A “renomização” das ruas caretas do Rio

Por Daniel Marinho

Silêncio no Tribunal, arreiem as calças do general! E as placas de esquina também porque não dá mais tanta rua com o nome do camarada… Dele e de aristocratas vencidos, políticos bicentenários de mérito duvidoso e latifundiários escravocratas do século XVIII.

Ainda mais num lugar alcunhado de… Rio de Janeiro. Que sacada de marketing involuntária a do destino. Deixar um descobridor português perdido, cinco séculos atrás, confundir nossa baía no ápice do verão carioca. Vai que a Nau se atrasasse! Já pensou nisso? Moraríamos no Rio de Agosto? Meio hibernal. Para uma cidade que se vende de praias tropicais…

É o que eu digo, o nome é essencial. Imagine – num passado não muito distante – um pesadelo no qual a família Sarney dominaria, para além do Maranhão, a politicalha da Guanabara. E a capital seria rebatizada de “José do Ribamar Sarney”. Daria bossa? “Minha alma canta… vejo José do Ribamar…” João Gilberto ficaria rimando “quén, quén” em Juazeiro mesmo e Jobim acabaria fazendo concurso para escriturário…

E o que dizer dos bairros cariocas? É som com sabor: “I-pa-ne-ma”; “Gu-a-ra-ti-ba”; “Ma-ra-ca-nã”; “Hu-ma-i-tá”; “Gra-ja-ú”… Temos de mastigar “a” quatro vezes para falar “Co-pa-ca-ba-na”. Mas e se homenageassem Honório Gurgel por ali mesmo, entre o Leme e Ipanema?  Seu Honório se sairia uma boa Princesinha do Mar?

Nome bom já é metade do resultado garantido; uma rua com o nome de Leopoldo Bulhões não vai vencer na vida! É por isso que proponho aqui uma reclassificação de nossos asfaltos, em favor da poesia a que faz jus essa cidade fluvial: o Riacho Leitoso (era uma baía) de Janeiro. Aliás, não só dele. Do ano inteiro.

A Avenida Delfim Moreira, por exemplo. Tanto lugar para homenagear Dr Delfim e vão escolher o metro quadrado mais caro do País… A praia do Leblon é da família do Dr? Então vamos ao brainstorming:  Avenida da Maré Mansa e Água Fresca,  Avenida Sombra de Coqueiro, Boulevard Ninfas du Biquíni, Travessa do Banho de Sol Travêsso?

A Rua Bulhões de Carvalho – inconteste campeã mundial dos trocadilhos infames! Por que insistir nesse auto-vexame? Parece masoquismo… Muda para Boulevard das Tulipas Provençais, Rua du Brie com Damasco, Travessa La Dolce Vida, Avenida Sauvignon Blanc, sei lá! Garanto que o metro quadrado valoriza!

Por que a Almirante Alexandrino, de Santa Teresa, não vira logo “Estrada da Good Trip”? Todo mundo acha que o povo de lá só anda chapado mesmo… Na praia dos surfistas, no Arpoador: Rua Aloha! As curvas longas da via do Aterro do Flamengo dariam origem, não a outra Linha cromática do Lacerda, mas a “Linha das Silhuetas do Burle” e a Viera Souto, em homenagem a “fumacinha” da rapaziada, Boulevard du Paz e Amor!

E essa coisa sem sentido de homenagear artista com o nome completo que ninguém conhece? O Cazuza ganhou a Escola Estadual Agenor de Miranda Araújo Neto. E aí eu pergunto: quantos ligam o nome à pessoa? Não é tão difícil assim vai: “Escola Pro Dia Nascer Feliz”, “Escola Um Trem para as Estrelas”, “Escola Todo Amor que Houver nessa Vida”. Se fosse rua, votava na “Rua do Sabor de Fruta Mordida” ou na Avenida do Exagerado – com os limites de velocidade da lei, claro.

E não é? Por que ao invés de Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, não descemos no Aeroporto do Samba do Avião? Pensa que é sacanagem? Aposto dinheiro que muito gringo estaria fazendo fila para tirar foto em frente à placa do aeroporto!

E quando o Caetano morrer? Será a Avenida Caetano Emanuel Vianna Teles…? Depois de tanta dica do cara: Estrada da Meia Lua Inteira; Rua Samba de Verão; Avenida Trem das Cores; Rua Sem Lenço e Sem Documento; Estrada das Outras Palavras?

Daí então, a Avenida Lucio Costa, na Praia da Barra,  viraria a “Avenida Bronzeada de Sol; a Av Mem de Sá – point dos fanfarrões da Lapa – Avenida da Gargalhada Gaiata e a Niemayer, Estrada Desfiladeiro do Paraíso.

Há também as ruas mais gustativas! Convenientes aos Pólos Gastronômicos – como o de Botafogo, por exemplo – onde agora o Plebeu, o Informal e o Ipiati seriam recortados pela “Travessa ao Molho Pesto”, “a Rua à Piamontése”, a “Via do Cupcake de Limão”, e – representando a alta gastronomia – a “Travessa Creme de la Creme”.

Parada de Lucas ganharia, enfim, a Avenida Pétalas da Primavera; os inferninhos de Copa, a Travessa Travêssa do Prazer Imediato. As avenidas Churchil e Presidente Roosvelt – que não nos dizem respeito em nada – dariam voz a Jackson do Pandeiro com o cruzamento da “Avenida Só ponho o beebop no meu samba” com a “Rua Quando o Tio Sam pegar no tamborim”. E a Tijuca honraria não um fazendeiro que ninguém viu mais gordo, o Barão de Mesquita, mas seu filho mais nobre – e gordo também -, o “Síndico”, para matar as saudades da praia distante na “Rua Azul da Cor do Mar”.

Ingenuidade? Melhor começar por ela mesmo…

Aplainando a longa a Estrada da Utopia.

Daniel Marinho
Crônica originalmente publicada no Curta Crônicas

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