A Mureta da Urca

As últimas luzes do dia refletem o vidro alaranjado da garrafa de Brahma colada a minha empadinha de camarão. Não estou aqui. Estou em outro mundo. Um mundo com cheiro de brisa de fim de tarde, cheiro de barco de pescador, som de beira de estrada de terra úmida… no Rio de Janeiro.

Quem senta à mureta da Urca é involuntariamente evocado à condição de personagem de um quadro impressionista, ainda que com um leve tiritar de buzina no plano de fundo. Plano de fundo, de frente, de lado, geral; enquadrado pela película de um entreposto sensorial urbano, o SPA da alma carioca.

Me distraio com os peixes, jogando pedrinhas na água. Não os incomodo, eu acho; eles continuam saltitando em cada pedrinha que afunda! Na Urca, os peixes dão bom dia.

Sou, então, um peixe dentro d água. Diluído. Universalmente solvido ante os destemperos de uma metrópole que me encara. Mas faço que não noto…

Enquanto a marola batuca na pedra, a queda das folhas no calçadão faz… barulho. Barulho que ressoa ainda mais o silêncio. Silêncio de som de vento que despenteia de leve o cabelo: quem ouve de lá, se ouve ao longe. E haja Iris para dilatar tanta molecagem do horizonte, que se alarga em cor de floresta, despejando-se como espelho nas águas da baía. Baía, licença nossa, do Rio. Mês qualquer que seja.

Desconfiada, a cidade tosse. Quer atenção. É Sacana… apela para as minhas inseguranças mais recônditas: quer apressar o dispensável, solucionar o insolúvel, enfim, toda sorte de mirabolices para encasquetar o meu “café-com-leite”.

A cidade não para! E é até jeitosa (é o Rio), mas, é cidade, tem lá as suas olheiras que não dá para disfarçar. Eu reconheço o buzinaço de longe. Foi uma freada brusca do 409 na Voluntários. O motorista, irritado com as obras do cabeamento da provedora de internet, ficou puto com o infeliz que carregava galões de água na garupa alargada da bicicleta, ocupando mais de meia-pista!

Nada contra Botafogo. Adoro os meus 1.554 cinemas, 1.615 botecos, centros culturais, cafés wi-fi, nightclubs moderninhos-cults e aquelas padarias centenárias do Machado de Assis. Ainda tem o metrô: antídoto universal para os que sofrem de L.E.R. por troca de marcha. Mas ainda que haja Sorocabas, Palmeiras ou a Paulo Barreto, Botafogo não difere da Passagem de qualquer Copa. Botafogo é cidade. Apita sinal de guarda, fala alto, queima carbono.

A Urca só queima quimeras. Quimeras do que um dia já foi… E de tanto ir até se perdeu. Num tempo e dimensão únicos. Um engano à tagarelice dominante, um elo encontrado – ao menos para quem se deixa achar.

Sou o penetra da Urca. Nunca morei lá. E como a rapadura não é mole, também não fico alimentando fantasias de acordar amanhã – sob o Pão de Açúcar – abrindo uma daquelas janelas de casa de campo, ao lado de um Ipê Amarelo com casinha de João de Barros.

Ainda assim, aquele pedaço de terra é deveras o quintal da minha casa. Foi lá sempre que “matei as aulas”. Nunca paguei aluguel, condomínio ou taxa àquela associaçãozinha de moradores elitista, mas sou Urcaense de direito! Usucapião mesmo!

E a cidade, então, se engasga. Desiste de me tentar. É inútil. Vence a tudo, mas não à mureta da Urca. Mais ainda depois da despedida das gaivotas. “Revoaram-se” num voo em V rumo ao poente do oeste. De manhã fora o contrário. Vieram para o “mercado de peixes” da Guanabara.

Uma canoa, ao longe, rema meus olhos a um tom abóbora que esquenta o céu. Iça velas e se esconde no horizonte.

O Cristo me olha ao lado do pôr-do-sol.  Não há uma imperfeição no mundo.

Daniel Marinho