A “renomização” das ruas caretas do Rio

Por Daniel Marinho

Silêncio no Tribunal, arreiem as calças do general! E as placas de esquina também porque não dá mais tanta rua com o nome do camarada… Dele e de aristocratas vencidos, políticos bicentenários de mérito duvidoso e latifundiários escravocratas do século XVIII.

Ainda mais num lugar alcunhado de… Rio de Janeiro. Que sacada de marketing involuntária a do destino. Deixar um descobridor português perdido, cinco séculos atrás, confundir nossa baía no ápice do verão carioca. Vai que a Nau se atrasasse! Já pensou nisso? Moraríamos no Rio de Agosto? Meio hibernal. Para uma cidade que se vende de praias tropicais…

É o que eu digo, o nome é essencial. Imagine – num passado não muito distante – um pesadelo no qual a família Sarney dominaria, para além do Maranhão, a politicalha da Guanabara. E a capital seria rebatizada de “José do Ribamar Sarney”. Daria bossa? “Minha alma canta… vejo José do Ribamar…” João Gilberto ficaria rimando “quén, quén” em Juazeiro mesmo e Jobim acabaria fazendo concurso para escriturário…

E o que dizer dos bairros cariocas? É som com sabor: “I-pa-ne-ma”; “Gu-a-ra-ti-ba”; “Ma-ra-ca-nã”; “Hu-ma-i-tá”; “Gra-ja-ú”… Temos de mastigar “a” quatro vezes para falar “Co-pa-ca-ba-na”. Mas e se homenageassem Honório Gurgel por ali mesmo, entre o Leme e Ipanema?  Seu Honório se sairia uma boa Princesinha do Mar?

Nome bom já é metade do resultado garantido; uma rua com o nome de Leopoldo Bulhões não vai vencer na vida! É por isso que proponho aqui uma reclassificação de nossos asfaltos, em favor da poesia a que faz jus essa cidade fluvial: o Riacho Leitoso (era uma baía) de Janeiro. Aliás, não só dele. Do ano inteiro.

A Avenida Delfim Moreira, por exemplo. Tanto lugar para homenagear Dr Delfim e vão escolher o metro quadrado mais caro do País… A praia do Leblon é da família do Dr? Então vamos ao brainstorming:  Avenida da Maré Mansa e Água Fresca,  Avenida Sombra de Coqueiro, Boulevard Ninfas du Biquíni, Travessa do Banho de Sol Travêsso?

A Rua Bulhões de Carvalho – inconteste campeã mundial dos trocadilhos infames! Por que insistir nesse auto-vexame? Parece masoquismo… Muda para Boulevard das Tulipas Provençais, Rua du Brie com Damasco, Travessa La Dolce Vida, Avenida Sauvignon Blanc, sei lá! Garanto que o metro quadrado valoriza!

Por que a Almirante Alexandrino, de Santa Teresa, não vira logo “Estrada da Good Trip”? Todo mundo acha que o povo de lá só anda chapado mesmo… Na praia dos surfistas, no Arpoador: Rua Aloha! As curvas longas da via do Aterro do Flamengo dariam origem, não a outra Linha cromática do Lacerda, mas a “Linha das Silhuetas do Burle” e a Viera Souto, em homenagem a “fumacinha” da rapaziada, Boulevard du Paz e Amor!

E essa coisa sem sentido de homenagear artista com o nome completo que ninguém conhece? O Cazuza ganhou a Escola Estadual Agenor de Miranda Araújo Neto. E aí eu pergunto: quantos ligam o nome à pessoa? Não é tão difícil assim vai: “Escola Pro Dia Nascer Feliz”, “Escola Um Trem para as Estrelas”, “Escola Todo Amor que Houver nessa Vida”. Se fosse rua, votava na “Rua do Sabor de Fruta Mordida” ou na Avenida do Exagerado – com os limites de velocidade da lei, claro.

E não é? Por que ao invés de Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, não descemos no Aeroporto do Samba do Avião? Pensa que é sacanagem? Aposto dinheiro que muito gringo estaria fazendo fila para tirar foto em frente à placa do aeroporto!

E quando o Caetano morrer? Será a Avenida Caetano Emanuel Vianna Teles…? Depois de tanta dica do cara: Estrada da Meia Lua Inteira; Rua Samba de Verão; Avenida Trem das Cores; Rua Sem Lenço e Sem Documento; Estrada das Outras Palavras?

Daí então, a Avenida Lucio Costa, na Praia da Barra,  viraria a “Avenida Bronzeada de Sol; a Av Mem de Sá – point dos fanfarrões da Lapa – Avenida da Gargalhada Gaiata e a Niemayer, Estrada Desfiladeiro do Paraíso.

Há também as ruas mais gustativas! Convenientes aos Pólos Gastronômicos – como o de Botafogo, por exemplo – onde agora o Plebeu, o Informal e o Ipiati seriam recortados pela “Travessa ao Molho Pesto”, “a Rua à Piamontése”, a “Via do Cupcake de Limão”, e – representando a alta gastronomia – a “Travessa Creme de la Creme”.

Parada de Lucas ganharia, enfim, a Avenida Pétalas da Primavera; os inferninhos de Copa, a Travessa Travêssa do Prazer Imediato. As avenidas Churchil e Presidente Roosvelt – que não nos dizem respeito em nada – dariam voz a Jackson do Pandeiro com o cruzamento da “Avenida Só ponho o beebop no meu samba” com a “Rua Quando o Tio Sam pegar no tamborim”. E a Tijuca honraria não um fazendeiro que ninguém viu mais gordo, o Barão de Mesquita, mas seu filho mais nobre – e gordo também -, o “Síndico”, para matar as saudades da praia distante na “Rua Azul da Cor do Mar”.

Ingenuidade? Melhor começar por ela mesmo…

Aplainando a longa a Estrada da Utopia.

Daniel Marinho
Crônica originalmente publicada no Curta Crônicas

Conversa de Bar (e o teste do elevador)

Dizem que isso tudo começou com os Sumérios que já entornavam a jarra na taverna muito antes de a Baviera e o Lula existirem. Daí pra frente, só variou de nome: conversa de birosca, bodega, bar, baiúca, tasca, cantina, “butiquim” (com “u” e “i” que lhe são de direito), barzinho, pub, boteco, bistrô, taberna, pé sujo, e por aí vai…

E vai até onde der mesmo, porque conversa de bar só anda de ida e não assume compromisso com lugar algum. Ronda trôpega pelos mesmos grandes temas da humanidade de sempre – ainda que disfarçados aqui e acolá de alguma erudição – e segue como que numa novela eterna de próximos capítulos, intervalada pelos compromissos da luz do dia.

Ainda assim, realmente creio que o chamado bate-papo é mesmo uma cria do bar. Imagina uma reunião de ‘cumpadres’ às margens do Rio Eufrates antes da invenção da escrita, do rock, do cinema, do futebol, da política, da fidelidade, da igreja, das musiquinhas insuportáveis do momento… Falar-se-ia de quê? Era uma falta de assunto Sumérica! Daí a fermentação da cevada datar-se de mais de 4 mil anos antes de Cristo. Sem ela, a humanidade nem arriscaria a evolução. Pergunta aos aborígenes que não a conheceram?

Foi assim que primeiro Deus criou a cerveja; de onde nasceu a contemplação; que, por sua vez inventou o conflito; de onde nasceu o assunto, para este, por fim, assentar os alicerces de sustentação da conversa de bar… Só daí então, chegamos a esse mundo dos aplicativos do IPhone. Tá tudo nos Manuscritos do Mar Morto…

Porque o bar é uma de nossas ágoras contemporâneas; e é na conversa de boteco – ou de ambientes de conseqüências análogas – que se extravasam os anseios e angústias mais viscerais, sem se dar muita trela para o que pensa o Pajé da tribo. Um ambiente social de confluência de ideias, ainda que nem sempre durem mais de uma noite.

E as demais oportunidades de parola? Não são iguais. A conversa de boate, por exemplo. Um paradoxo em si; ouve-se alguma coisa? Não há. A conversa de fila de repartição pública? Uma ode à reclamação da vida, do tempo, do governo, da dor nas costas… também não é conversa.

Aliás, há algo mais blasé do que a conversa de elevador? Tem coisa mais chata, mais sem assunto do que ficar batucando na porta pantográfica ou discutindo se vai ou não chover amanhã?

Conversa de portaria há, mas com ressalvas! Futebol, novela ou no máximo, falar mal do governo; e mesmo assim que não se entre em detalhes porque a conversa volta ao futebol!

Conversa de ônibus, que pode contar com assiduidade dos atrasos do transporte público, até dá pano pra manga, mas conversa de taxista, convenhamos, não dá. Chega uma hora que o assunto se esconde, não agüenta mais ficar ali e termina virando conversa de elevador também!

No bar já não é assim, você distrai e já se vê correlacionando Deleuze com a conta de Gás. Tem espaço para tudo, ainda que muitas das vezes ninguém tenha propriedade alguma sobre o assunto. Até porque em dado momento ninguém liga. E com exceção da conversa de mictório – de longe a mais medíocre do gênero – no bar é, pelo menos, mais difícil alguém sair-se com a perguntinha infame: “será que chove amanhã?”.

Por que é assim funciona o ardiloso Teste do Elevador. Por quanto tempo? Até quando o sujeito resiste até abrir o pleito da previsão do tempo?

Eu, se fosse Meteorologista, só usava escada!

Daniel Marinho

Pagando 39 mil reais, a passagem é de graça…

Uma loja de móveis da moda acaba de anunciar uma campanha que chancelou de vez minha teoria a respeito da esquizofrenia universal que acomete essa nossa terra de Lordes. É assim: a cada 39 mil reais em compras você ganha (?) uma passagem para Nova York… “de graça”!

Antes de bater a cabeça na parede nove vezes de desgosto e perder de vez qualquer esperança na evolução da condição humana, fui obrigado a conjecturar o tamanho do fosso dos dissabores do pobre (rico?) consumidor brasileiro.

O anúncio em momento algum fala “ao alcançar 39 mil reais”. Deixava claro que a premiação ocorreria a cada R$ 39 mil reais em compras! Em outras palavras, somos levados a crer que a empresa pressupõe ou a esclerose do consumidor médio brasileiro ou a clonagem – para posterior replicação – dos moradores do Alto Leblon ao longo de todo território do País.

Eu sei, eu sei… Ela orienta-se a um consumidor classe A, gente com bala na agulha, etc. Mas então já começaram errando feio de público alvo; essa gincana de Luis XIV não devia nem ter devaneado em materializar-se na tela da TV lá de casa.

E ainda que alguém tenha por hobby queimar meia-dúzia de cotas de 40 mil reais em móveis numa tarde ensolarada de domingo, depois daquela partidinha de Gamão Escocês num tabuleiro de mármore carrara, não me venha com essa conversa de passagem aérea de graça para Nova York!

Se o sujeito largar agora o Gamão com a “criadagem”, desistir do conjuntinho de sofá de pele de orangotangos de Madagascar da Todeschini e for à Internet, ele vai descobrir que pode, com esses mesmos 39 mil reais, (pela tarifa da Copa Airlines do início de março, por exemplo) cruzar o continente americano de Norte a Sul exatas 65 vezes!

Eu disse 65 vezes!  Seria demais explicar que dentro dos 39 mil em móveis esse brinde já estaria embutido tantas, tantas vezes, que com ele já daria pra amortizar o financiamento da viagem de quinze anos de sua futura bisneta à Lua!

Exageros à parte, o consumidor brasileiro mais abastado é manjadíssimo por comerciantes do mundo inteiro como o pato da patota. Presa fácil; adora pagar mais caro por uma grife. E pior, ainda tira onda disso! Ainda bem que por aqui no País ninguém passa necessidade.

Outro dia numa jornada ao Fashion Mall (toda ida a esse shopping de gente “diferenciada” é um estudo antropológico e divertido do comportamento da espécie, trabalho de campo, entende?) me peguei confabulando com a minha mulher se um camisa-jaqueta diferenciada (a venda por cinco mil reais!) devia ou não ser declarada no Imposto de Renda… Lá, a propósito, também tinha relógio de 40 mil reais. Será que também “davam” uma passagenzinha pra os States de graça?

Curioso é que quando chegar a Nova York, o sujeito ‘premiado’ vai acabar irremediavelmente comparando os preços que pagou na Todeschini com as tradicionais barbadas das congêneres norte-americanas… Lojas, aliás, de grifes mais esnobes e famosas. Vai espumar de ódio! Aí ele é que vai bater com a cara parede! E olha que parede de mármore carrara dói pra cacete!!!

Daniel Marinho

Vocabularite: ‘tioria’ e diagnóstico


“Vamos combinar” que “menas” coisas “estão sendo” mais irritantes do que essas expressõezinhas “mal colocadas” por essa gente “sinixxtra” que tem por aí. “Fala sério!” “Ninguém merece, nem!”

“Na real”, “a nível de uma releitura lingüística”,  “a nível de reengenharia bate-papal”, “a nível de racionalização de processos” com o intuito de – vai entender – fazer-se mais interessante a outrem, essa “vocabularite de acadimia” não “vai estar agregando” valor nenhum a nossa afamada cultura de massa de padaria, cujos proprietários são – “mais do que nunca” – exemplos de “grande-figura-humana”, como costuma afirmar um famoso apresentador de programa de auditório dominical.

(SIC ad eternum)

Menos, gente! Seje o que for, nem, ao menos em tioria, o que mais me irrita pra mi mesmo, o que mais agrega perca, é que tem muita gente supostamente instruída dando eco para tanta colocação.

S-u-r-r-e-aaaal… Tipo assim, é gente que já passou da puberdade há m-i-l-êêê-n-i-o-s (!?). Não, cara…nem!

Então…eu, a nível de grande figura humana, não quero combinar nada com ninguém. Ninguém merece! Não quero fazer colocação nenhuma, nem estar compactuando com essas tiorias!! Assim você me mata, véio!!!!

Pronto, falei! Fala séééééério!!!!!!!!!!!

Segue, enfim, mais desabafos de “colocações” do lado-negro-da-força que perderam-se no tempo:

Fulano é “da pá virada”: atualíssima, para os pais do Niemayer.
Balada: Uma caixa cheia de halls?
Supimpa: Argh!
“No seio de”: Pornografia? Expressãozinha típica de “adevogado”.
Destarte: Ídem ! Só para maiores de 18 ou menores acompanhados.
Internauta: só o Silvio Santos ainda fala assim.
Blogosfera: outra megalomania… Não tem nada mais lugar comum do que Internet.
Minha paquera: tem cheiro de romance do século XIX.
Bráulio: já não tem mais graça.
“Vou chapar!” – não, não vai. Quem fala assim é mais careta que o Bolsonaro.
“Meu possante” – atestado de playboy.
“Procuro parceiros estratégicos para…”: sem comentários!
“Sem comentários”: falta de vocabulário!
Garçom, “la dolorosa!”: batido
“adoooooooro”: deteeeeeesto
“Vamus-nélsom”: put a keep are you!
“Afogar o ganso”: do tempo da “pá virada” ·
“Da pá virada”: do tempo de “manda brasa”
“Manda brasa”: em que ano nós estamos, mesmo?´
E a pior de todas… Inconteste expressão rainha da propagação de toda a dor e sofrimento do mundo; evocado pelas expressões-piadas-des-graça-damente-sem-graça:

“É pavê ou pá comer?” Afff!!!

E aí? Alguém conhece mais alguma vocabularite?

Daniel Marinho

Dois Pierre ao quadrado é poliedro para cateto, Duda!!

 

Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?

Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.

Duda Spreafico é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.

É… Duda está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?

Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para ele, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”

Duda gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.

Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Duda, ao que consta, sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – dentre outros impropérios – a cor das calcinhas das moçoilas…

Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se por um lado Sr Spreafico  tem cabeça de polinômio, por outro tem coração de manteiga. E, em meio às ruelas antigas do Cosme Velho – ou de Friburgo -, emociona-se com os contrastes da vida, com as interlocuções poético urbanas e as fábulas do cotidiano, tal como um senhor de idade com espírituosidade de um menino curioso.

E por mais que pose de calculadora científica, Duda-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.

 

Daniel Marinho


(Esse texto é uma homenagem especial a Luigi Spreafico e aos escribas do Curta Crônicas, com quem tive a oportunidade de germinar grandes momentos e projetos ao longo do ano)

Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

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A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho