagem fosse a trabalho, após subir a costa brasileira do Rio de Janeiro a Recife, o Banderulho – como o chamava graças ao ronco ensurdecedor daquelas turbinas que já vinham discutindo com meus ouvidos há algumas horas – ainda precisava cruzar muito oceano para chegar a Fernando de Noronha.

Enfim, que Ícaro nos proteja as asas; pouco menos de duas horas depois o Bandeirantes aterrissava com todo o charme que lhe é peculiar na curta pista da ilha principal do arquipélago.

A ida àquele punhado de “praias-capa-de-guia-de-viagem” – onde é mais fácil nadar com golfinho do que esbarrar com um ambulante na xepa do biscoito “Grobo” – tinha como principal objetivo a captação de imagens, aéreas e em solo, para duas produções de vídeo e uma revista – tudo assim, de uma vez mesmo; não é todo dia que se consegue ir para um lugar desses…

Nos dois dias e meio subsequentes, faríamos alguns takes das locações pré-planejadas e os voos para as filmagens e fotografias aéreas. Pouco tempo, é verdade, mas depois do tanto que tive de ‘ouvir’ dos amigos que tiveram de ficar no Rio de Janeiro quando reclamei do tempo curto de permanência em Noronha, não digo mais nada…

Aliás, esta é uma das situações inusitadas pelas quais você passa quando a boa ventura do destino te leva a Noronha, sobretudo se pelos ossos do seu estimado ofício. Os vídeos em questão estão, inclusive, dando mais trabalho do que deveriam por conta da viagem. A ida ao arquipélago era, de todo modo, essencial, mas uma vez que gente como eu – de minha ‘digníssima’ classe social, não costuma – ou pode – optar por desembolsar da própria carteira o equivalente a uma viagem para Europa para nadar por aquelas bandas, e ainda ter de pagar diariamente ao IBAMA simplesmente por estar pisando numa ilha, minha ida a trabalho ao paraíso atlântico tem curiosamente despertado um comportamento estranho de meus entes chegados quando os conto de minha jornada. Já perdi a conta das vezes que fui “xingado”!

Você vai a Noronha! Seu filho da p***!!!! Dizem carinhosamente… Do período que antecedeu a partida às tradicionais sessões de fotos com o cabinho USB da TV, na volta, tive de ouvir muito. Mais um pouco teria de me desculpar publicamente pela viagem…

The Treasure Island

De fato, Noronha sacode a imaginação de muita gente. Um paraíso perdido em meio a um azul que nunca acaba – e que vez por outra ainda comete o acinte de virar verde-esmeralda. Restrito e caro, nunca será para muitos, até mesmo pelas limitações logísticas e restrições de acesso impostas pelos órgãos ambientais do governo.

São 21 ilhas cercadas de mar em um micro-universo de cerca de 25 quilômetros quadrados. Na prática, porém, tudo se resume a ilha principal, que dá nome ao arquipélago; as demais são ilhotas pequenas.

Cachaça dos mergulhadores, o arquipélago possui uma vida marinha quase inverossímil: algumas braçadas com o snorkel na beira do mar e você já se sente num documentário do Discovery Channel. Peixe de tudo que é cor e tamanho e, pelo que se diz, tartarugas marinhas, arraias, golfinhos, recifes de de todo jeito, uma vegetação marinha singular e, eventualmente, tubarões inofensivos.

E não é só isso, a ilha é coberta por uma vegetação preservada, bem arborizada, e a vista das formações rochosas, esculpidas segundo a algazarra das erupções vulcânicas de milhões de anos atrás, apaziguam qualquer resquício de stress levado na bagagem. Violência? Nem se sabe o que é isso por lá. Malandro vai fugir para onde?

Em suma, um belo balneário que não conhece registros de homicídio, sem trânsito, sem buzinaço, sem carro com a mala aberta tocando funk e – a raça humana predadora finalmente deu uma dentro – sem cobras!

Mas isso não vem ao caso. O trabalho tomou praticamente toda a estada e o tempo que sobrou para descortinar a ilha como um vagante destemido que se preze foi escasso, espremido entre as horas e mais horas que as lentes e câmeras impuseram o foco da expedição: a captação das imagens. E , ao menos no que diz respeito à labuta, o velho Banderulho nos brindou em cheio, e com muita ousadia!

Noronha de portas abertas…

Imagine uma máquina de lavar roupa no pico da fase de centrifugação. Imagine agora também o barulho dentro de um negócio daquele com a tampa fechada…Ta ouvindo? Daí você se põe de frente àquele ventilador de Itu com uma ventania capaz de quase fazer do seu netbook uma pipa. Pronto, você está fazendo imagens aéreas de um Bandeirantes de porta aberta a 300 metros do nível do mar.

Nem vou aqui insistir muito em falar das curvas retorcidas, do avião sambando com o vento ou das sacudidas ininterruptas do valente voador, mas, confesso, qualquer desconforto é compensado pelas perspectivas únicas dos enquadramentos que te deixam a flor da pele – ao menos até você começar a sentir o almoço querendo subir esôfago acima…

Porque também não pense que tudo são flores, não… Ficar cerca de uma hora indo e voltando, subindo e descendo, num avião que se julga dublê de acrobata e não faz a menor cerimônia diante de uma curva fechada… Quando ela for daquelas afoitas, você, que já estava voando diante de uma porta aberta, será virado quase que de cara para o solo – por conseguinte para o vazio do espaço aéreo – sustentado somente pela alça de um cinto de segurança que acabou de lhe ser apresentado!

Gaiatices a parte, a verdade é que o que já é único do chão, ganha contornos relevantes de uma obra divina, quando do alto do céu num cair de tarde em Noronha. Por mais que tivesse de ficar atento a todo o momento, intermediando o contato da equipe com a tripulação para traçarmos as manobras de interesse sobre a ilha, era só distrair que vinha aquele silêncio particular em que o tempo entra em estado de suspensão.

Um silêncio que ouve tudo o que vê e ainda enxerga mais longe, porque entende que os contornos e as cores vão pular a cerca dos limites ordinários do dia-a-dia. E partir daí, meu caro, se já não há mais a surpresa da vista, há a catarse da alma, que se funde às lentes da máquina.

Exagero? Bem, ta certo que as palavras sempre gostam de puxar uma brasa para o seu lado, mas dá para imaginar que se trata, no mínimo, de uma experiência inusitada.

Assim, ao menos, foram os dois voos sobre Noronha de porta aberta. Cada qual em torno de uma hora, indo e voltando de todo jeito naqueles 25 quilômetros quadrados de arquipélago.

No primeiro, o céu estava da cor do mar e a ilha parecia ter se preparado para as fotos. No segundo, com o céu mais denso, as atrações foram os registros  das decolagens e dos pousos dos aviões sobre um plano de fundo insular e  selvagem.

E a verdade é que ainda que só estivesse no chão, essas “mirações” também embarcariam. Até porque esta ladainha toda de transcendência anímica é algo muito particular. Próprio de quem se deixa tomar pela atmosfera do lugar e pelos desígnios do momento – independentemente da perspectiva das lentes.

No ar, no chão ou dentro do mar, Noronha é assim. Um quadro desenhado por encomenda do ócio, onde não bastasse poder entrar, você ainda se banha em água quente. E nem precisa fazer muito esforço. A natureza já fez o dela há milhões de anos e se ninguém tiver nenhuma idéia extraordinária nos próximos milhões, talvez ela continue desse jeito. Deixa quieto! Não mexe que piora!

Daniel Marinho

 

O fim é o começo de tudo: rumo à Patagônia

 

 

Carta de Navegação - Terra do Fogo

 

Acabo de comprar passagens para o ‘Fim do Mundo’… Ou – como oportunamente completam os viajantes – o ‘Começo de Tudo’.

É que a assembléia extraordinária lá de casa reuniu-se na última semana para votar a favor de um reveillon na… Patagônia. Onze dias de expedição com escalas em Ushuaia, para nadar com os pinguins; El Calafate, para virar boneco de neve de geleira e – a cereja do bolo – Torres Del Paine – que se realmente for tudo isso que o Google Images diz que é… Fico por lá mesmo.

Para os neófitos, digo que a Patagônia não é só bloco de gelo boiando em meio a guanacos perdidos nos fiordes da Cordilheira do Andes. Há também as lhamas…

Escolhemos o verão, quando bate aquele calorzinho gostoso de nove graus Celsius ao meio-dia… Ou seja, se rolar um sol, ainda dá pra pegar uma praia…

Brincadeiras à parte, apesar de o pé das Américas ainda ser uma região pouco explorada, é destino acalentado por muita gente do mundo inteiro que aterrissa por lá todo ano. O que os leva até tão longe? Antes de tudo, paisagens, que não fossem os viajantes para assegurar sua veracidade, algum apressado acusaria de editadas pelo Photoshop, tamanho o ‘coeficiente de surrealidade’.

Claro, há também a curiosidade de chegar a um dos extremos continentais. Depois da “Terra do Fogo”, o extremo sul da Patagônia, só mesmo a Antártida, pouco mais de dois mil quilômetros dali. E convenhamos, não é todo dia que se vai a um lugar que tem por alcunha “O Fim do Mundo”.

E o destino vem a calhar financeiramente também. Como se não bastasse já há algum tempo tudo estar muito barato na Argentina, o dólar bateu a casa dos R$ 1,75 na última semana. Se somado a isso você adquirir o talento da arte da garimpagem de tarifas aéreas inadvertidamente baratas com antecedência – da qual me graduei recentemente – você ainda vai rindo, com a economia que fez ao desistir daquela festa, sempre igual, daquele hotel de gringo em alguma praia do Rio.

Las Patas

A Patagônia fica, digamos, no pé das Américas. Uma região que abrange o sul argentino e chileno, incluindo aí os chamados Andes Patagônios. É a porção de terra, como disse, mais austral do planeta antes das geleiras do Pólo Sul. Região mítica e simbólica da luta humana contra a força de uma natureza de extremos, onde além da temperatura e da dificuldade de locomoção em meio a um relevo montanhoso, sucederam-se ao longo dos tempos erupções de vulcões, que ainda estão ativos. Mesmo assim a Patagônia é hoje uma das Mecas do ecoturismo mundial, orgulhosa por seus habitats, flora, fauna e imagens que não se vêem em qualquer outro lugar.

 

Foto de Breno Fortes (National Geographic)

 

Lugar, aliás, para quem gosta de horizontes distantes, daqueles que dão férias à vista. Silêncio, céus de tons alaranjados, pores-de-sol no verão às 23 horas… Bem, isso é o que eu ando lendo por aí e o post da chegada dará, ou não, o corolário. Mas, numa região onde as estatísticas falam em 1,5 habitante por quilômetro quadrado, eu exijo, no mínimo, um céu estrelado à altura das minhas expectativas, que, aliás, costumam- e eu tenho de parar com isso – ser grandes.

O fato é que da natureza de paisagens lisérgicas que de lá se fez inquilina foram aparecendo com o tempo: primeiro os colonos, depois os viajantes, e, por fim, a atmosfera e estrutura que consolidaram a verdadeira vocação da região, o turismo. Pequenas cidadezinhas típicas de montanha com boa intraestrutura vivendo basicamente da atividade, recebendo mochileiros e viajantes de toda ordem.

O nome Patagônia é originado de mais uma daquelas observações insólitas que os europeus – entre a decapitação de um índio e outro – adoravam de fazer. O termo foi cunhado pelos homens da lendária expedição de Fernão de Magalhães que por lá passara em 1520 na então primeira viagem de (bota 80 dias nisso) volta ao mundo.

Era uma alusão aos indígenas que lá habitavam. Eles pareciam maiores do que realmente eram provavelmente por usar gorros altos e calçados de couro de guanaco (o calçado lhes exagerava o tamanho dos pés). Pata + gones = homens de patas grandes.

E o que é que isso tudo tem a ver com o meu café-com-leite? Você me pergunta. Não sei, mas é que estou empolgado com o assunto e tenho virado noites devorando literaturas sobre o tema – criança é assim mesmo. Tanto que andei descobrindo algumas preciosidades a respeito. A Patagônia tem história. Desconhecida mesmo, só dos brasileiros.

Veturas Del Sur

Bem, o fato é que após Magalhães descobrir o estreito de Magalhães (que na ocasião não se chamava assim, você supôs, eu espero), muita gente arrumou um meio de partir também para o fim do mundo. Não, necessariamente, movidas pelos mais nobres princípios. Piratas de todos os quadrantes passaram a bater ponto na então única passagem entre o Atlântico e o Pacífico – termo, aliás, também batizado por Magalhães, que mais uma vez mostrava ao mundo a sua mania e curiosa inaptidão para dar nome aos bois por onde quer que passasse: “el pacífico” como o chamou, é o mais instável, turbulento e perigoso dos nossos oceanos (o negócio do Magá era comandar esquadra).

Ainda no século XVI, os espanhóis tentaram por vezes fixarem-se no sul da região, na “Terra do Fogo”, dada à localidade estratégica do ‘entreposto’ dos oceanos. Em 1589 uma expedição gigantesca, liderada pelo capitão Sarmiento de Gamboa, partiu em direção à região com 23 Naus e mais de três mil homens, um disparate para a época.

Acontece que toda megalomania tem seu preço e das 23 Naus, 18 embarcações terminariam por banhar eternamente suas respectivas tripulações nas águas do Atlântico. As restantes, ao desembarcarem no destino programado por lá ficaram até a fundação de dois assentamentos, ambos na margem norte do estreito. Quatro naus regressaram à Espanha em seguida. A nau que sobrara, numa pequena viagem às proximidades, descobriria, tarde demais, que não poderia contar com a previsão do tempo patagônio dos ‘telejornais da época’.

Arrastada por uma das famosas tempestades da região, a nau foi levada a milhares de léguas de distância, aportando – é sério – no Rio de Janeiro. De lá, enviou alguns barcos às colônias do Sul; todos naufragaram. Atônito, o capitão Gamboa decide ir a Espanha em busca de ajuda. Mas, como todo castigo é pouco, a nau é atacada no meio do caminho por piratas ingleses, que insistem em, dias depois, fazer deles hóspedes compulsórios de uma prisão britânica, para nunca mais voltarem a estalar castanholas na Catalunha.

Mas e os colonos que lá ficaram? Bem, conta a história que em algum inverno do século XVI, quando tiveram de enfrentar algo em torno de 30 graus abaixo de zero (com vento!) depois de acabar os gatos, passaram a comer o couro dos bois, depois de acabar o couro dos bois, passaram a comer o das botas, depois… Bem, agora Inês é morta.

Mas, de fato, com o tempo os espanhóis conseguiriam ao menos colonizar o Norte patagônio, a região das estepes. Ao introduzir os rebanhos, porém, começaram a se incomodar com os índios que ‘ocupavam’ boa parte da terra impedindo o crescimento das estâncias – enfim, coisa de europeu… Práticos, contrataram ‘caçadores’ para dar uma solução à pendência. A recompensa dos rapazes era assegurada ao apresentar os pedaços de testículos e seios arrancados de suas vítimas – enfim, coisa de europeu.

Charles Darwin também veio sentir frio por lá. Integrante de uma expedição científica, foi praticamente o primeiro cientista a estudar a natureza selvagem da Patagônia, citada no livro Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo (1890) – o que não é lá grande coisa depois que descobri que até por Itaipuaçú o naturalista já passou…

Devo registrar também que Butch Cassidy e Sundance Kid – os fora-da-lei do oeste americano, cuja história já virou um filme interpretado por Paul Newman e Robert Redford – também deram as caras pela Pata. Apesar de não aparecer na película, historiadores – entre eles o escritor chileno de “Patagônia Express”, Luis Sepúlveda – afirmam que ambos não teriam morrido na Bolívia como reza a história oficial, mas sim no sul do Chile. Com nomes falsos, no início do século passado, depois de vaguear pela Patagônia, passaram a levar a vida como fazendeiros em Cholila, fazendo vez-e-outra um servicinho extra (provavelmente de assalto a banco). A história descrita por Sepúlveda, aliás, é a base do roteiro de um filme de Walter Salles, que o adaptará para as telas em breve.

Enfim, histórias e estórias não faltam à Patagônia. E também não faltarão, para escrevinhar amenidades de uma jornada ao pé das Américas. Anotar, registrar, narrar, passar as dicas e o que mais der na telha. Porque fim do mundo mesmo, nem existe. Seja no Ushuaia ou em alguma data pretensamente eleita por teóricos conspiradores depressivos de plantão. O fim, aliás, é distante, é o caminho…de uma vida inteira.


Daniel Marinho

O Fantasma do Theatro Municipal

(memórias ‘crônicas’ de uma ópera particular)

Um camisão xadrez de flanela grunge, a barbicha estilizada e o violão no case carregado à mão. Voltava do Villa Lobos, uma escola de música centenária do centro antigo do Rio.  O rumo era o metrô e, não sei por que ‘quimeras’, ao invés de abreviar o caminho descendo na carioca, como de costume, alonguei uma caminhada noturna até a Cinelândia.

Não que esses rompantes de decisão de meio de caminho sejam raros. Tudo é desculpa para a rua ser a regra e a casa, a exceção. Mas era só uma caminhada breve e estava convencido de descer na primeira escadaria do metrô, em frente ao Theatro Municipal do Rio.

No caminho, um homem mal vestido com pinta de malandro “com aparato de malandro oficial” me aborda. Faço que não ouvi e sigo em frente, mas ele insiste e parece não oferecer alguma ameaça séria. Queria me vender alguma coisa; tickets para uma ópera do Municipal. Era um cambista.

Não sou chegado a óperas.  Com todo o respeito, mas não gosto. Curto e me emociono com orquestras sinfônicas, música clássica e outras ditas “erudições” , mas alguns segundos ouvindo aquele vibrato em italiano e eu já tenho aflições.

O ingresso era 100 reais, mas ele – ‘bom rapaz’, veja só – não se importava em, nas palavras dele, ‘dar’ essa oportunidade única para mim por 60.

– Não! – respondi certo do que não queria.

Mais certo ainda do que dizia estava o meu interlocutor. Ele agora me lembrava que o evento começaria em cinco minutos e por isso ele não se importaria de fazer por 40…

– Afinal, você é músico, não é? – tentava me convencer ao notar o violão a tiracolo.

Naquela época dinheiro era para mim era uma espécie de ente mítico que insistia em brincar de pique-esconde com a minha carteira. Eu era capaz de ir e voltar do Maracanã à Usina a pé (uns cinco quilômetros) para assegurar que o joelho de queijo e presunto do dia seguinte seria acompanhado de um Guaravita. 40 reais ? Por uma ópera?

– Não!

Ele mudou então sua estratégia de abordagem: de malandro a chato mesmo. E começou a elucubrar as razões pelas quais eu não poderia deixar de aproveitar a oportunidade, segundo ele,” única em uma vida!”. Perguntei por que insistia tanto e ele não demorou na resposta:

– Trinta reais, agora!

– Não! – retruquei.

– Então por vinte – ele era chato.

– Também não!

– Quinzeee!!!!!!!

Ele não desistia… Eu estava decidido a ir para casa, já estava tarde, acordaria cedo, não tinha nem companhia…

– Eu faço por dez reais SÓ POR QUE É PRA VOCÊ – (maior cara dura, impossível!)

Hesitei por um instante… Afinal, haveria de ter algum motivo para aquilo tudo. Na pior das hipóteses, eu nunca tinha entrado no Municipal do Rio. E que mal teria…

Ainda assim, achava caro o custo/benefício pra minha carteira que ocasionalmente realizava experiências com o vácuo absoluto. Por outro lado, nesse andar da carruagem, já tinha notado que o balanço da barganha já estava afundando no meu pé de tanto pender para o meu lado. Acontece que também sei ser nojento:

– Cinco reais! Por cinco reais eu compro o seu ingresso! – afirmei com uma cara de pau ainda maior (a gente aprende rápido).

Deu para notar, mais do que alívio, uma baba esquisita saindo da boca do cambista que começara então a espumar. Não só por mim, mas também pelas outras dúzias de ingressos com as quais ele provavelmente morreria na mão. O que de certo ponto de vista não era um bom presságio para o espetáculo. De qualquer modo, o negócio foi fechado. Eu ia, enfim, a uma ópera no Municipal.

Assombrações Traviattas


Entreguei o ingresso à hostess da casa – lá não há bilheteira, há hostess – e foi o tempo de pisar sob o fresquíssimo foyer do imaculado Theatro centenário e já ser convidado a entrar. O espetáculo começaria imediatamente.

Vi o primeiro ato de uma daquelas poltronas do andar mais baixo (deve haver algum nome empolado em francês para este tipo de assento; não faço idéia). Logo ao abrir do pano, um senhor barbudo de meia idade entra no palco. Exageradamente maquiado ele começa a cantar – em minha opinião também exageradamente – em italiano. Os vibratos, claro, todos eles lá, bem alto. Não podia esperar outra coisa. Eram os meus piores pesadelos se concretizando.

Não demora muito e começo a me mexer na cadeira. Espero o intervalo – até porque não estava disposto a enfrentar a fúria enraivecida de um típico freqüentador de espetáculos eruditos capaz de chamar os seguranças no primeiro acesso de pigarro de qualquer espectador, imagina trocar de lugar – e subo ao segundo andar para, ao menos, buscar uma… nova perspectiva. Quem sabe?

Não resolve. O segundo ato começava e as coisas não melhoravam para mim. Puxei papo com o senhor ao lado, mas notei que a conversa de pé de ouvido não iria muito longe. Para me distrair vou ao banheiro.

No caminho, noto os detalhes arquitetônicos do interior da casa e tenho um insight repentino. Se o estupro é inevitável, vamos ao menos conhecer o Theatro Municipal!

Inside the actor´s studios

Parto rumo a todas as direções possíveis e em algumas dezenas de minutos não há mais um só canto da área aberta ao público que eu não conheça. A peregrinação é válida e descortina muitos dos pomposos mimos que o teatro réplica da Ópera de Paris oferece a um representante da plebe. Salões enormes, escadarias adornadamente desertas, ornamentos em ônix, pinturas a óleo, peças em bronze, castiçais, tenho a nítida impressão de esbarrar com fantasma de Pereira Passos. A brincadeira parece estar próxima do fim, mas no último andar há uma porta no meio do caminho e ela grita:

“Entrada expressamente proibida” .

Veja, não sou deseducado. Entendo quando não sou convidado. De modo que não continuaria diante uma entrada que é proibida. Mas “expressamente” proibida? Era demais! A curiosidade não agüentou! O grito a acordara de seus sonos mais profundos… Era girar a maçaneta e entrar, porque a porta, como costuma acontecer nessas ocasiões, estava aberta.

O segundo ato ainda corria, mas a partir daí o espetáculo não seria mais o dos tenores. A porta dava acesso a uma estrutura de metal já próxima ao teto, na parte posterior do teatro exatamente sobre o palco. Nessas horas, a velha máxima “penso, logo HESITO” faz toda a diferença. Como não ponderei muito a respeito, depois de um ligeiro esforço, consegui subir. Era, de fato, uma nova perspectiva: passava a ter de olhar para a direção de meus pés para ver os atores!

O mundo das coxias então se abriu em cada detalhe dos melhores planos possíveis lá de cima. E a sensação era curiosa, já que de meu ponto de vista eu podia observar a tudo sem ser observado. Era um vulto, uma sombra em meio à escuridão, esbarrando nas pinturas seculares que Eliseu Visconti pintara no teto há mais de um século atrás (agora que foi reformado posso dizer mesmo), quando também precisou subir até essa área só de alcance dos menos escrupulosos.

Ao caminhar pelas vigas horizontais, lembro que mal podia diferenciar meu pé das cabeças dos atores, e sabia que qualquer passo em falso me tornaria, em questão de segundos, parte do espetáculo de uma cena mórbida lá em baixo.

A noite finalmente começava a melhorar…

Lá de cima todos os takes possíveis dos bastidores estavam, em grande angular e tele, ao meu alcance. Os detalhes dos ornamentos nos figurinos, as camareiras que corriam de um lado para outro para vestir os atores, os refletores que se movimentavam ao meu lado para ambientar as cenas, as partes móveis do cenário a postos para dele fazer parte, contra-regras, maquiadores, produtores, atores, todos correndo de um lado para outro de modo a deixar tinindo o espetáculo para alguém que, supostamente, não deveria estar assistindo a tudo isso de onde eu estava.

Atravesso o palco por cima e, enfim, depois de algumas lições autodidatas de equilibrismo e em meio a algumas acrobacias eu consigo pular da estrutura de metal com vida – Dionísio sempre esteve do meu lado – e alcanço o edifício da administração do teatro.

Lá bemol

A cena então muda. Longos corredores com salas e escritórios ordinários como quaisquer outros. Não fosse um som gostoso de coxia e os vocalizes, poderia ser algum outro prédio antigo do centro do Rio, mas a súbita presença de moças seminuas mascaradas e com o corpo pintado correndo em minha direção põem em cheque a ideia. Garbosas, elas dão um sorriso e passam rumo ao camarim. Não era comigo. Estão com pressa e não para papo.

Desço também. O volume do som dos vocalizes aumenta significativamente, as moças já não estão mais lá e não há exatamente camarins. Estava mais para um complexo hoteleiro, um resort cênico voltado aos atores. Tudo grandiloqüente, a começar pela lanchonete, muito maior que o ‘bistrôzinho’ recém inaugurado no anexo do prédio aos mortais espectadores.

Passava, entretanto, a ser observado. Mas o case de violão na mão, aquela barbicha disciplinadamente mal feita e o camisão grunge somados a um ar blasé me confundiriam com qualquer um daquela casa. Na pior das hipóteses, era só fazer cara de amigo do diretor artístico.

O tempo começava a ficar escasso e sabia que a obra estava por terminar. Desci mais. No subsolo sou brindado pela grata surpresa de tropeçar no espaço reservado à orquestra logo abaixo do palco.

Nunca me esqueço daquele momento. Enquanto me deixavam, eu ia entrando e me vi completamente em meio à ‘instrumentália’ toda de um momento para o outro. O oboé era ainda mais suave. As cordas arqueadas dos violoncelos, a distorção acústica dos baixos, a estridência dos flautins… O que não arrepiava, assustava. Tudo era mais impressionante ainda dali de baixo e eu parecia estar imerso numa partitura mesmo – nenhum ingresso poderia pagar aquilo.

Poucos, mas eternos minutos. Tempo suficiente para ouvir um Grand Finale apoteótico ao lado dos rufares finais dos tambores e do furor propositalmente dissonante das notas de um sax soprano curiosamente envenenado.

If Nothing is ventured, nothing is earned

O espetáculo acabaria e eu continuaria ainda muito tempo por lá. Puxando assunto com os cenógrafos, preparadores vocais, camareiras, as moças mascaradas – agora compostas -, até os seguranças, transeuntes de qualquer ordem. Não queria mais ir embora. Bati papo com os músicos – cheguei até a experimentar um cello – minha cara de amigo de diretor era convincente. Em algum momento eles tiveram de ir embora e – como eu não tinha as chaves para trancar o Theatro na saída – fui obrigado a ir também.

Já se vão anos que isso aconteceu, mas eu nunca me esqueci dessa noite do Municipal. Ela cheira àquelas limonadas que ficam por aí por fazer a nossa espreita escondidas em meio às rotinas do dia-a-dia com seus parcos limõezinhos – ao menos para quem está disponível ao acaso. E não dá para marcar um encontro com o acaso; ele sempre pinta com aquele papo malandrão de “é pegar ou largar!”. Pior, às vezes se esconde atrás de uma porta sacana cuja entrada, sem algum motivo razoável, é expressamente proibida. Na mosca! É o buraco do coelho! Morpheus e a pílula vermelha!

E a ideia era ter pegado metrô, lembra? Se soubesse, pagaria os 100 reais rindo.

Daniel Marinho