Furto de Fofolete

— Peguei emprestada, papai!

Minha filha de dois anos empunhava como um troféu nas mãos o tesouro que acabara de desencavar: uma fofolete. Aquela dos anos 80. Velhinha, sujinha, mas integra. Uma sobrevivente do espólio perdido da geração Xuxa.

— Como assim, emprestada? De quem?

— Da escola, pai. Peguei.

— Como assim, peguei? Pediu para alguém?

Não há quem exerça melhor a arte da dissimulação do que uma menina em idade de desfraldar. Ainda que dê bandeira, a desfaçatez é de uma jocosidade que dá de ombros para qualquer argumento lógico. Dá tempo nem de elaborar…

— É a minha filhinha

Suspirava com os olhinhos marejados por uma devoção maternal precoce. Girava o tronco para lá e pra cá, ninando nas mãos a bonequinha verde com capuz de orelha de coelho. Cantava baixinho as canções aprendidas na escola, sussurrando em seu ouvidinho minúsculo.

— Lelê, você vai ter que…

— Shhhh!! Quase dormindo!

Sei o trabalho que dá. Desencavar o cancioneiro infantil popular já cansado ao final do dia. Rever desenhos no vídeo pela centésima vez (a parte do tubarão do Nemo pela milésima). Contar as histórias prediletas de sempre, sem deixar dever na performance! Para então fingir dormir ao seu lado por alguns minutos e ir apalpando o assoalho com as pontas dos pés até conseguir sair do quarto. Ainda que sob risco de ser denunciado pelo alívio incontrolável de um suspiro de vitória antes do tempo. Difícil com ela… Que dirá com a fofolete.

— Filha, vamos conversar?

Fazia cafuné no pequeno tufo de cabelo sintético dourado. Habilidade com as mãos que até então eu desconhecia.

— Papai, vou ‘pô no bêcinho’

Comercial da pampers, johnson, parmalat, sei lá… Colocou a fofolete em sua própria cama, ajustando a cabecinha da boneca no travesseiro. Foi junto, encolhendo-se o tanto quanto podia para abraçá-la em forma de conchinha. Seus olhos eram todos dela. Sorria enquanto acarinhava seu corpo preenchido com bolinhas de isopor.

Já passei por muito nessa vida e não seria vencido por uma “campanha de Natal da Estrela”. Minha autoridade de pai estava em cheque!

— Eu sei que você gostou ! Acontece que no mundo dos adultos você não pode …

— Vai acordar minha filha!!!

Fez cara feia, franziu a fronte, encarou e tudo. Que papo é esse? Sermão agora? Vai mexer com uma fêmea acolhendo a própria prole?

Estava determinada. Pouco disposta a dar sentido as minhas veleidades éticas. O tamanho também não era problema. Filho é filho, amamos do jeito que vieram ao mundo! E o inverossímil sono de uma fofolete furtada, menos ainda. Ignorava os caprichos da propriedade. E provavelmente ainda relutará bastante antes de aceitar isso. Como todos, algum dia.

Lembro então que há quem ainda vá resistir por mais tempo. Bem mais. Em cada esquina fria da cidade. Sob cada cobertor rasgado, fedido e sujo, que envelopa as crianças do medo da noite. Sem bonecas, sobre a calçada, repartindo as sobras do lixo com a mãe e as irmãs, invariavelmente junto a um cachorro fiel não menos faminto.

E elas viverão um mundo que a minha filha nunca precisou conhecer. Um mundo que as lembrará não só uma noite, mas a cada dia, de tudo que não lhes pertence. A cada desejo de boneca, de vestidinho da Frozen, de saia colorida que gira como bailarina, ou de salto alto de mocinha mais velha.

E não haverá poesia suficiente numa crônica de fofolete para confortá-las de seus medos do lobo ou do tubarão do Nemo. Muito menos de seus pequenos furtos. Desses que todos nós – todos nós – um dia fizemos quando criança.

Eu só queria explicar a ela como são as coisas.

— Lelê, é que preciso te dizer que…

— Você vai contar uma histórinha pra ela, pai?

Enfim, pra que tanta pressa…

Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

istambul.jpg

Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

.
Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas

Londres: os ingleses em 8 lições

Por Daniel Marinho

Lesson 1 – Como falar como eles
 
Antes de qualquer coisa, ajeite a postura. Erga o nariz de Duke de alguma coisa “SHIRE”, dê uma franzida de testa, fazendo aquele tipo “espião-misterioso-do-fog-londrino-da-madrugada”.
Inspire o fog. Prenda o fog. Não solte o fog!
Simule um ovo mal cozido dentro da boca e vibrando o ar entre o palato central e a epiglote Real, repita:  Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Did Peter Piper pick a peck of pickled peppers? If Peter Piper picked a peck of pickled peppers, where the fuck the peck of pickled peppers Peter Piper picked?  Fuck, Peter!!
So what? Sentiu-se do tamanho da Abadia de Westminister? Já pode soltar o fog.
Lesson 2 – Como entender o que eles dizem
 
Os ingleses não sabem falar inglês. Aquele que se aprende no Brasil, não! Você se esforça, escuta com atenção, faz força para não rir, quando percebe, está quase pedindo para conversarem… em inglês! Mas segura a onda; assim é briga na certa e os ingleses são sempre mais altos que você!
Por outro lado, seu ‘american accent’ – com o qual nós brasileiros estamos acostumados – não ajuda. Corre-se risco ainda mais vexaminoso: ser tomado por um latino querendo tirar onda de americano, o que, na Inglaterra, atende por crime de lesa-pátria. Em síntese, não dá para voltar para o cursinho de inglês e estudar tudo de novo… Finja que parecem normal. Pensa assim, se o problema é sotaque, imagine que poderia ser pior… Lembre-se dos escoceses!
Lesson 3 – God save the Pounds!
 
Ainda assim, uma vez em Londres, você não vai querer mais ir embora dessas brumas esterlinas. Você, enfim, chegou à capital do rock, das lendas medievais, dos romances de espionagem,  mitos, Avalon, Távola Redonda,  Rei Arthur, Sherlock Holmes… e das Spice Girls.
Diante disso tudo, as excentricidades britânicas só tornarão sua experiência ainda mais estimulante. As vezes em que você é quase atropelado por olhar para o lado errado na mão inglesa, os picos de pressão ao converter a Libra para o Real, a cerveja estupidamente quente, aquele sistema métrico bacana (pés, milhas, jardas, ounces, lembra?) e a degustação da alta gastronomia inglesa, que tem como iguaria expoente o “Kidney Pie”; em português: Torta de Rim. Servido?
Lesson 4 – I Beg your Pardon!
 
Com o tempo você também acaba assimilando alguns hábitos Reais e incorporando comportamentos insuspeitos. Começa a desenvolver um senso de humor esquisito, a fazer ironia em missa de velório, a se preocupar em pedir desculpas até para a calçada por pisar nela, a fazer piada que só metade dos seus amigos entende – como este texto! -, e se pega dizendo “I beg your pardon, madam!” antes de dirigir a palavra a uma criança. Normal.
Lesson 5 – Há ingleses em Londres?
 
Como também é do conhecimento de todos, os ingleses, além de não falarem inglês, também não estão em Londres. A capital da Inglaterra –  do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte – é, na verdade,  terra nativa de indianos, paquistaneses, turcos, árabes, sul-africanos, tailandeses e de alguns americanos redimidos. Dependendo do bairro, você até encontra um ou outro irlandês. Inglês mesmo, só no campeonato de Cricket da TV.
Lesson 6 – O Umbigo Britânico
 
O inglês que se preza é orgulhoso de suas raízes e um tanto quanto centrado em si mesmo (é como um americano, só que mais magro). Não é a toa que, com a modéstia que lhe é peculiar, decidiu, certa vez, – em nome do planeta inteiro – que o dia deveria começar… por ali mesmo. Num meridiano que estava de bobeira, fumando o haxixe colonial em Greenwich.
Lesson 7 – A coerência Britânica
 
O inglês que se preza suspeita de tudo que vem de fora e só valoriza as genialidades produzidas pela prodigiosidade anímica britânica. O que é curioso já que, quando Libra sobra, ele só compra carro alemão, só vai a Pub Irlandês, só toma cerveja belga e kebab turco com Cury indiano. Chocolate inglês? (argh!) Só se for suíço! Para comer assistindo as minisséries americanas na TV. Chinesa, claro!
Lesson 8 – Enfim, a Educação Real
 
O inglês que se preza não confere o troco quando compra (não é de bom tom); não barganha preço de nada (For god sake!); é incapaz de criar um escândalo verbalmente (só nos tablóides); não reclama de serviço mal prestado com o gerente (vai direto ao Juiz, gesto mais britânico) e não discute com outrem em público (that´s repugnant!) – a não ser dentro do Pub, onde todas as alternativas acima estão erradas.
Enfim, ingleses são tão ingleses, que só não são mais ingleses por educação!
Apologize!

 

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site CurtaCrônicas.com

Guia Flâneur de Paris

Por Daniel Marinho

(Originalmente publicado no Site Curta Crônicas)

Cambaleando, acordo rogando pelo banho depois de uma noite de desavenças com o relógio biológico. O sono, graças aos caprichos do novo fuso, fora encomendado cinco horas mais cedo que o de costume. Esperou deitado, claro… bufando, reclamando, revirando-se na cama.

O box do banheiro é  uma estrutura plástica branca, sobreposta à cerâmica original, que denuncia mais de dois séculos de idade do prédio do Hotel Istria; por onde um dia estiveram Duchamps, Picasso, Modigliani, Rainer Maria Rilke, essa gente que aparece em comédias de época parisiense do Woody Allen. De fato, não é difícil ambientar-se em edificações do século XVII por aqui. Mas caminhar sobre pisos que rangem e cheiram a rapé de cubistas que viraram busto de bronze mundo afora… Essas pieguices atiçam o imaginário de quem vem do Novo Mundo. 34 anos de espera. Não precisava tanto. É natural que sobrem expectativas.

O café espreita por toda a cidade. Vou pelo chá, mas quero mesmo é vinho, que é o preço da água. Não importa. Qualquer um deles levará involuntariamente aos subterrâneos da cidade. É assim que se começa um dia em Paris. Cavando os degraus inacabáveis de um metrô que ignorou a modernidade e fez que não ouviu da invenção das escadas rolantes. Os subterrâneos de um metrô velho, feioso, mas eficaz. Aliás, uma instituição nessa cidade.

O suficiente para encontrar nele a resposta de algo inquietante: como pode o parisiense bater ponto nos achocolatados cremosos, comer pão puro com cerveja, ‘fromages’ de sobremesas, tiramissús do tamanho de potes de sorvete e estar sempre em forma?

Na capital francesa, como se sabe,  não se come a refeição à vista. Come-se, em Paris, em parcelas a se perder de vista. Entrada, antepasto, salada, sopa, prato principal, sobremesa… Vai mais um vinho?

No entanto, não há gente rechonchuda, fora de forma ou mal vestida nas cercanias do Sena. Ao menos eu não vejo.  Alguma lei deve os obrigar a serem magros, elegantes e a saberem combinar o blazer com o cachecol – que por aqui, aliás, é usado na cor rosa por homens de muita coragem. Mas não lembro de ter visto academias de ginástica pela cidade e, creio, que o parisiense médio faz um tipo intelectual demais para correr na esteira ao som da Beyonce.

Restou a tese do step involuntário ao qual o parisiense é investido diariamente nas escadarias do metrô, articuladas por conexões numa cama de gato que só francês entende. De malas na mão, cruzando-as do aeroporto ao hotel é boa malhação aeróbica.

O dia então amadurece. Com o sol a pino, salto na estação Étoile/ Charles de Gaulle, linha 9, Zona 1, encarado por um grande Arco de concreto que triunfa na intersessão de doze avenidas hermeticamente arborizadas. Uma delas chamará mais atenção. Mais pela fama do que pela estima, já que a Avenida des Champs Élysées não me faz a cabeça.

Paris é mais do que uma boulevard de quatro faixas cercada por vitrines que anunciam jóias e bolsas de sobrenome famoso a preço de automóvel. É bem mais do que uma avenida elegante, voltada ao abastecimento de uma elite de latinos e de esposas do médio oriente que fazem dela sua Meca há alguns anos.

É que quando me dou conta, Paris é um beco de paralepípedos de desenhos ondulares, cujo silêncio foi quebrado pelo ronco vintage de um motor de lambreta. Paris é uma esquina, em sépia, cruzada por passos de botas de couro, de uma bela mulher cujas curvas se espreguiçam dentro de um sobretudo bege.

Paris é então um encontro das Rue Balzac e Lord Byron, adornado por cinco andares de acabamentos em Art Nouveou e fitado pela película de algum diretor da Nouvelle Vague. Paris quer falar comigo; diz que é uma passarela disfarçada de calçada, onde as cadeiras ignoram as próprias mesas e, voltam-se à rua, servidas de cafés lotados a luz de um dia ordinário da semana.

Paris, no cair de uma tarde de quinta-feira, é uma farra voyeur,  onde todos se encontram lá fora, no final de um expediente que não existe, já que os escritórios só podem estar vazios e alguém haverá de ocupar mais um bate-papo  entre a cerveja belga e o crepe de nutella.

E sorvido por uma errância flâneur incontrolável, o dia passa por completo e quase não me dou conta. Do Arco do Triunfo a região do Grand Palais, costurando as amenidades da vida parisiense, uma ficção era escrita pela distração do passo, para ser eternizada dentro de uma caixinha de música de Monmartre. Um dia perdido em Paris vale mais do que qualquer outro encontrado.

Porque ir até lá também pode ser um fiasco: filas, ninguém fala inglês, pontos turísticos  ‘conquistados’, o Louvre parecendo shopping em véspera de natal.  Só se chega  a Paris, de fato, quando se desiste de ir até ela . É preciso deixar que ela encontre você.

É quando uma brisa úmida do Sena começa a sussurrar a pele; é quando o caminho por si só traceja o que de melhor Paris tem a oferecer: a vocação para a degustação do prazer do cotidiano. A Paris que veste o corpo, a casa, o prato, a taça, a paisagem ou mesmo a própria vida que passa a não se confundir mais com a realidade.

Daniel Marinho

 

A “renomização” das ruas caretas do Rio

Por Daniel Marinho

Silêncio no Tribunal, arreiem as calças do general! E as placas de esquina também porque não dá mais tanta rua com o nome do camarada… Dele e de aristocratas vencidos, políticos bicentenários de mérito duvidoso e latifundiários escravocratas do século XVIII.

Ainda mais num lugar alcunhado de… Rio de Janeiro. Que sacada de marketing involuntária a do destino. Deixar um descobridor português perdido, cinco séculos atrás, confundir nossa baía no ápice do verão carioca. Vai que a Nau se atrasasse! Já pensou nisso? Moraríamos no Rio de Agosto? Meio hibernal. Para uma cidade que se vende de praias tropicais…

É o que eu digo, o nome é essencial. Imagine – num passado não muito distante – um pesadelo no qual a família Sarney dominaria, para além do Maranhão, a politicalha da Guanabara. E a capital seria rebatizada de “José do Ribamar Sarney”. Daria bossa? “Minha alma canta… vejo José do Ribamar…” João Gilberto ficaria rimando “quén, quén” em Juazeiro mesmo e Jobim acabaria fazendo concurso para escriturário…

E o que dizer dos bairros cariocas? É som com sabor: “I-pa-ne-ma”; “Gu-a-ra-ti-ba”; “Ma-ra-ca-nã”; “Hu-ma-i-tá”; “Gra-ja-ú”… Temos de mastigar “a” quatro vezes para falar “Co-pa-ca-ba-na”. Mas e se homenageassem Honório Gurgel por ali mesmo, entre o Leme e Ipanema?  Seu Honório se sairia uma boa Princesinha do Mar?

Nome bom já é metade do resultado garantido; uma rua com o nome de Leopoldo Bulhões não vai vencer na vida! É por isso que proponho aqui uma reclassificação de nossos asfaltos, em favor da poesia a que faz jus essa cidade fluvial: o Riacho Leitoso (era uma baía) de Janeiro. Aliás, não só dele. Do ano inteiro.

A Avenida Delfim Moreira, por exemplo. Tanto lugar para homenagear Dr Delfim e vão escolher o metro quadrado mais caro do País… A praia do Leblon é da família do Dr? Então vamos ao brainstorming:  Avenida da Maré Mansa e Água Fresca,  Avenida Sombra de Coqueiro, Boulevard Ninfas du Biquíni, Travessa do Banho de Sol Travêsso?

A Rua Bulhões de Carvalho – inconteste campeã mundial dos trocadilhos infames! Por que insistir nesse auto-vexame? Parece masoquismo… Muda para Boulevard das Tulipas Provençais, Rua du Brie com Damasco, Travessa La Dolce Vida, Avenida Sauvignon Blanc, sei lá! Garanto que o metro quadrado valoriza!

Por que a Almirante Alexandrino, de Santa Teresa, não vira logo “Estrada da Good Trip”? Todo mundo acha que o povo de lá só anda chapado mesmo… Na praia dos surfistas, no Arpoador: Rua Aloha! As curvas longas da via do Aterro do Flamengo dariam origem, não a outra Linha cromática do Lacerda, mas a “Linha das Silhuetas do Burle” e a Viera Souto, em homenagem a “fumacinha” da rapaziada, Boulevard du Paz e Amor!

E essa coisa sem sentido de homenagear artista com o nome completo que ninguém conhece? O Cazuza ganhou a Escola Estadual Agenor de Miranda Araújo Neto. E aí eu pergunto: quantos ligam o nome à pessoa? Não é tão difícil assim vai: “Escola Pro Dia Nascer Feliz”, “Escola Um Trem para as Estrelas”, “Escola Todo Amor que Houver nessa Vida”. Se fosse rua, votava na “Rua do Sabor de Fruta Mordida” ou na Avenida do Exagerado – com os limites de velocidade da lei, claro.

E não é? Por que ao invés de Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, não descemos no Aeroporto do Samba do Avião? Pensa que é sacanagem? Aposto dinheiro que muito gringo estaria fazendo fila para tirar foto em frente à placa do aeroporto!

E quando o Caetano morrer? Será a Avenida Caetano Emanuel Vianna Teles…? Depois de tanta dica do cara: Estrada da Meia Lua Inteira; Rua Samba de Verão; Avenida Trem das Cores; Rua Sem Lenço e Sem Documento; Estrada das Outras Palavras?

Daí então, a Avenida Lucio Costa, na Praia da Barra,  viraria a “Avenida Bronzeada de Sol; a Av Mem de Sá – point dos fanfarrões da Lapa – Avenida da Gargalhada Gaiata e a Niemayer, Estrada Desfiladeiro do Paraíso.

Há também as ruas mais gustativas! Convenientes aos Pólos Gastronômicos – como o de Botafogo, por exemplo – onde agora o Plebeu, o Informal e o Ipiati seriam recortados pela “Travessa ao Molho Pesto”, “a Rua à Piamontése”, a “Via do Cupcake de Limão”, e – representando a alta gastronomia – a “Travessa Creme de la Creme”.

Parada de Lucas ganharia, enfim, a Avenida Pétalas da Primavera; os inferninhos de Copa, a Travessa Travêssa do Prazer Imediato. As avenidas Churchil e Presidente Roosvelt – que não nos dizem respeito em nada – dariam voz a Jackson do Pandeiro com o cruzamento da “Avenida Só ponho o beebop no meu samba” com a “Rua Quando o Tio Sam pegar no tamborim”. E a Tijuca honraria não um fazendeiro que ninguém viu mais gordo, o Barão de Mesquita, mas seu filho mais nobre – e gordo também -, o “Síndico”, para matar as saudades da praia distante na “Rua Azul da Cor do Mar”.

Ingenuidade? Melhor começar por ela mesmo…

Aplainando a longa a Estrada da Utopia.

Daniel Marinho
Crônica originalmente publicada no Curta Crônicas

Conversa de Bar (e o teste do elevador)

Dizem que isso tudo começou com os Sumérios que já entornavam a jarra na taverna muito antes de a Baviera e o Lula existirem. Daí pra frente, só variou de nome: conversa de birosca, bodega, bar, baiúca, tasca, cantina, “butiquim” (com “u” e “i” que lhe são de direito), barzinho, pub, boteco, bistrô, taberna, pé sujo, e por aí vai…

E vai até onde der mesmo, porque conversa de bar só anda de ida e não assume compromisso com lugar algum. Ronda trôpega pelos mesmos grandes temas da humanidade de sempre – ainda que disfarçados aqui e acolá de alguma erudição – e segue como que numa novela eterna de próximos capítulos, intervalada pelos compromissos da luz do dia.

Ainda assim, realmente creio que o chamado bate-papo é mesmo uma cria do bar. Imagina uma reunião de ‘cumpadres’ às margens do Rio Eufrates antes da invenção da escrita, do rock, do cinema, do futebol, da política, da fidelidade, da igreja, das musiquinhas insuportáveis do momento… Falar-se-ia de quê? Era uma falta de assunto Sumérica! Daí a fermentação da cevada datar-se de mais de 4 mil anos antes de Cristo. Sem ela, a humanidade nem arriscaria a evolução. Pergunta aos aborígenes que não a conheceram?

Foi assim que primeiro Deus criou a cerveja; de onde nasceu a contemplação; que, por sua vez inventou o conflito; de onde nasceu o assunto, para este, por fim, assentar os alicerces de sustentação da conversa de bar… Só daí então, chegamos a esse mundo dos aplicativos do IPhone. Tá tudo nos Manuscritos do Mar Morto…

Porque o bar é uma de nossas ágoras contemporâneas; e é na conversa de boteco – ou de ambientes de conseqüências análogas – que se extravasam os anseios e angústias mais viscerais, sem se dar muita trela para o que pensa o Pajé da tribo. Um ambiente social de confluência de ideias, ainda que nem sempre durem mais de uma noite.

E as demais oportunidades de parola? Não são iguais. A conversa de boate, por exemplo. Um paradoxo em si; ouve-se alguma coisa? Não há. A conversa de fila de repartição pública? Uma ode à reclamação da vida, do tempo, do governo, da dor nas costas… também não é conversa.

Aliás, há algo mais blasé do que a conversa de elevador? Tem coisa mais chata, mais sem assunto do que ficar batucando na porta pantográfica ou discutindo se vai ou não chover amanhã?

Conversa de portaria há, mas com ressalvas! Futebol, novela ou no máximo, falar mal do governo; e mesmo assim que não se entre em detalhes porque a conversa volta ao futebol!

Conversa de ônibus, que pode contar com assiduidade dos atrasos do transporte público, até dá pano pra manga, mas conversa de taxista, convenhamos, não dá. Chega uma hora que o assunto se esconde, não agüenta mais ficar ali e termina virando conversa de elevador também!

No bar já não é assim, você distrai e já se vê correlacionando Deleuze com a conta de Gás. Tem espaço para tudo, ainda que muitas das vezes ninguém tenha propriedade alguma sobre o assunto. Até porque em dado momento ninguém liga. E com exceção da conversa de mictório – de longe a mais medíocre do gênero – no bar é, pelo menos, mais difícil alguém sair-se com a perguntinha infame: “será que chove amanhã?”.

Por que é assim funciona o ardiloso Teste do Elevador. Por quanto tempo? Até quando o sujeito resiste até abrir o pleito da previsão do tempo?

Eu, se fosse Meteorologista, só usava escada!

Daniel Marinho

Pagando 39 mil reais, a passagem é de graça…

Uma loja de móveis da moda acaba de anunciar uma campanha que chancelou de vez minha teoria a respeito da esquizofrenia universal que acomete essa nossa terra de Lordes. É assim: a cada 39 mil reais em compras você ganha (?) uma passagem para Nova York… “de graça”!

Antes de bater a cabeça na parede nove vezes de desgosto e perder de vez qualquer esperança na evolução da condição humana, fui obrigado a conjecturar o tamanho do fosso dos dissabores do pobre (rico?) consumidor brasileiro.

O anúncio em momento algum fala “ao alcançar 39 mil reais”. Deixava claro que a premiação ocorreria a cada R$ 39 mil reais em compras! Em outras palavras, somos levados a crer que a empresa pressupõe ou a esclerose do consumidor médio brasileiro ou a clonagem – para posterior replicação – dos moradores do Alto Leblon ao longo de todo território do País.

Eu sei, eu sei… Ela orienta-se a um consumidor classe A, gente com bala na agulha, etc. Mas então já começaram errando feio de público alvo; essa gincana de Luis XIV não devia nem ter devaneado em materializar-se na tela da TV lá de casa.

E ainda que alguém tenha por hobby queimar meia-dúzia de cotas de 40 mil reais em móveis numa tarde ensolarada de domingo, depois daquela partidinha de Gamão Escocês num tabuleiro de mármore carrara, não me venha com essa conversa de passagem aérea de graça para Nova York!

Se o sujeito largar agora o Gamão com a “criadagem”, desistir do conjuntinho de sofá de pele de orangotangos de Madagascar da Todeschini e for à Internet, ele vai descobrir que pode, com esses mesmos 39 mil reais, (pela tarifa da Copa Airlines do início de março, por exemplo) cruzar o continente americano de Norte a Sul exatas 65 vezes!

Eu disse 65 vezes!  Seria demais explicar que dentro dos 39 mil em móveis esse brinde já estaria embutido tantas, tantas vezes, que com ele já daria pra amortizar o financiamento da viagem de quinze anos de sua futura bisneta à Lua!

Exageros à parte, o consumidor brasileiro mais abastado é manjadíssimo por comerciantes do mundo inteiro como o pato da patota. Presa fácil; adora pagar mais caro por uma grife. E pior, ainda tira onda disso! Ainda bem que por aqui no País ninguém passa necessidade.

Outro dia numa jornada ao Fashion Mall (toda ida a esse shopping de gente “diferenciada” é um estudo antropológico e divertido do comportamento da espécie, trabalho de campo, entende?) me peguei confabulando com a minha mulher se um camisa-jaqueta diferenciada (a venda por cinco mil reais!) devia ou não ser declarada no Imposto de Renda… Lá, a propósito, também tinha relógio de 40 mil reais. Será que também “davam” uma passagenzinha pra os States de graça?

Curioso é que quando chegar a Nova York, o sujeito ‘premiado’ vai acabar irremediavelmente comparando os preços que pagou na Todeschini com as tradicionais barbadas das congêneres norte-americanas… Lojas, aliás, de grifes mais esnobes e famosas. Vai espumar de ódio! Aí ele é que vai bater com a cara parede! E olha que parede de mármore carrara dói pra cacete!!!

Daniel Marinho

Vocabularite: ‘tioria’ e diagnóstico


“Vamos combinar” que “menas” coisas “estão sendo” mais irritantes do que essas expressõezinhas “mal colocadas” por essa gente “sinixxtra” que tem por aí. “Fala sério!” “Ninguém merece, nem!”

“Na real”, “a nível de uma releitura lingüística”,  “a nível de reengenharia bate-papal”, “a nível de racionalização de processos” com o intuito de – vai entender – fazer-se mais interessante a outrem, essa “vocabularite de acadimia” não “vai estar agregando” valor nenhum a nossa afamada cultura de massa de padaria, cujos proprietários são – “mais do que nunca” – exemplos de “grande-figura-humana”, como costuma afirmar um famoso apresentador de programa de auditório dominical.

(SIC ad eternum)

Menos, gente! Seje o que for, nem, ao menos em tioria, o que mais me irrita pra mi mesmo, o que mais agrega perca, é que tem muita gente supostamente instruída dando eco para tanta colocação.

S-u-r-r-e-aaaal… Tipo assim, é gente que já passou da puberdade há m-i-l-êêê-n-i-o-s (!?). Não, cara…nem!

Então…eu, a nível de grande figura humana, não quero combinar nada com ninguém. Ninguém merece! Não quero fazer colocação nenhuma, nem estar compactuando com essas tiorias!! Assim você me mata, véio!!!!

Pronto, falei! Fala séééééério!!!!!!!!!!!

Segue, enfim, mais desabafos de “colocações” do lado-negro-da-força que perderam-se no tempo:

Fulano é “da pá virada”: atualíssima, para os pais do Niemayer.
Balada: Uma caixa cheia de halls?
Supimpa: Argh!
“No seio de”: Pornografia? Expressãozinha típica de “adevogado”.
Destarte: Ídem ! Só para maiores de 18 ou menores acompanhados.
Internauta: só o Silvio Santos ainda fala assim.
Blogosfera: outra megalomania… Não tem nada mais lugar comum do que Internet.
Minha paquera: tem cheiro de romance do século XIX.
Bráulio: já não tem mais graça.
“Vou chapar!” – não, não vai. Quem fala assim é mais careta que o Bolsonaro.
“Meu possante” – atestado de playboy.
“Procuro parceiros estratégicos para…”: sem comentários!
“Sem comentários”: falta de vocabulário!
Garçom, “la dolorosa!”: batido
“adoooooooro”: deteeeeeesto
“Vamus-nélsom”: put a keep are you!
“Afogar o ganso”: do tempo da “pá virada” ·
“Da pá virada”: do tempo de “manda brasa”
“Manda brasa”: em que ano nós estamos, mesmo?´
E a pior de todas… Inconteste expressão rainha da propagação de toda a dor e sofrimento do mundo; evocado pelas expressões-piadas-des-graça-damente-sem-graça:

“É pavê ou pá comer?” Afff!!!

E aí? Alguém conhece mais alguma vocabularite?

Daniel Marinho

Dois Pierre ao quadrado é poliedro para cateto, Duda!!

 

Você tem 3 livros. Joana 15. Maria não tem nenhum e Pedro tomou 14 emprestado. Maria e Joana adoram suas crônicas. Mas Pedro só lê Kafka e Chico Bento. Considerando as condições normais de temperatura e pressão, considerando que José acha Campari um drink muito doce e que o Sarney agora é candidato ao Nobel de Literatura, qual é a cor da sapatilha de balé de Maria?

Pensa que é piada? Um velho amigo meu – de texto e de copo – levaria a sério a típica charadinha de raciocínio lógico, absurda só para humanos, mas que provavelmente o entreteria noite a fora, em horas de prazer trans-lógico.

Duda Spreafico é assim mesmo. Não sai de casa sem antes calcular as probabilidades de tropeço nas pedras portuguesas da Uruguaiana, segundo os valores assumidos em seu cálculo matricial matinal, que toma por propriedade referencial as variáveis de tempo, espaço e dimensão quântica, hermeticamente atribuídos pelo próprio, desde que resolveu fixar residência dentro do conjunto dos números reais.

É… Duda está contido em IR! E não está nem aí para aquela inevitável interseção com os números primos… Para ele o acaso não existe. Ou melhor, não passa de premissa falsa, já que tudo acaba mesmo em silogismo. Causa e efeito, não é mesmo?

Outro dia, na Lapa, notei que ele continua com aquela mania de atribuir valores ao espaço amostral etílico, segundo o cruzamento do número de copos vazios com o número de bocarras em potencial de assimilação corpórea do líquido alcoólico. Para ele, o resultado da análise representa o grau de “enjoyability” por decímetro cúbico – numa escala de 1 a 7 – segundo a constante de pingúcius. “De posse do resultado”, afirma, “avaliamos se a balada vai bombar ou não nas próximas horas, entende?”

Duda gosta de contar. Estipula ao acordar se seu número de expirações irá coincidir com o log de 3 da média prévia ponderada de seus batimentos cardíacos. Caso obtenha valores múltiplos de sete, fica preocupado. Digo, isso com 63 % de chances.

Metódico ao extremo, só faltava colar um pôster gigante do Descartes nu no próprio quarto. Não que eu ponha em cheque a sua masculinidade; Duda, ao que consta, sempre fez sucesso com as mulheres, sobretudo, quando apela para seu charme sherloquiano e deduz – na cara maior dura – dentre outros impropérios – a cor das calcinhas das moçoilas…

Mas a verdade é que, no fundo, no fundo, se por um lado Sr Spreafico  tem cabeça de polinômio, por outro tem coração de manteiga. E, em meio às ruelas antigas do Cosme Velho – ou de Friburgo -, emociona-se com os contrastes da vida, com as interlocuções poético urbanas e as fábulas do cotidiano, tal como um senhor de idade com espírituosidade de um menino curioso.

E por mais que pose de calculadora científica, Duda-bom-de-copo gosta mesmo é de calcular, sob suas letras crônicas, a língua patrícia. E em meio a poliedros, paralelogramos e bissetrizes de medidas insuspeitas, escreve números em palavras para, do caos a entropia, desquantificar o dia a dia. É uma equação literária; é a crônica da trigonometria.

 

Daniel Marinho


(Esse texto é uma homenagem especial a Luigi Spreafico e aos escribas do Curta Crônicas, com quem tive a oportunidade de germinar grandes momentos e projetos ao longo do ano)

Magazine Compulsiva: o atacadão dos perturbados

Você é daquele tipo de gente que não pode ver uma porta de armário aberta ou um par de chinelos virado do avesso? Só entra nos lugares com o pé direito? Rói as unhas? Ou prefere os copos de plástico? Tem essa mania de ficar estalando os dedos o tempo todo?

Talvez você já fora alçado a uma condição de maior conceito e adquirira cacoetes mais nobres: quando atravessa a rua pela faixa de pedestres, só pisa em cima das listras brancas, não é? Você tem de esperar o telefone tocar quatro vezes e dar uma coçadinha na orelha antes de atender a chamada? Não termina nada em número impar e afirma que o grande dilúvio final chegará se não deixar suas cédulas de dinheiro convenientemente organizadas por ordem de antiguidade na carteira ou for forçado a pisar dentro daqueles losangos desenhados no piso do hall do prédio?

Ou isso tudo ainda é fichinha para você! Você é tão ‘exótico’, tão disforme que, quando fala das suas manias, é capaz de fazer corar até o Roberto Carlos! Você precisa ajustar o volume da TV em algum número múltiplo de sete; precisa limpar, uma por uma, todas as cerdas da sua escova de dente antes de bochechar e cuspir a pasta!  Você está certo de que se não lavar as mãos três vezes seguidas, com sabonetes glicerinados de cores diferentes, depois de  dar duas corridinhas ao redor da mesa de jantar antes de dormir, uma bigorna gigante cor de chumbo cairá sobre a sua cabeça!

Você é uma pessoa perturbada… É!  É sim…  E nem precisa fazer vista grossa, fingir que não ouviu, sair de fininho… Sabemos de coisas sobre você que até Deus e o diabo duvidariam…  Aliás, dá para parar com esse tremelique na  perna enquanto falo contigo?

Não esquenta… Somos discretos. Temos anos de experiência e nosso foco é nos resultados – ainda que repetitivos! Só a Magazine Compulsiva lembra de você!

Só a Compulsiva dispõe da mais seleta linha de itens especialmente dedicados às pessoas perturbadas. Não perca essa oportunidade! Tranque e destranque a porta da sala três vezes – para confirmar se ela está realmente fechada – e confira já algumas de nossas ofertas em destaque.

Na sessão de obsessões femininas, já está à venda (ao menos nas filiais de bairros que começam com a letra F e não tenham o número 13) um aplicativo para celulares smartphone, programado para ligar automaticamente para o seu marido de 30 em 30 minutos! O software já vem com um pre-set de perguntas gravadas em áudio: “Amor, no que você está pensando?” “Amor, confessa eu tô gorda, né?” e “Que voz é essa aí do lado, hein?”.

No módulo especial voltado aos paulistanos, um dicionário de concordância verbal desenvolvido por bêbados dará, enfim, legitimidade a estranha obsessão do paulista em de dar tanta porrada na gramática diariamente… Graças à Compulsiva, pedir ‘dois pastéus’ e ‘um chops’ agora terá jurisprudência vernacular!

Na sessão japonesa, a novidade é a câmera fotográfica que já vem com todas as fotos reveladas antes mesmo do japa sair de viagem obcecado pelo seu fotocídio… Ou seja, o resto da humanidade, enfim, agora também terá espaço para fotografar nos principais pontos turísticos mundiais! Nada daqueles grupos enormes de japa (existe algum deles que não ande em grupo?) com dedos nervosos, clicando Nikons e Canons caríssimas, a torto e a direito, impiedosamente por onde quer que passem (argh!).

Atenção também para nossa sessão de importados: o badalado “Neuros Assépsius Compulsive Washer”, limpador sistemático e repetitivo de maçanetas da Crazy Washer´s.

E mais! Relógios programáveis e personalizados: que não marcam segundos repetidos; que não marcam minutos múltiplos de oito; que só marcam os números pares; que não marcam os números primos; que não marcam as horas! (oi?)

Organização congênita, assepsia crônica, simetria aguda, verificação endêmica, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição, repetição (bate duas vezes na mesa, agora!!!!!). Você vai se sentir em casa!

Acesse já o nosso site (depois de limpar os teclados com aguarrás de novo) e confira as promoções da Compulsiva.

“Compulsiva! Obcecada por você!”

Daniel Marinho
Texto originalmente publicado no site Curta Crônicas 

 


O Conto da Vigária

Há quem diga que vingança é um prato que se come frio. Mas é que às vezes a oportunidade bate a porta e aí é pegar ou largar, só dá tempo de uma assoprada; come-se morno mesmo.

Foi assim com a Marcela numa dessas festas caretas de boatezinha da moda na Barra da Tijuca. Aquele tipo de boate que se você chegar de tênis ou barba por fazer é capaz de te darem voz de prisão!

– E aí gaaaaata, eu não te conheço de algum lugar, princêêêsa? (sussurrou ele, fazendo cara de Wando)

Luis Alfredo; notadamente um mala. Uma valise sem alça e assunto, expondo a chave do Audi por fora da calça jeans da ‘Diesel’ e os braços apertados por uma daquelas camisetas do tipo mamãe-sou-forte (da… ‘Diesel’, digamos).

Mauriçoca até o último fio de cabelo bem penteado, que por ter nascido com tudo o que quis – e o que não quis -, cresceu com a certeza de que a Terra só estava lhe aguardando para recomeçar a girar. Ainda assim, dado seus prin$ípios, estava acostumado a sempre – sempre mesmo – faturar na noite com as garotas dos condomínios do bairro emergente.

Àquelas horas, porém, com a casa quase por fechar, Marcela – gata paulistana escaldada das baladas cosmopolitas (de Ibiza à Istanbul, de onde inclusive acabara de chegar de mais uma turnê da sua Cia de Dança Contemporânea) – fez que não ouviu. Nunca o tinha visto na vida; nada lhe interessara dentro daquele invólucro. Era fazer-se de sonsa, virar o rosto, dar de ouvidos. Nada que qualquer mulher com seus atributos não tenha de fazer quase todo dia.

Mas “chato” para Luis Alfredo era um eufemismo… O garotão insistia com olhares, bocas e poses de Julio Iglesias a cada desdém da morena de longos cabelos lisos e tatuagem no pescoço. Afinal, não era possível! E o Audi?

Quando Luis Alfredo começou a recitar, em voz alta, versos do Roupa Nova, Marcela – já contendo a taça de Pina Colada que teimava em atirar-se involuntariamente de sua mão rumo à face do rapaz – resolveu ponderar. Ao andar da carruagem, quase aliás já virando abóbora, resolveu  pagar para ver. Pagar para ver e assistir de camarote. Quem diz o que quer…

– Claro! Eu me lembro de você! Nossa você é o…
– Luis Alfredo!
– Isso… Luis Alfredo… Claro!
– Você lembra?

Luis Alfredo perguntou,  surpreso.

– Claro! Lá da…da… escola, não?
– Você também estudou no Sacre Couer de Marie?
– Sacre Couer… isso! Aí que saudades das freiras… (ela mal podia acredita no que estava dizendo)
– Aha! Suspeitei desde o princípio!

Emendou Luis Alfredo, ao balançar os braços para simular o herói de anteninhas daquele programa que provavelmente o inspirara como projeto de vida e conhecimento.

– Mas então… Você não mudou nada, hein, Pintinho? Ainda continua com aqueles tiques estranhos?
– Tiques?  Pintinho?
– É! Aliás, você ainda lembra daquele gordinho metido a besta da turma (toda escola tem um gordinho metido a besta). E do João (esse aí, então…), lembra dele?
– É… Lembro. Mas você…
– Ana ! (Sempre haverá uma Ana). Meu nome é Ana! Lembrou?
– Da 6ª F?
– Isso! A que pegava o ônibus com aquela garota que você dava em cima? Como é mesmo o nome dela? Era a..
– Fernanda!?
– A Fernandinha! Quanto tempo eu não vejo a Nanda…
– Coincidência, hein, Ana!

Luis Alfredo estava preocupado.

– Nossa! Olha, nem te conto! Ela fazia a tua caveira viu! Aliás dava dó… Você de quatro, rastejando daquele jeito e todas as meninas da sala te sacaneando! Você também sempre foi meio esquisito, vai confessa…
– Como assim? Tá gozando com a minha cara?!
– Eu sei, não era fácil, não é?  Ninguém queria nem ser visto contigo, Pintinho…
– Mas… 
– Olha eu não zoava, não! Ficava com pena, mesmo… Era horrível o que falavam por trás de você! E era muito injusto, porque você não ficava sabendo… Mas agora os tempos são outros, Pintinho!
– Perá lá! Que negócio é esse de Pintinho?
– Sei lá os meninos que te chamavam assim. Pediam para não te dizer nada. Gente… Você nunca soube né?  Tadinho… Aliás, é mesmo! Por que será que te chamavam de Pintinho, Luis Alfredo?
– Mas eu não tenho… Eu não sou Pintinho!!!!
– Gente, até a professora de matemática pedia para eu te evitar. Essa gente não tem sentimento!
– Quem?
– Não lembra da professora carrasco da sexta-série?
– A Professora Vânia????
– Aham! Ela mesma!
– Mas como assim, me evitar?
– Olha, eu nem levava a sério, Pintinho. Mas é que…
-Para de me chamar assim!
– Achava meio escárnio das meninas. Além do que aquele fedor todo era gazes. Todo mundo tem…
– Fedor?
– É! Por que você acha que nenhuma menina queria ficar contigo?
– Mas ficavam sim!
– Ficava nada, Pintinho!
– LUIS!!
– Tá , Luis… Então, lembra a festa surpresa da Carolzinha?
– Não.
– Das festas do pijama na casa de Búzios do pai da Luana?
-Não!
– E das festas da lingerie na casa da Kelly?
– Não…
– E quando agente fingia que ia fazer trabalho de grupo na biblioteca e se escondia lá no vestiário do ginásio para brincar de salada mista?  Todo mundo chapadão… Todo mundo muito louco!!!
– NÃÃÃÃÃO!!!
– Pois é!
– Pois é o que?
– Ninguém te convidava, Pintinho!
– LUÍÍÍÍSSSS!!!
– Desculpa! Aí… Coitado! Nunca soube de nada…  

Sua euforia minguara. Luis não podia acreditar. Era duro demais para o velho pegador do Audi Conversível Vermelho. Até a professora Vânia?!  Nem o Marcelão-quebra-queixo lhe contara nada!

Como seria de agora em diante? Lidar para sempre com os traumas do passado? E ainda que tudo estivesse mal explicado, Pintinho (perdão, Luis!) estava desolado…

– Mas eu nunca soube de nada, Ana! Nunca ninguém me contou!  Por quê, meu Deus? Por quê?
– É Pintinho… Vou te dizer uma coisa, o que é o ser humano…

.

Daniel Marinho

O Diário de Suzana Barraqueira: uma ficção egótica em cinco atos

2 de novembro – Não A-C-R-E-D-I-T-O! Acordei hoje mais gostosa do que já tinha acordado ontem! Pode? O espelho até quis me agarrar no banheiro!

Depois da academia, fui para o salão. Não via a hora de chegar ao Diva´s… Gosto muito das meninas de lá; a gente aprende tanto…

À tarde, passei o resto do dia em casa. Preciso mandar o Roderbal (meu mucamo que aluguei junto à agência de ex-bombeiros marombados) dar um jeito nesse apartamento, porque já não cabe mais nada por aqui.

Mas vou me desfazer de quê? Só guardo o necessário… Toda mulher merece ter, ao menos, um par de sapatos para cada dia do ano… O que o meu público (que me ama!) pensaria da Suzana, repetindo a mesma meia-calça mais de um dia?

E nem adianta a Hebe implicar com as minhas fotos de capa de Revista Contigo emolduradas em cristais, pele de chinchila e lantejoulas ao longo das paredes do corredor que leva à minha suítes… É invééééja

Obs: Lembrar o Roderbal de gravar programa do Nelson Rubens.

3 de novembro – Sonhei que tinha me mudado. No sonho, Roderbal, recém chegado do 23º Registro de Imóveis do 2º tabelionato do Cairo, no Egito, me entregava a escritura, lavrada em meu nome, da Grande Pirâmide de Quenfrén, onde ele já derrubava as paredes de um dos saguões superiores, para caber a minha penteadeira.

Fiquei puta com o Roderbal! Preferia a Quéops, que dá sol da manhã, vista para a Esfinge e é muito maior! Lá ainda dava para sobrar um espaço para guardar a minha maquiagem! Acho que ele não gostou… Disse que compraria o Rio Nilo para mim…

– Bota lá seu ego, Dona Suzana… Se apertar, cabe!

Não entendi…

4 de novembro – Acordo e, ao me ver no espelho, começo a ter espasmos orgásticos oníricos… Não fosse a gravação da novela do Aguinaldo, me comia todinha ali mesmo. O vizinho interfonou reclamando dos gemidos… Respondi a ele com toda a classe e compostura que me é pertinente, mandando-o à puta que o pariu, porque eu não sou mulhérzinha de aturar desaforo de vizinho! Além do que, o público brasileiro M-E  A-M-A!!

Sabe, fiquei encucada com o sonho do Egito… Pensei nele o resto do dia. O que era aquilo tudo, hein? Um sinal de algum Faraó? Será que agora até Ramsés vai querer agendar uma hora comigo? Ou seriam contatos de minha encarnação passada: a Cleópatra. Aí, gente… somos tão parecidas!

Obs: Lembrar Roberval da inscrição para a próxima Dança dos Famosos.

5 de novembro

11h00min AM – Acordo e vou direto à cozinha, tentando evitar o espelho. Não adianta, ele é que sai correndo atrás de mim. Quase me estupra em cima da mesa de centro.

Hoje vou ter de ir ao PROJAC de novo. Só vou por causa do Aguinaldo! Mas também…deve ser tão importante pra aqueles atores contracenar comigo… Melhor ir mesmo. Ah! E aquele personagem foi um preseeente… Vou ver se atraso um pouquinho para fazer um charme (a Vera vai ficar possessa de não ter tido a mesma ideia!

11h00min PM – De noite fiquei vendo TV em casa. Não tem nada que preste na TV a Cabo à noite… Nem tem programa de auditório!! Depois querem dar educação ao povo… Mudei pra Rede TV.

OBS: Gente tô passada! O que era aquilo que a Luciana Gimenez vestiu no Superpop de hoje? Uma mulher desse porte, que subiu na vida pelo próprio talento… usando Gucci!? Coisa mais popular!

6 de novembro – Nem dormi direito. Fiquei triste… Sabe, é nessas horas que a gente vê o quanto nós nos martirizamos por coisas tão passageiras, tão efêmeras, tão pequenas… Gente, coitada da Lu !!!!!!!

À tarde, fui para Sampa. A Hebe ficou lá em casa, tomando conta do Roderbal. Tive de fingir o tempo todo que não percebia que todo mundo ficava me notando no saguão do Santos-Dumont. Carioca da Zona Sul é besta! Nem me pede foto. É inveeeja!

Vou direto ao guichê da TAM e uma senhora – dessas já de idade avançada, sei lá uns 60 – tem o disparate de dizer que eu, como todo mundo, tinha de ir para o final da fila! Pode?

Olha…

Tem gente que não tem N-O-O-O-O-O-O-Ç-Ã-O!!!!

Daniel Marinho

Rosebud! A ingênua arte do Skibunda na Cordilheira dos Andes


Já é noite. As luzes da cabine, apagadas, cederam ao banho de lua cheia quase à porta da Troposfera. O Brasil ficou para traz em algum lugar do passado e na busca pelo Pacífico o que geralmente é um punhado de névoa escura entrecortada por pontículos iluminados do solo, dá vez a uma cadeia montanhosa que de tão megalômana é suspeita, e assustadora. É que ela está perto demais para quem está a dez quilômetros de altura e, juro, o avião vai tropeçar.

Não estou de todo errado. Sobre os abissais blocos de gelo eterno, ao lado – sim ao lado – do Pico do Aconcágua, a já anunciada e temida turbulência chega e confesso: quando o avião começa a pular amarelinha em cima da Cordilheira dos Andes naquela escura madrugada de terça-feira não haveria poesia de neve sob o luar que pudesse me aplacar os brios.

O Chile não é para desavisados. Uma “ilha nervosa” dentro do próprio continente: ao Norte,  o deserto mais seco do mundo; a Oeste, o maior oceano do mundo; a Leste, a maior cordilheira do mundo e ao Sul, ele próprio: o fim do mundo! Aqui tem também terremoto, maremoto, tsunami, vulcão e nevasca; não lembra o litoral baiano… É, por assim, dizer um Japão dentro da América do Sul.

Exagero? Mal aterrisso no Aeroporto Internacional de Santiago e já  me deparo com conselhos sobre procedimentos diante de tremores de terra. Na volta seriam as cinzas das erupções vulcânicas que ao tomarem o espaço aéreo vizinho (os chilenos fazem chacota de suas cinzas, dado sentido do vento, nunca afetarem a eles, mas aos céus argentinos), por muito pouco, não me alongam a estadia hospedando-me em cadeiras de aeroporto.

Mas como quando Deus tira os dentes alarga a goela, por uma ironia da ventura, é justamente boa parte dessas desavenças da natureza que atraem as pessoas a esse filete de terra, locatário do maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do continente.

E é em meio às paisagens marcianas do Atacama e aos vulcões assanhados do Sul,  que aquelas rajadas de vento, que tanto sacodem os aviões lá em cima, caem sobre as montanhas de até cinco mil metros que circundam Santiago, sob a forma de uns flocos de espumas brancas e congeladas.

Santiago é, assim, a única capital da América do Sul sob a graça de grandes estações de Ski e, muita neve… Próximas do centro da cidade – a cerca de 40Km –  suas pistas estão entre as melhores do mundo. O que significa que numa ida a terra de Neruda, além de encher a cara de pisco sour (o destilado mais delicioso dessa era) numa cidade cuja vida cultural e noturna nada fica a dever a uma capital européia, ou de dar uma escapadela às famosas vinícolas chilenas, você – ser tropical de chinelo e camiseta – ainda assegura, no mínimo, o seu Skibunda na montanha de gelo!

No dia seguinte, rumo à Cordilheira! A estrada que segue de Santiago para os “Três Valles” – onde estão situadas as principais estações – é tranqüila até determinado momento, quando o caminho lembra que precisa subir mais três mil metros de altura em pouco mais de 20 quilômetros de estrada. De lá, como é de se supor, de estrada a pista vira uma escada, indo e vindo em ladeiras íngremes e curvas de 180 graus, que costuram não só uma paisagem incomum como também o seu estômago – de enjôo e de felicidade.

Pouco a pouco, porém, os degraus suavizam. É quando começam a aderir ao vidro da janela, simulando uma garoa de montanha, pequenos cristais de água solidificados. Em pouco tempo, eles vão tomando uma forma mais espessa e, de translúcidos que eram, ganham um tom níveo. A vegetação, cada vez mais rara e seca, passa a dispor também de novos contornos, como que de uma cobertura de bolo.

Daí para frente a estrada nunca mais é a mesma e toda a paisagem se transforma em cor de clara de ovo, confundindo-se com as nuvens, até mesmo por estar mais alta que elas. E então, de repente, você já não está mais seco e ainda que um guarda-chuva não resolvesse, plumosos cristais brancos em queda livre lhe sujarão inadivertidamente o rosto de branco. Você não vai nem ligar…

É lá, na fronteira entre o Chile e Argentina, relativamente próximo ao Aconcágua, que estão as principais moradas do snowboarder e do ski chileno: El Colorado, La Parva, Valle Nevado e, um pouco mais afastado, Portillo. No Valle Nevado está a mais alta e maior das estações. A temporada de inverno já encerrara e as pistas de ski estavam fechadas, mas ainda havia muita, muita neve pululando nos “cerros”.

O que restava era uma ladeira alta, branca e relativamente fofa no alto de um morro, entrecortada pelas edificações modernas de um resort de luxo hibernal. Era lá que dezenas de pessoas escorregavam sentadas em uma espécie de trenó sem tração animal, ladeira abaixo.

E não pense que era brincadeira de criança. Ao contrário de nossas dunas tropicais, na neve o skibunda tem muito menos atrito e ganha uma velocidade resolutamente maior. Além do que não há praia tropical para encerrar a jornada, nem freio algum, senão seu próprio corpo, a cargo de dar uma cutucada na inércia.

Mas sua criança melequenta interior vai até estar lá, é certo.  E creia, sob uma nevasca de céu turvo, de nuvem carregada e sem horizonte, você vai temer essa brincadeira ingênua. Vai temer e desejá-la. E vai deslizar Cordilheira dos Andes abaixo em velocidade e susto rumo às aspirações aventureiras e fantásticas da sua infância.

E tal como em “Cidadão Kane”, vai reencontrar-se literalmente com o “Rosebud” particular que há em cada um, sob a mesma forma daquele trenó singelo do filme – e tudo o que ele representa -, feliz por escorregar no monte de marshmallow, feliz por brincar de lobo da neve, o Senhor das montanhas do Sul.

Daniel Marinho

Estações de Ski próximas a Santiago:

Valle Nevado
http://www.vallenevado.com/pt/

La Parva
http://www.laparva.cl

El Colorado
http://www.elcolorado.cl/

Portillo
http://www.skiportillo.cl/portugues/

Como chegar:

De carro, translado dos Ski Resorts ou micronibus de agências de turismo.

* Ski Total (agência)   http://www.skitotal.cl/
* Turis Tour  (agência)  http://www.turistour.com 

.

A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho

Curso Prático para Audição Aplicada da Conversa Alheia

Conversa dos outros? Nenhuma conversa é necessariamente… dos outros. Seus ouvidos têm pálpebras? Então que não venham conversar perto de você!Porque para mim, se me interessar, vou fingir que estou escrevendo, vou fingir que estou lendo, vou fingir que estou cochilando, sei lá, mas vou ouvir…

Distrai que é uma beleza. Especialmente em filas de banco, restaurantes, elevador apertado , metrô demorado, viagens intermináveis de ônibus e quando o sistema do Check In da Aérea caí e você tem de ficar enrolando mais quatro horas até começar a exigir a barrinha de cereal a que tem direito por lei. Mas tudo por interesse antropológico. Claro, você entende.

O problema é que com o tempo você começa a tomar gosto pela coisa. E quando vê cria o hábito. Começa, então, a dar “ouvidadelas” à parolagem alheia – a qualquer tempo e momento – e acha isso bonito.

Daí começa a dar “ouvidos” a um perfil mais exigente e requintado de fofoqueiro, que você não sabia, mas morava adormecido dentro de você. Ele então cresce exponencialmente – na proporção inversa da sua credibilidade –  já que essa ‘atividade’ passa a demandar um aprimoramento técnico que não lhe fora ensinado em nosso precário sistema educacional.

Foi pensando em preencher esta lacuna – e emprestar certo afago existencial a essas almas – que desenvolvi a mais completa metodologia extensiva aos pretensos escutadores da vida alheia. Afinal, em meio à pós-modernidade BBB, serão eles os empreendedores cada vez mais requisitados por um mercado de trabalho aquecido, porém carente de profissionais da fofoca qualificados.

Certamente, em um mundo sob jugo da crise do sistema capitalista, como nos prognostica o presente, eles irão assentar as bases da nova ordem mundial, ao oferecerem uma releitura do regime de trocas simbólicas convencional.

Segue, ao nosso aguardado corpo discente, a grade curricular do curso completo, já regulamentado pelo organismo normativo  responsável, com as respectivas descrições das disciplinas:

Dissimulação Aplicada I
Sabe quando a conversa alheia interessa, mas você está longe da “cena”?  Os mais ansiosos, sobretudo, se complicam nessa hora… Arrumam desculpa para chegar perto e terminam por dar bandeira.
Nessa disciplina o aluno assimilará, por meio de experimentações psicomotoras práticas, técnicas de dissimulação instrumental que dão margem e flexibilidade ao raio de abrangência de seu campo sensorial “curiosístico”. Uma esticadinha de pescoço aqui, uma moeda que cai ‘sem querer’ no chão ali, uma leve inclinação da testa à mesa para encenar uma dor de cabeça e despistar suspeitas, dentre outras técnicas, serão abordadas pelos instrutores ao longo dos semestres.

Acústica Distributiva
Mais difícil do que escutar o bate-papo convencional é você se ver em meio uma conversa com o ‘compadre’ (ou a comadre) e se interessar ainda mais por outra conversa ao lado! Não é simples lidar com a difícil equação da audição distributiva, que nos permite conversar com alguém e ouvir o vizinho ao mesmo tempo! A Acústica Distributiva disciplinará o ouvido do aluno a ouvir em faixas.
Por meio desta técnica, ele poderá distinguir com comprovada eficácia mais de três informações sonoras no mesmo instante, registrando-as em pistas cerebrais diferentes, sem que suas sinapses entrem em curto. A técnica agrega notável melhoria de performance ao auscultador alheio!

História da Vida Privada
Certamente, é do conhecimento de todos a vasta e accessível bibliografia sobre o assunto. Difícil é fugir dele! Bastaria ir a qualquer banca de jornal, ligar a TV ou bater na porta da Dona Gertrude do 302.
O desafio da cadeira em questão é abordar a temática sobre uma perspectiva mais ampla, que propicie aos discentes uma reflexão profícua e a análise conjuntural dos fatos que levam a raça humana a se comportar do jeito que se comporta, por exemplo, numa reunião de condomínio.

Acústica Subaquática
Ouvir a conversa alheia num bar é fácil! E se a prosa em foco for realizada em a uma aula de Hidro? Isso porque o som se propaga cerca de quatro vezes mais rápido na água do que no ar! E como o meio líquido é constituído de maior elasticidade, a compressão e descompressão sonora deturpam a qualidade das ondas. Daí todos falarem dentro d’água com voz de pato.
Esta disciplina propiciará ao aluno, por meio de aulas de laboratório, o domínio da decodificação dos timbres subaquáticos, bem como a percepção de seu campo harmônico.

Direito Amoral
A vida dos outros é problema seu, não é verdade? Por meio da leitura reflexiva dos códigos e leis que regulam o doutrinário do Direito Amoral, o aluno apreenderá a legislação pertinente a seu ofício. Atuará respaldado de conteúdo normativo em face aos  processos por invasão de privacidade e do que não lhes diz respeito.

Introdução a Neurofisiopatologia Românica dos Gestos Italianos
O que você faz para auscultar o parlatório da vida coletiva? Abre bem os ouvidos, certo? Pois, saiba que se quem tem boca vai a Roma, para quem chegou a Roma de nada adiantam os ouvidos, ragazzo maledito!!! Questo italiano non parla con la bocca!!!!!!!!! Italiano parla con “la mão”!!!!!. Capiche? Ragazzo dannato!!!

A cadeira “Introdução a Neurofisiopatologia Românica dos Gestos Italianos” irá iniciar o aluno na pantomímica e, por assim dizer, expansiva língua italiana. Uma vez que o curso completo tem por objetivo capacitar o discente a auscultação da vida alheia em qualquer ocasião,  provê-lo-emos das aptidões necessárias à compreensão do gestual românico, seja na Itália ou nos países de comportamento patológico-congênere.

Disciplinas Eletivas Extracurriculares
– Checar suas respectivas descrições na secretaria
(falar com  Dona Léa, a senhora da vila que passa à tarde na janela)

Antropologia da Curiosidade Funcional
Anatomofisiologia da Fofoca Instrumental
Leitura Labial em Braile à Distância (!)
Estágio Supervisionado (à escolha do aluno)

Daniel Marinho

O Pastor quer o meu dinheiro!

E qual não foi a surpresa, de novo, quando abri o envelope que chegara do correio. O Pastor Silas Malafaia – sim, aquele que passa mais de 25 horas por dia pregando “em nome de Deus” em horários comprados na Rede TV, Band e, claro, Record – tem insistido em querer se corresponder comigo.

Já é o terceiro envelope que recebo. Sempre polpudo, cheio de propagandas, folders, livretos e ensinamentos sobre como EU devo viver a MINHA VIDA, além das promessas de realizações e de um futuro próspero àqueles que agraciarem o valor de sua fé malafaica.

A fé, nesse caso, veio escrita num papel com código de barras, que é pagável preferencialmente nas agências Bradesco. Para facilitar, o ‘Boleto de Contribuição’ já estava até mesmo com o meu nome completo impresso – naturalmente, sem meu consentimento -, seguido de minha nova titulação, até então por mim ignorada: “Parceiro Ministerial Especial da Associação Vitória em Cristo”.

Na encomenda divina, além do mais bem diagramado boleto de cobrança que já vi em vida, veio também o libreto “Um Bom Futuro para Você”, do Pastor Silas Malafaia, uma mensagem desejando Feliz Natal (atrasada) e um 2011 de bênçãos para mim “e para toda a minha família” do Pastor Silas Malafaia e uma edição da Revista Fiel, cuja matéria de capa abordava o assunto… Pastor Silas Malafaia.

É bem verdade que o Natal de felicidades à que o Pastor se referia só estaria completo, segundo um encarte anexo, se eu desse aos meus chegados o que era então anunciado como “o melhor presente do mundo: a palavra de Deus – um presente para a vida eterna”. Em outras palavras: A “Bíblia da Mulher Vitoriosa”, disponíveis nas cores branca, duotone (?) e lilás-bordô; a “Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira”, nas cores marrom-creme, cinza-azul, creme-vermelho ou preta, dentre outras obras de renome da literatura mundial contemporânea.

Os ‘presentes melhores do mundo’, indicados pelo Pastor, são todos editados pela Editora Central Gospel – cujo endereço por coincidência é o mesmo da Associação Vitória em Cristo, do Pastor Silas Malafaia – e podem ser adquiridos em até 10 vezes sem juros no cartão ou cheque pré.

Como já dá para supor eram as mais nobres as intenções do meu novo “Pen Pal”; ele inclusive assegurava que uma vez depositada a contribuição do Parceiro Ministerial Especial – aquela do Boleto bem diagramado – na sua sacra-conta-corrente ele (sic) “glorificaria o Senhor por minha vida”. E ainda, por solidariedade, fazia o favor de me lembrar que caso eu já estivesse com o dinheiro, deveria enviá-lo I-M-E-D-I-A-T-A-M-E-N-T-E…

É que é o seguinte, o Pastor mesmo disse: “quando Deus fala ao nosso coração a respeito de uma semeadura, é porque Ele já tem uma colheita preparada para a gente”.

Entendeu?

Quando Deus fala??!?!

Das duas uma, ou o Pastor num grau acentuado de esquizofrenia lunática acredita piamente ser o procurador da palavra – e por extensão da conta bancária – de Deus, ou estão querendo me fazer crer que Jeová desce ao Brasil todo dia para, vestido de terno e gravata e com o cabelo chupado de gumex, gravar programas de auditório evangélicos em templos do subúrbio carioca!

Até onde o sacro óleo de peroba pode limpar o pecado do mundo?

Pastor, tende piedade de nós!

Daniel Marinho

Já abriu a porta de um avião em voo? Tomada 1: Fernando de Noronha!

“… e caso precise pousar em alto-mar, a aeronave afundará em 20 segundos” Atônito, eu ouvia as últimas orientações no Bandeirantes EMB-110, minutos antes da decolagem de um voo de quase duas horas sobre um longínquo mar aberto.

O Suboficial da Aeronáutica definitivamente não tinha a voz adocicada de uma aeromoça cheirando a flor de azaléia, mas fazia as vezes de um Comissário de Bordo atípico que nos passava as instruções necessárias, no caso de alguma pane com aquele bimotor mais velho do que eu e pouco maior do que a cozinha lá de casa. Em breve o Bandeirantes – espécie de “fusquinha da aviação brasileira” – cruzaria mais de 500 quilômetros sobre o Oceano Atlântico.

“ E os coletes estão nos acentos”, prosseguiu. “Há um bote salva-vidas, aquele amarelo do final da aeronave que também pode ser usado, caso haja tempo, porque o pior não é nem a queda; tem muito tubarão lá em baixo”. “Não se esqueçam! Se o piloto apagar, assume o co-piloto!”

Tem coisas que a gente até precisa saber, mas não precisavam se dar ao trabalho…

Minha jangada vai voar pra o mar

Eu sei. Nem podia reclamar muito. Apesar de já contabilizar mais de dois mil quilômetros no bimotor naquele momento, ainda faltava o trecho derradeiro para então aportar no destino final: um paraíso digno daqueles livrões de fotografias (belos, mas sempre esquecidos nas prateleiras das livrarias, talvez por essa estranha mania de lhes atribuírem três ou quatro dígitos ao preço de capa).

E ainda que a viagem fosse a trabalho, após subir a costa brasileira do Rio de Janeiro a Recife, o Banderulho – como o chamava graças ao ronco ensurdecedor daquelas turbinas que já vinham discutindo com meus ouvidos há algumas horas – ainda precisava cruzar muito oceano para chegar a Fernando de Noronha.

Enfim, que Ícaro nos proteja as asas; pouco menos de duas horas depois o Bandeirantes aterrissava com todo o charme que lhe é peculiar na curta pista da ilha principal do arquipélago.

A ida àquele punhado de “praias-capa-de-guia-de-viagem” – onde é mais fácil nadar com golfinho do que esbarrar com um ambulante na xepa do biscoito “Grobo” – tinha como principal objetivo a captação de imagens, aéreas e em solo, para duas produções de vídeo e uma revista – tudo assim, de uma vez mesmo; não é todo dia que se consegue ir para um lugar desses…

Nos dois dias e meio subsequentes, faríamos alguns takes das locações pré-planejadas e os voos para as filmagens e fotografias aéreas. Pouco tempo, é verdade, mas depois do tanto que tive de ‘ouvir’ dos amigos que tiveram de ficar no Rio de Janeiro quando reclamei do tempo curto de permanência em Noronha, não digo mais nada…

Aliás, esta é uma das situações inusitadas pelas quais você passa quando a boa ventura do destino te leva a Noronha, sobretudo se pelos ossos do seu estimado ofício. Os vídeos em questão estão, inclusive, dando mais trabalho do que deveriam por conta da viagem. A ida ao arquipélago era, de todo modo, essencial, mas uma vez que gente como eu – de minha ‘digníssima’ classe social, não costuma – ou pode – optar por desembolsar da própria carteira o equivalente a uma viagem para Europa para nadar por aquelas bandas, e ainda ter de pagar diariamente ao IBAMA simplesmente por estar pisando numa ilha, minha ida a trabalho ao paraíso atlântico tem curiosamente despertado um comportamento estranho de meus entes chegados quando os conto de minha jornada. Já perdi a conta das vezes que fui “xingado”!

Você vai a Noronha! Seu filho da p***!!!! Dizem carinhosamente… Do período que antecedeu a partida às tradicionais sessões de fotos com o cabinho USB da TV, na volta, tive de ouvir muito. Mais um pouco teria de me desculpar publicamente pela viagem…

The Treasure Island

De fato, Noronha sacode a imaginação de muita gente. Um paraíso perdido em meio a um azul que nunca acaba – e que vez por outra ainda comete o acinte de virar verde-esmeralda. Restrito e caro, nunca será para muitos, até mesmo pelas limitações logísticas e restrições de acesso impostas pelos órgãos ambientais do governo.

São 21 ilhas cercadas de mar em um micro-universo de cerca de 25 quilômetros quadrados. Na prática, porém, tudo se resume a ilha principal, que dá nome ao arquipélago; as demais são ilhotas pequenas.

Cachaça dos mergulhadores, o arquipélago possui uma vida marinha quase inverossímil: algumas braçadas com o snorkel na beira do mar e você já se sente num documentário do Discovery Channel. Peixe de tudo que é cor e tamanho e, pelo que se diz, tartarugas marinhas, arraias, golfinhos, recifes de de todo jeito, uma vegetação marinha singular e, eventualmente, tubarões inofensivos.

E não é só isso, a ilha é coberta por uma vegetação preservada, bem arborizada, e a vista das formações rochosas, esculpidas segundo a algazarra das erupções vulcânicas de milhões de anos atrás, apaziguam qualquer resquício de stress levado na bagagem. Violência? Nem se sabe o que é isso por lá. Malandro vai fugir para onde?

Em suma, um belo balneário que não conhece registros de homicídio, sem trânsito, sem buzinaço, sem carro com a mala aberta tocando funk e – a raça humana predadora finalmente deu uma dentro – sem cobras!

Mas isso não vem ao caso. O trabalho tomou praticamente toda a estada e o tempo que sobrou para descortinar a ilha como um vagante destemido que se preze foi escasso, espremido entre as horas e mais horas que as lentes e câmeras impuseram o foco da expedição: a captação das imagens. E , ao menos no que diz respeito à labuta, o velho Banderulho nos brindou em cheio, e com muita ousadia!

Noronha de portas abertas…

Imagine uma máquina de lavar roupa no pico da fase de centrifugação. Imagine agora também o barulho dentro de um negócio daquele com a tampa fechada…Ta ouvindo? Daí você se põe de frente àquele ventilador de Itu com uma ventania capaz de quase fazer do seu netbook uma pipa. Pronto, você está fazendo imagens aéreas de um Bandeirantes de porta aberta a 300 metros do nível do mar.

Nem vou aqui insistir muito em falar das curvas retorcidas, do avião sambando com o vento ou das sacudidas ininterruptas do valente voador, mas, confesso, qualquer desconforto é compensado pelas perspectivas únicas dos enquadramentos que te deixam a flor da pele – ao menos até você começar a sentir o almoço querendo subir esôfago acima…

Porque também não pense que tudo são flores, não… Ficar cerca de uma hora indo e voltando, subindo e descendo, num avião que se julga dublê de acrobata e não faz a menor cerimônia diante de uma curva fechada… Quando ela for daquelas afoitas, você, que já estava voando diante de uma porta aberta, será virado quase que de cara para o solo – por conseguinte para o vazio do espaço aéreo – sustentado somente pela alça de um cinto de segurança que acabou de lhe ser apresentado!

Gaiatices a parte, a verdade é que o que já é único do chão, ganha contornos relevantes de uma obra divina, quando do alto do céu num cair de tarde em Noronha. Por mais que tivesse de ficar atento a todo o momento, intermediando o contato da equipe com a tripulação para traçarmos as manobras de interesse sobre a ilha, era só distrair que vinha aquele silêncio particular em que o tempo entra em estado de suspensão.

Um silêncio que ouve tudo o que vê e ainda enxerga mais longe, porque entende que os contornos e as cores vão pular a cerca dos limites ordinários do dia-a-dia. E partir daí, meu caro, se já não há mais a surpresa da vista, há a catarse da alma, que se funde às lentes da máquina.

Exagero? Bem, ta certo que as palavras sempre gostam de puxar uma brasa para o seu lado, mas dá para imaginar que se trata, no mínimo, de uma experiência inusitada.

Assim, ao menos, foram os dois voos sobre Noronha de porta aberta. Cada qual em torno de uma hora, indo e voltando de todo jeito naqueles 25 quilômetros quadrados de arquipélago.

No primeiro, o céu estava da cor do mar e a ilha parecia ter se preparado para as fotos. No segundo, com o céu mais denso, as atrações foram os registros  das decolagens e dos pousos dos aviões sobre um plano de fundo insular e  selvagem.

E a verdade é que ainda que só estivesse no chão, essas “mirações” também embarcariam. Até porque esta ladainha toda de transcendência anímica é algo muito particular. Próprio de quem se deixa tomar pela atmosfera do lugar e pelos desígnios do momento – independentemente da perspectiva das lentes.

No ar, no chão ou dentro do mar, Noronha é assim. Um quadro desenhado por encomenda do ócio, onde não bastasse poder entrar, você ainda se banha em água quente. E nem precisa fazer muito esforço. A natureza já fez o dela há milhões de anos e se ninguém tiver nenhuma idéia extraordinária nos próximos milhões, talvez ela continue desse jeito. Deixa quieto! Não mexe que piora!

Daniel Marinho

 

O fim é o começo de tudo: rumo à Patagônia

 

 

Carta de Navegação - Terra do Fogo

 

Acabo de comprar passagens para o ‘Fim do Mundo’… Ou – como oportunamente completam os viajantes – o ‘Começo de Tudo’.

É que a assembléia extraordinária lá de casa reuniu-se na última semana para votar a favor de um reveillon na… Patagônia. Onze dias de expedição com escalas em Ushuaia, para nadar com os pinguins; El Calafate, para virar boneco de neve de geleira e – a cereja do bolo – Torres Del Paine – que se realmente for tudo isso que o Google Images diz que é… Fico por lá mesmo.

Para os neófitos, digo que a Patagônia não é só bloco de gelo boiando em meio a guanacos perdidos nos fiordes da Cordilheira do Andes. Há também as lhamas…

Escolhemos o verão, quando bate aquele calorzinho gostoso de nove graus Celsius ao meio-dia… Ou seja, se rolar um sol, ainda dá pra pegar uma praia…

Brincadeiras à parte, apesar de o pé das Américas ainda ser uma região pouco explorada, é destino acalentado por muita gente do mundo inteiro que aterrissa por lá todo ano. O que os leva até tão longe? Antes de tudo, paisagens, que não fossem os viajantes para assegurar sua veracidade, algum apressado acusaria de editadas pelo Photoshop, tamanho o ‘coeficiente de surrealidade’.

Claro, há também a curiosidade de chegar a um dos extremos continentais. Depois da “Terra do Fogo”, o extremo sul da Patagônia, só mesmo a Antártida, pouco mais de dois mil quilômetros dali. E convenhamos, não é todo dia que se vai a um lugar que tem por alcunha “O Fim do Mundo”.

E o destino vem a calhar financeiramente também. Como se não bastasse já há algum tempo tudo estar muito barato na Argentina, o dólar bateu a casa dos R$ 1,75 na última semana. Se somado a isso você adquirir o talento da arte da garimpagem de tarifas aéreas inadvertidamente baratas com antecedência – da qual me graduei recentemente – você ainda vai rindo, com a economia que fez ao desistir daquela festa, sempre igual, daquele hotel de gringo em alguma praia do Rio.

Las Patas

A Patagônia fica, digamos, no pé das Américas. Uma região que abrange o sul argentino e chileno, incluindo aí os chamados Andes Patagônios. É a porção de terra, como disse, mais austral do planeta antes das geleiras do Pólo Sul. Região mítica e simbólica da luta humana contra a força de uma natureza de extremos, onde além da temperatura e da dificuldade de locomoção em meio a um relevo montanhoso, sucederam-se ao longo dos tempos erupções de vulcões, que ainda estão ativos. Mesmo assim a Patagônia é hoje uma das Mecas do ecoturismo mundial, orgulhosa por seus habitats, flora, fauna e imagens que não se vêem em qualquer outro lugar.

 

Foto de Breno Fortes (National Geographic)

 

Lugar, aliás, para quem gosta de horizontes distantes, daqueles que dão férias à vista. Silêncio, céus de tons alaranjados, pores-de-sol no verão às 23 horas… Bem, isso é o que eu ando lendo por aí e o post da chegada dará, ou não, o corolário. Mas, numa região onde as estatísticas falam em 1,5 habitante por quilômetro quadrado, eu exijo, no mínimo, um céu estrelado à altura das minhas expectativas, que, aliás, costumam- e eu tenho de parar com isso – ser grandes.

O fato é que da natureza de paisagens lisérgicas que de lá se fez inquilina foram aparecendo com o tempo: primeiro os colonos, depois os viajantes, e, por fim, a atmosfera e estrutura que consolidaram a verdadeira vocação da região, o turismo. Pequenas cidadezinhas típicas de montanha com boa intraestrutura vivendo basicamente da atividade, recebendo mochileiros e viajantes de toda ordem.

O nome Patagônia é originado de mais uma daquelas observações insólitas que os europeus – entre a decapitação de um índio e outro – adoravam de fazer. O termo foi cunhado pelos homens da lendária expedição de Fernão de Magalhães que por lá passara em 1520 na então primeira viagem de (bota 80 dias nisso) volta ao mundo.

Era uma alusão aos indígenas que lá habitavam. Eles pareciam maiores do que realmente eram provavelmente por usar gorros altos e calçados de couro de guanaco (o calçado lhes exagerava o tamanho dos pés). Pata + gones = homens de patas grandes.

E o que é que isso tudo tem a ver com o meu café-com-leite? Você me pergunta. Não sei, mas é que estou empolgado com o assunto e tenho virado noites devorando literaturas sobre o tema – criança é assim mesmo. Tanto que andei descobrindo algumas preciosidades a respeito. A Patagônia tem história. Desconhecida mesmo, só dos brasileiros.

Veturas Del Sur

Bem, o fato é que após Magalhães descobrir o estreito de Magalhães (que na ocasião não se chamava assim, você supôs, eu espero), muita gente arrumou um meio de partir também para o fim do mundo. Não, necessariamente, movidas pelos mais nobres princípios. Piratas de todos os quadrantes passaram a bater ponto na então única passagem entre o Atlântico e o Pacífico – termo, aliás, também batizado por Magalhães, que mais uma vez mostrava ao mundo a sua mania e curiosa inaptidão para dar nome aos bois por onde quer que passasse: “el pacífico” como o chamou, é o mais instável, turbulento e perigoso dos nossos oceanos (o negócio do Magá era comandar esquadra).

Ainda no século XVI, os espanhóis tentaram por vezes fixarem-se no sul da região, na “Terra do Fogo”, dada à localidade estratégica do ‘entreposto’ dos oceanos. Em 1589 uma expedição gigantesca, liderada pelo capitão Sarmiento de Gamboa, partiu em direção à região com 23 Naus e mais de três mil homens, um disparate para a época.

Acontece que toda megalomania tem seu preço e das 23 Naus, 18 embarcações terminariam por banhar eternamente suas respectivas tripulações nas águas do Atlântico. As restantes, ao desembarcarem no destino programado por lá ficaram até a fundação de dois assentamentos, ambos na margem norte do estreito. Quatro naus regressaram à Espanha em seguida. A nau que sobrara, numa pequena viagem às proximidades, descobriria, tarde demais, que não poderia contar com a previsão do tempo patagônio dos ‘telejornais da época’.

Arrastada por uma das famosas tempestades da região, a nau foi levada a milhares de léguas de distância, aportando – é sério – no Rio de Janeiro. De lá, enviou alguns barcos às colônias do Sul; todos naufragaram. Atônito, o capitão Gamboa decide ir a Espanha em busca de ajuda. Mas, como todo castigo é pouco, a nau é atacada no meio do caminho por piratas ingleses, que insistem em, dias depois, fazer deles hóspedes compulsórios de uma prisão britânica, para nunca mais voltarem a estalar castanholas na Catalunha.

Mas e os colonos que lá ficaram? Bem, conta a história que em algum inverno do século XVI, quando tiveram de enfrentar algo em torno de 30 graus abaixo de zero (com vento!) depois de acabar os gatos, passaram a comer o couro dos bois, depois de acabar o couro dos bois, passaram a comer o das botas, depois… Bem, agora Inês é morta.

Mas, de fato, com o tempo os espanhóis conseguiriam ao menos colonizar o Norte patagônio, a região das estepes. Ao introduzir os rebanhos, porém, começaram a se incomodar com os índios que ‘ocupavam’ boa parte da terra impedindo o crescimento das estâncias – enfim, coisa de europeu… Práticos, contrataram ‘caçadores’ para dar uma solução à pendência. A recompensa dos rapazes era assegurada ao apresentar os pedaços de testículos e seios arrancados de suas vítimas – enfim, coisa de europeu.

Charles Darwin também veio sentir frio por lá. Integrante de uma expedição científica, foi praticamente o primeiro cientista a estudar a natureza selvagem da Patagônia, citada no livro Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo (1890) – o que não é lá grande coisa depois que descobri que até por Itaipuaçú o naturalista já passou…

Devo registrar também que Butch Cassidy e Sundance Kid – os fora-da-lei do oeste americano, cuja história já virou um filme interpretado por Paul Newman e Robert Redford – também deram as caras pela Pata. Apesar de não aparecer na película, historiadores – entre eles o escritor chileno de “Patagônia Express”, Luis Sepúlveda – afirmam que ambos não teriam morrido na Bolívia como reza a história oficial, mas sim no sul do Chile. Com nomes falsos, no início do século passado, depois de vaguear pela Patagônia, passaram a levar a vida como fazendeiros em Cholila, fazendo vez-e-outra um servicinho extra (provavelmente de assalto a banco). A história descrita por Sepúlveda, aliás, é a base do roteiro de um filme de Walter Salles, que o adaptará para as telas em breve.

Enfim, histórias e estórias não faltam à Patagônia. E também não faltarão, para escrevinhar amenidades de uma jornada ao pé das Américas. Anotar, registrar, narrar, passar as dicas e o que mais der na telha. Porque fim do mundo mesmo, nem existe. Seja no Ushuaia ou em alguma data pretensamente eleita por teóricos conspiradores depressivos de plantão. O fim, aliás, é distante, é o caminho…de uma vida inteira.


Daniel Marinho

O Fantasma do Theatro Municipal

(memórias ‘crônicas’ de uma ópera particular)

Um camisão xadrez de flanela grunge, a barbicha estilizada e o violão no case carregado à mão. Voltava do Villa Lobos, uma escola de música centenária do centro antigo do Rio.  O rumo era o metrô e, não sei por que ‘quimeras’, ao invés de abreviar o caminho descendo na carioca, como de costume, alonguei uma caminhada noturna até a Cinelândia.

Não que esses rompantes de decisão de meio de caminho sejam raros. Tudo é desculpa para a rua ser a regra e a casa, a exceção. Mas era só uma caminhada breve e estava convencido de descer na primeira escadaria do metrô, em frente ao Theatro Municipal do Rio.

No caminho, um homem mal vestido com pinta de malandro “com aparato de malandro oficial” me aborda. Faço que não ouvi e sigo em frente, mas ele insiste e parece não oferecer alguma ameaça séria. Queria me vender alguma coisa; tickets para uma ópera do Municipal. Era um cambista.

Não sou chegado a óperas.  Com todo o respeito, mas não gosto. Curto e me emociono com orquestras sinfônicas, música clássica e outras ditas “erudições” , mas alguns segundos ouvindo aquele vibrato em italiano e eu já tenho aflições.

O ingresso era 100 reais, mas ele – ‘bom rapaz’, veja só – não se importava em, nas palavras dele, ‘dar’ essa oportunidade única para mim por 60.

– Não! – respondi certo do que não queria.

Mais certo ainda do que dizia estava o meu interlocutor. Ele agora me lembrava que o evento começaria em cinco minutos e por isso ele não se importaria de fazer por 40…

– Afinal, você é músico, não é? – tentava me convencer ao notar o violão a tiracolo.

Naquela época dinheiro era para mim era uma espécie de ente mítico que insistia em brincar de pique-esconde com a minha carteira. Eu era capaz de ir e voltar do Maracanã à Usina a pé (uns cinco quilômetros) para assegurar que o joelho de queijo e presunto do dia seguinte seria acompanhado de um Guaravita. 40 reais ? Por uma ópera?

– Não!

Ele mudou então sua estratégia de abordagem: de malandro a chato mesmo. E começou a elucubrar as razões pelas quais eu não poderia deixar de aproveitar a oportunidade, segundo ele,” única em uma vida!”. Perguntei por que insistia tanto e ele não demorou na resposta:

– Trinta reais, agora!

– Não! – retruquei.

– Então por vinte – ele era chato.

– Também não!

– Quinzeee!!!!!!!

Ele não desistia… Eu estava decidido a ir para casa, já estava tarde, acordaria cedo, não tinha nem companhia…

– Eu faço por dez reais SÓ POR QUE É PRA VOCÊ – (maior cara dura, impossível!)

Hesitei por um instante… Afinal, haveria de ter algum motivo para aquilo tudo. Na pior das hipóteses, eu nunca tinha entrado no Municipal do Rio. E que mal teria…

Ainda assim, achava caro o custo/benefício pra minha carteira que ocasionalmente realizava experiências com o vácuo absoluto. Por outro lado, nesse andar da carruagem, já tinha notado que o balanço da barganha já estava afundando no meu pé de tanto pender para o meu lado. Acontece que também sei ser nojento:

– Cinco reais! Por cinco reais eu compro o seu ingresso! – afirmei com uma cara de pau ainda maior (a gente aprende rápido).

Deu para notar, mais do que alívio, uma baba esquisita saindo da boca do cambista que começara então a espumar. Não só por mim, mas também pelas outras dúzias de ingressos com as quais ele provavelmente morreria na mão. O que de certo ponto de vista não era um bom presságio para o espetáculo. De qualquer modo, o negócio foi fechado. Eu ia, enfim, a uma ópera no Municipal.

Assombrações Traviattas


Entreguei o ingresso à hostess da casa – lá não há bilheteira, há hostess – e foi o tempo de pisar sob o fresquíssimo foyer do imaculado Theatro centenário e já ser convidado a entrar. O espetáculo começaria imediatamente.

Vi o primeiro ato de uma daquelas poltronas do andar mais baixo (deve haver algum nome empolado em francês para este tipo de assento; não faço idéia). Logo ao abrir do pano, um senhor barbudo de meia idade entra no palco. Exageradamente maquiado ele começa a cantar – em minha opinião também exageradamente – em italiano. Os vibratos, claro, todos eles lá, bem alto. Não podia esperar outra coisa. Eram os meus piores pesadelos se concretizando.

Não demora muito e começo a me mexer na cadeira. Espero o intervalo – até porque não estava disposto a enfrentar a fúria enraivecida de um típico freqüentador de espetáculos eruditos capaz de chamar os seguranças no primeiro acesso de pigarro de qualquer espectador, imagina trocar de lugar – e subo ao segundo andar para, ao menos, buscar uma… nova perspectiva. Quem sabe?

Não resolve. O segundo ato começava e as coisas não melhoravam para mim. Puxei papo com o senhor ao lado, mas notei que a conversa de pé de ouvido não iria muito longe. Para me distrair vou ao banheiro.

No caminho, noto os detalhes arquitetônicos do interior da casa e tenho um insight repentino. Se o estupro é inevitável, vamos ao menos conhecer o Theatro Municipal!

Inside the actor´s studios

Parto rumo a todas as direções possíveis e em algumas dezenas de minutos não há mais um só canto da área aberta ao público que eu não conheça. A peregrinação é válida e descortina muitos dos pomposos mimos que o teatro réplica da Ópera de Paris oferece a um representante da plebe. Salões enormes, escadarias adornadamente desertas, ornamentos em ônix, pinturas a óleo, peças em bronze, castiçais, tenho a nítida impressão de esbarrar com fantasma de Pereira Passos. A brincadeira parece estar próxima do fim, mas no último andar há uma porta no meio do caminho e ela grita:

“Entrada expressamente proibida” .

Veja, não sou deseducado. Entendo quando não sou convidado. De modo que não continuaria diante uma entrada que é proibida. Mas “expressamente” proibida? Era demais! A curiosidade não agüentou! O grito a acordara de seus sonos mais profundos… Era girar a maçaneta e entrar, porque a porta, como costuma acontecer nessas ocasiões, estava aberta.

O segundo ato ainda corria, mas a partir daí o espetáculo não seria mais o dos tenores. A porta dava acesso a uma estrutura de metal já próxima ao teto, na parte posterior do teatro exatamente sobre o palco. Nessas horas, a velha máxima “penso, logo HESITO” faz toda a diferença. Como não ponderei muito a respeito, depois de um ligeiro esforço, consegui subir. Era, de fato, uma nova perspectiva: passava a ter de olhar para a direção de meus pés para ver os atores!

O mundo das coxias então se abriu em cada detalhe dos melhores planos possíveis lá de cima. E a sensação era curiosa, já que de meu ponto de vista eu podia observar a tudo sem ser observado. Era um vulto, uma sombra em meio à escuridão, esbarrando nas pinturas seculares que Eliseu Visconti pintara no teto há mais de um século atrás (agora que foi reformado posso dizer mesmo), quando também precisou subir até essa área só de alcance dos menos escrupulosos.

Ao caminhar pelas vigas horizontais, lembro que mal podia diferenciar meu pé das cabeças dos atores, e sabia que qualquer passo em falso me tornaria, em questão de segundos, parte do espetáculo de uma cena mórbida lá em baixo.

A noite finalmente começava a melhorar…

Lá de cima todos os takes possíveis dos bastidores estavam, em grande angular e tele, ao meu alcance. Os detalhes dos ornamentos nos figurinos, as camareiras que corriam de um lado para outro para vestir os atores, os refletores que se movimentavam ao meu lado para ambientar as cenas, as partes móveis do cenário a postos para dele fazer parte, contra-regras, maquiadores, produtores, atores, todos correndo de um lado para outro de modo a deixar tinindo o espetáculo para alguém que, supostamente, não deveria estar assistindo a tudo isso de onde eu estava.

Atravesso o palco por cima e, enfim, depois de algumas lições autodidatas de equilibrismo e em meio a algumas acrobacias eu consigo pular da estrutura de metal com vida – Dionísio sempre esteve do meu lado – e alcanço o edifício da administração do teatro.

Lá bemol

A cena então muda. Longos corredores com salas e escritórios ordinários como quaisquer outros. Não fosse um som gostoso de coxia e os vocalizes, poderia ser algum outro prédio antigo do centro do Rio, mas a súbita presença de moças seminuas mascaradas e com o corpo pintado correndo em minha direção põem em cheque a ideia. Garbosas, elas dão um sorriso e passam rumo ao camarim. Não era comigo. Estão com pressa e não para papo.

Desço também. O volume do som dos vocalizes aumenta significativamente, as moças já não estão mais lá e não há exatamente camarins. Estava mais para um complexo hoteleiro, um resort cênico voltado aos atores. Tudo grandiloqüente, a começar pela lanchonete, muito maior que o ‘bistrôzinho’ recém inaugurado no anexo do prédio aos mortais espectadores.

Passava, entretanto, a ser observado. Mas o case de violão na mão, aquela barbicha disciplinadamente mal feita e o camisão grunge somados a um ar blasé me confundiriam com qualquer um daquela casa. Na pior das hipóteses, era só fazer cara de amigo do diretor artístico.

O tempo começava a ficar escasso e sabia que a obra estava por terminar. Desci mais. No subsolo sou brindado pela grata surpresa de tropeçar no espaço reservado à orquestra logo abaixo do palco.

Nunca me esqueço daquele momento. Enquanto me deixavam, eu ia entrando e me vi completamente em meio à ‘instrumentália’ toda de um momento para o outro. O oboé era ainda mais suave. As cordas arqueadas dos violoncelos, a distorção acústica dos baixos, a estridência dos flautins… O que não arrepiava, assustava. Tudo era mais impressionante ainda dali de baixo e eu parecia estar imerso numa partitura mesmo – nenhum ingresso poderia pagar aquilo.

Poucos, mas eternos minutos. Tempo suficiente para ouvir um Grand Finale apoteótico ao lado dos rufares finais dos tambores e do furor propositalmente dissonante das notas de um sax soprano curiosamente envenenado.

If Nothing is ventured, nothing is earned

O espetáculo acabaria e eu continuaria ainda muito tempo por lá. Puxando assunto com os cenógrafos, preparadores vocais, camareiras, as moças mascaradas – agora compostas -, até os seguranças, transeuntes de qualquer ordem. Não queria mais ir embora. Bati papo com os músicos – cheguei até a experimentar um cello – minha cara de amigo de diretor era convincente. Em algum momento eles tiveram de ir embora e – como eu não tinha as chaves para trancar o Theatro na saída – fui obrigado a ir também.

Já se vão anos que isso aconteceu, mas eu nunca me esqueci dessa noite do Municipal. Ela cheira àquelas limonadas que ficam por aí por fazer a nossa espreita escondidas em meio às rotinas do dia-a-dia com seus parcos limõezinhos – ao menos para quem está disponível ao acaso. E não dá para marcar um encontro com o acaso; ele sempre pinta com aquele papo malandrão de “é pegar ou largar!”. Pior, às vezes se esconde atrás de uma porta sacana cuja entrada, sem algum motivo razoável, é expressamente proibida. Na mosca! É o buraco do coelho! Morpheus e a pílula vermelha!

E a ideia era ter pegado metrô, lembra? Se soubesse, pagaria os 100 reais rindo.

Daniel Marinho