Pagando 39 mil reais, a passagem é de graça…

Uma loja de móveis da moda acaba de anunciar uma campanha que chancelou de vez minha teoria a respeito da esquizofrenia universal que acomete essa nossa terra de Lordes. É assim: a cada 39 mil reais em compras você ganha (?) uma passagem para Nova York… “de graça”!

Antes de bater a cabeça na parede nove vezes de desgosto e perder de vez qualquer esperança na evolução da condição humana, fui obrigado a conjecturar o tamanho do fosso dos dissabores do pobre (rico?) consumidor brasileiro.

O anúncio em momento algum fala “ao alcançar 39 mil reais”. Deixava claro que a premiação ocorreria a cada R$ 39 mil reais em compras! Em outras palavras, somos levados a crer que a empresa pressupõe ou a esclerose do consumidor médio brasileiro ou a clonagem – para posterior replicação – dos moradores do Alto Leblon ao longo de todo território do País.

Eu sei, eu sei… Ela orienta-se a um consumidor classe A, gente com bala na agulha, etc. Mas então já começaram errando feio de público alvo; essa gincana de Luis XIV não devia nem ter devaneado em materializar-se na tela da TV lá de casa.

E ainda que alguém tenha por hobby queimar meia-dúzia de cotas de 40 mil reais em móveis numa tarde ensolarada de domingo, depois daquela partidinha de Gamão Escocês num tabuleiro de mármore carrara, não me venha com essa conversa de passagem aérea de graça para Nova York!

Se o sujeito largar agora o Gamão com a “criadagem”, desistir do conjuntinho de sofá de pele de orangotangos de Madagascar da Todeschini e for à Internet, ele vai descobrir que pode, com esses mesmos 39 mil reais, (pela tarifa da Copa Airlines do início de março, por exemplo) cruzar o continente americano de Norte a Sul exatas 65 vezes!

Eu disse 65 vezes!  Seria demais explicar que dentro dos 39 mil em móveis esse brinde já estaria embutido tantas, tantas vezes, que com ele já daria pra amortizar o financiamento da viagem de quinze anos de sua futura bisneta à Lua!

Exageros à parte, o consumidor brasileiro mais abastado é manjadíssimo por comerciantes do mundo inteiro como o pato da patota. Presa fácil; adora pagar mais caro por uma grife. E pior, ainda tira onda disso! Ainda bem que por aqui no País ninguém passa necessidade.

Outro dia numa jornada ao Fashion Mall (toda ida a esse shopping de gente “diferenciada” é um estudo antropológico e divertido do comportamento da espécie, trabalho de campo, entende?) me peguei confabulando com a minha mulher se um camisa-jaqueta diferenciada (a venda por cinco mil reais!) devia ou não ser declarada no Imposto de Renda… Lá, a propósito, também tinha relógio de 40 mil reais. Será que também “davam” uma passagenzinha pra os States de graça?

Curioso é que quando chegar a Nova York, o sujeito ‘premiado’ vai acabar irremediavelmente comparando os preços que pagou na Todeschini com as tradicionais barbadas das congêneres norte-americanas… Lojas, aliás, de grifes mais esnobes e famosas. Vai espumar de ódio! Aí ele é que vai bater com a cara parede! E olha que parede de mármore carrara dói pra cacete!!!

Daniel Marinho

Vocabularite: ‘tioria’ e diagnóstico


“Vamos combinar” que “menas” coisas “estão sendo” mais irritantes do que essas expressõezinhas “mal colocadas” por essa gente “sinixxtra” que tem por aí. “Fala sério!” “Ninguém merece, nem!”

“Na real”, “a nível de uma releitura lingüística”,  “a nível de reengenharia bate-papal”, “a nível de racionalização de processos” com o intuito de – vai entender – fazer-se mais interessante a outrem, essa “vocabularite de acadimia” não “vai estar agregando” valor nenhum a nossa afamada cultura de massa de padaria, cujos proprietários são – “mais do que nunca” – exemplos de “grande-figura-humana”, como costuma afirmar um famoso apresentador de programa de auditório dominical.

(SIC ad eternum)

Menos, gente! Seje o que for, nem, ao menos em tioria, o que mais me irrita pra mi mesmo, o que mais agrega perca, é que tem muita gente supostamente instruída dando eco para tanta colocação.

S-u-r-r-e-aaaal… Tipo assim, é gente que já passou da puberdade há m-i-l-êêê-n-i-o-s (!?). Não, cara…nem!

Então…eu, a nível de grande figura humana, não quero combinar nada com ninguém. Ninguém merece! Não quero fazer colocação nenhuma, nem estar compactuando com essas tiorias!! Assim você me mata, véio!!!!

Pronto, falei! Fala séééééério!!!!!!!!!!!

Segue, enfim, mais desabafos de “colocações” do lado-negro-da-força que perderam-se no tempo:

Fulano é “da pá virada”: atualíssima, para os pais do Niemayer.
Balada: Uma caixa cheia de halls?
Supimpa: Argh!
“No seio de”: Pornografia? Expressãozinha típica de “adevogado”.
Destarte: Ídem ! Só para maiores de 18 ou menores acompanhados.
Internauta: só o Silvio Santos ainda fala assim.
Blogosfera: outra megalomania… Não tem nada mais lugar comum do que Internet.
Minha paquera: tem cheiro de romance do século XIX.
Bráulio: já não tem mais graça.
“Vou chapar!” – não, não vai. Quem fala assim é mais careta que o Bolsonaro.
“Meu possante” – atestado de playboy.
“Procuro parceiros estratégicos para…”: sem comentários!
“Sem comentários”: falta de vocabulário!
Garçom, “la dolorosa!”: batido
“adoooooooro”: deteeeeeesto
“Vamus-nélsom”: put a keep are you!
“Afogar o ganso”: do tempo da “pá virada” ·
“Da pá virada”: do tempo de “manda brasa”
“Manda brasa”: em que ano nós estamos, mesmo?´
E a pior de todas… Inconteste expressão rainha da propagação de toda a dor e sofrimento do mundo; evocado pelas expressões-piadas-des-graça-damente-sem-graça:

“É pavê ou pá comer?” Afff!!!

E aí? Alguém conhece mais alguma vocabularite?

Daniel Marinho