Renúncia

Difícil é estar triste e não saber por que.
O inexplicável vazio, a angústia, a culpa cristã.
O vácuo calafrio, em meio à fartura,
acordar vira tortura no café da manhã.

Ao leite e ao pão, as dúvidas, as estórias infundadas.
A faca esfola a manteiga e desvale-se ferida.
Numa reflexão desesperada à procura de uma saída

Difícil é não acordar tão feliz quando é tudo o que quero.
Ainda que quando tudo a mim nada falta.
Engolir minhas culpas, meus arrependimentos,
sem se sentir culpado

Saber do pouco que falta para as cores em luzes de ribalta
e para o cheiro da brisa úmida, que me curam a miopia,
já cega, doente e abarrotada de complexas teorias.

E então, o meu desencantamento se perde,
some silencioso na madrugada
e solenemente indefeso.

A longa amargura, o vazio,  o crepúsculo de outrora
É agora doçura. É aurora.

É o alaranjado no horizonte, que já sobe e reina sobre a quaresmeira,
que sem fuga e já crescida e sem seu consentimento,
despe-se e veste-se florida sem precisar entender a si mesmo.
Só ouve e intui a voz intermitente da flora.

São os segredos mudos que nos despertam
do desasossego. Quando há a fuga de tudo que é agora.

Abandonar o carro no meio da corrida.
O maior controle é a renúncia.
Para aceitar o convite de namoro com a vida.

 

Daniel Marinho

Still blowing in the wind

D

O Sopro

Máscaras escondem os rostos
e o que se tem a mostrar.
Podam monstros
pra sempre voltar
ao mesmo lugar.

Meus monstros querem se libertar.
Perguntam a mim o que sabe
quem
vê em tudo vulgaridade,
quem
nunca sai do mesmo lugar.

Mas monstros não têm etiqueta.
Querem viver agora.
Nunca gostaram da escola.
Riem fora de hora.
Não sabem se comportar.

O resultado, eu receio.
Por que não são os fins
são os meios.
Pra Nietzsche, Deus
tem que saber dançar.

Apanha os meus campos de centeios.
Em Bob Dylan eu creio.
Me ensinou que é o vento
quem sopra as respostas no ar.

 

Daniel Marinho