Manual para cruzar geleiras na Patagônia

Por Daniel Marinho

*Originalmente publicado no site O Viajante

Já passava das 18h quando os motores da embarcação foram acionados. Numa latitude do planeta em que o sol, nessa época, só vai para cama pouco antes da meia-noite, os passageiros ainda empapuçavam o rosto de protetor solar, precavidos da “insolação noturna”. Não era um barco comum. Para adentrar o Brazo Rico do Lago Argentino – que margeia a face sul do Glaciar Perito Moreno – a embarcação há de cortar, vez por outra, pedaços de gelo desgarrados das pedras maiores que então, boiando, nos observavam de mais longe. Um cenário por si só inusitado; o mais próximo do que pude imaginar de algum “passeio” de Amyr Klink. Curioso, pergunto sobre temperatura da água: “dos grados Celsius… Lo suficiente como para morir de hipotermia en cuestión de minutos” afirmava o Comandante, antes de meu arrependimento.

A imponência daquela monstruosidade branca surpreendia. Subia a 70m acima da água, margeando-a por 5km e adentrava Cordilheira dos Andes afora. Invariavelmente, despedaçava-se nas beiradas, em estrondos graves e cinematográficos; em constante movimento, o penhasco avança e retrocede, há muito tempo, conforme as vaidades da estação do ano.

Do desembarque no píer, uma fila indiana seguiu pelos últimos resquícios da terra árida dos arredores de El Calafate, cidade-base da expedição. Gorros, óculos, ceroulas, casacos, cachecol, impermeáveis, luvas… faltava o mais indispensável: “los crampones”. Uma estrutura forte de ferro grudada à sola do sapato com extremidades pontiagudas afiadas para baixo e para frente para a aderência dos pés ao gelo. Em geleira, anda-se de “ferradura”. Sem elas, é patinação na certa.

Aos poucos, as passadas deixavam de arranhar a terra que agora se escondia sob um manto poroso. De pedra em pedra, floco em floco, começa clarear tudo por completo. Os pés afundavam cada vez mais, exigindo mais do corpo para lançar-se a um deserto branco, infinito até onde a vista alcança. Aquele gigante precipício branco avistado do barco, aquele despenhadeiro inóspito de gelo jazia, enfim, sob os pés.

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Andar já não seria como antes. Crocante, o chão falava a cada pegada numa conexão intensa com uma terra que já não mais existia e dava vez ao estado mais bruto da água. Sólida, ela é que leva adiante, empurrando as travas dos crampones, me balançando como um pinguim. Como o destino não se revelava, em meio à amplidão nívea do jardim de esculturas de gelo, sem referências espaciais evidentes, restava confiar na fila indiana. A fila de babel, onde os mais diferentes idiomas se compreendiam, já que encanto – e o espanto – são linguagens universais.

Subindo e descendo as colinas de gelo por mais de uma hora, o olhar ia sendo treinado a enxergar o que até então fora menos óbvio. O derretimento dos picos em pequenas duchas de verão, os poços de água límpida brotando do fundo da Terra, as fendas que sob o reflexo da luz revelavam-se em um azul anil da cor do céu daquele dia, agora espelhado na sensação de caminhar sobre cristais no mundo de Guliver. Uma experiência ficcional, não fosse o frio do gelo que desperta mais do que qualquer beliscão.

No desfecho, um convite. Em uma mesa improvisada sobre a geleira com vista para o lago, alfajores de dulce de leche alternavam-se com doses de whisky numa festa poliglota. Caubói? Que nada! Whisky resfriado por pedrinhas de gelo, claro, catadas do chão. Era a redenção derradeira daquela noite ensolarada. Sem compromisso algum com a sensatez, havíamos acabado de conquistar a Era do Gelo.

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Aviso aos Navegantes
COMO CHEGAR

O Glaciar Perito Moreno é apenas mais uma das 356 geleiras do Parque Nacional Los Glaciares, na Patagônia Argentina. Dado o fácil acesso – e sua beleza também, claro – terminou por sagrar-se como o glaciar mais famoso da região. Fica a 78 km da cidade de El Calafate, que dispõe de aeroporto e rodoviária.

Há voos diários de Buenos Aires – pouco mais de três horas de percurso – que custam, em média, US$ 350 (tarifa cheia normal, sem promoção). Um bilhete de múltiplos destinos, no entanto, que conjugue a partida de uma cidade brasileira a desembarques em Buenos Aires, El Calafate – e quem sabe outra cidade da Patagônia – sairá, sem dúvida, um custo-benefício muito melhor e, todos os trechos, mais em conta.

Para chegar ao glaciar a partir de El Calafate é preciso pegar a estrada. É distante, cerca de uma hora e meia, mas o trajeto, entre as áreas desérticas e as margens do Lago Argentino é belíssimo e apaziguador, muito incomum às paisagens brasileiras. Pode-se chegar ao parque de carro, taxi ou por meio de ônibus dos tours organizados pelas agências de El Calafate.

QUANDO IR

Faz frio durante o ano inteiro, mas no inverno o negócio realmente complica e não fica muito amistoso para um brasileiro. De novembro a março é a época ideal, não só pela temperatura, mas, sobretudo pelas longas horas de sol do dia. Nessa época do ano a temperatura à noite em El Calafate, fica, em média, de 0 a 10 graus e ao longo do dia pode chegar a picos de até 28 graus graças à aridez da região.

ONDE FICAR

Ao longo da estrada RP 11, que liga o parque à cidade, há alguns campings e dentro do parque, um único hotel. A grande maioria dos viajantes, porém, prefere ficar na própria El Calafate, já que as idas ao parque terminam por tomar quase o dia todo. El Calafate é, aliás, uma vila minúscula, mas um tanto charmosa. Com restaurantes, creperias, pequenos museus, cafés e um pub/livraria bacaninha. Há até um pequeno cassino na cidade, na rua principal, onde, aliás, concentram-se quase todas atrações. Ou seja, apesar de turística, a cidade é uma atração à parte que oferece lá seus encantos.

QUANTO CUSTA

Os tours de aventura em cidades como El Calafate e outras da região da Patagônia são caros e raríssimos desavisados, ou muito experientes, encaram um glaciar sozinho. Não é como uma trilha na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. O trekking guiado no Glaciar Perito Moreno é atualmente monopolizado pela agência Hielo e Aventura que faz dois tours diferentes: o menor, de duas horas de caminhada sobre o gelo (Minitrekking – 800 pesos, com o traslado) e o maior, de uma caminhada de três horas e meia (Big Ice – 1200 pesos com o traslado).

É caro, mas quanto se gasta numa viagem aos Estados Unidos ou Europa? Quanto se gasta para hospedar-se numa pousada num balneário brasileiro em alta temporada? Desconhecida de muitos brasileiros, a Patagônia reúne paisagens que não deixam nada a dever aos Alpes ou às montanhas do Canadá (e fica aqui do lado). Além do que, los pesitos doem bem menos no bolso do que dólar, euro ou libra esterlina!

O Som do Atacama

Por Daniel Marinho
Não se vê arvores daqui de cima, nenhuma. Há um vácuo cor de rocha de entardecer, entrecortado pelas escarpas afiadas das montanhas da Cordilheira. Com os cumes descoloridos pelo branco esparramado de neve,  faz vigília a mais uma travessia do LA152 da LAN rumo a San Pedro do Atacama, “hub” das expedições ao deserto mais seco do mundo.

O paredão andino alcança, em alguns casos, quase sete mil metros de pedra e água congelada; altitude muito próxima do meu capuchino, que acima do colo, sobre a mesinha afixada à poltrona do passageiro inquieto da frente, não precisava estar fervendo, já que agora saltita com mais vigor, por galhofa da turbulência típica do Cruce del Andes.

O comandante tira o motor e cala a turbina, aumentando, na proporção inversa, a apreensão de quem não gosta de lembrar os efeitos da gravidade nessa altitude. Pede para atar os cintos e a tripulação some correndo com o carrinho sortido de amendoins, que levado às cortinas do fim do corredor, não distrairá mais o nervosismo dos passageiros .

É quando, da janelinha, os picos que predominavam dão vez a uma profusão de minúsculos lagos trançados por corredeiras. Inquilinos do Planalto Atacamenho, imagina-se, devem resultar de algum degelo, já que chuva por aqui…

Na terra árida do Atacama não há traços retos. Há uma sucessão de fendas anônimas, rasgadas involuntariamente pelo tempo. Por vezes, colorem o deserto com tons que só a luz do sol enxerga ou, quando um olhar mais atento denuncia, revelam-se nas variações do ocre da terra seca de vegetação rasteira, aclarado por estrelas de todas as ordens de grandeza e pela raspagem do vento que já as entalha há algum tempo. Desabitadas, tem por vocação, hoje, a de passarela de Airbus.

O que chama atenção, porém, é o vazio. O silencio. O não preenchido. O fruto do intervalo no espaço. O parênteses do tempo. A aerodinâmica perfeita para a credibilidade do movimento. Uma ode do espaço à inércia.

Em nosso cotidiano urbano, que nos ocupa permanentemente de compromissos, horários, tarefas, informações de toda ordem, nada contrapõem melhor o caótico do que a vastidão inócua e surpreendente da imensidão lunar do deserto mais seco do mundo. Vazio que lava alma, descansa a vista e descasca – polo a polo – a ansiedade, revelando o excesso de desenecessidades acumuladas.

Tal como um papel pedra – daqueles que colávamos no isopor para os trabalhos de grupo da escola – as montanhas do deserto estão rabiscadas a esmo, segundo uma fundamentação libertária e infantil. Um tipo de estrada cujo fim não chega e que quando termina, até onde a vista alcança, não chega a nenhum lugar. Longas, afinam-se cada vez mais, até, por fim, desfocarem-se, espetando a bunda do horizonte.

Considerado o mais próximo do que se pode entender da Lua, o Atacama é a Terra em sua condição mais arcaica, mais ingênua, simples e essencial.

É o mesmo planeta. Despossuído de tudo que hoje o possui.

Aqui, a Terra está Nua. O resto é silêncio.

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27 de Dezembro de 2012
Atacama, Chile

Daniel Marinho

Istambul: quando Ocidente e Oriente se esbarram no caminho

Por Daniel Marinho

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Já passava das sete da noite e o sol ainda queimava a pele. O verão turco é tão insensível quanto o carioca, mas como é muito seco, não há nossas típicas tempestades tropicais. Pelo contrário, o sol vara o dia seccionando um céu árido azul, sem topar com nuvem pelo caminho. E é o primeiro a chegar e o último a sair.

O restaurante no terraço panorâmico de um hotel qualquer de Sultanahmet – região mais antiga da cidade, erguida à época em que Istambul ainda atendia por Constantinopla  – estava vazio. Vazio, acolhia a maresia do Mediterrâneo, agora espremida nos 32 quilômetros do Estreito de Bósforo; bem ali, diante dos olhos, escorando a Europa e a Ásia, cada qual em um lado da margem.

Ao anoitecer, sobras de vento a tocarão ao Mar Negro, estação terminal. Dela e de um sem número de embarcações que mais de mil anos atrás já faziam idêntico percurso para do Mediterrâneo chegar a região do Cáucaso (e, por extensão, aos  chineses, mongóis, etc )  e vice-versa.

Não é pouca a importância estratégica e histórica desse lugar, inclusive para nós brasileiros. Foi às margens do Bósforo que em 29 de maio de 1453, a Terra assistiu a tomada da então capital do Império Romano do Oriente pelos turco-otomanos. A Queda de Constantinopla derrubava a ultima porta dos mercadores europeus ao Oriente e, junto a ela, a Idade Média. Com  Mediterrâneo Oriental dominado pelo Islã – inclusive as cercanias terrestres -, os europeus teriam de buscar rotas marítimas alternativas para alcançar às especiarias indianas. De plana, a Terra passaria a redonda e o resto é história.

História, aliás, em Istambul, é comódite. Em alta, permanentemente. Ainda que enamorado pelo Turkish Ravióli à mesa – uma massa recheada de carne de carneiro, banhada em Yogurt e muita pimenta anatoliana – é a indiferença dos restos da Muralha de Constantinopla que me tomam a atenção. Construída ao longo dos séculos IV e V, blocos pesados de calcário moldaram uma parede interna de estrutura sólida de 5 metros de espessura e 12 de altura que abraçaram a cidade por inteira , em círculo, por mais de mil anos. Em grande parte, devo a essa fortaleza de pedra a composição que daqui de cima se espalha entre kebabs, rakis e doces de pistache.

A Hagia Sophia com sua cúpula gigantesca, epítome da arquitetura bizantina. Erguida por Justiniano em 537, fora a maior catedral cristã do mundo ao longo do Primeiro Milênio. Convertida em mesquita pelo sultanato no século XV é hoje é um ‘templo-sincrético’, cujas paredes internas ostentam antigas pinturas de Maomé, ao lado de imagens de Jesus Cristo, descascadas pela tolerância religiosa do tempo e pela maturidade dos povos.

A vista dos seis minaretes da Mesquita Azul que resistiram incólumes a terremotos, ao fervor da pólvora, ao calor do fogo e à fúria dos canhões desde sua construção, por ordem do Sultão Ahmet I, até hoje.

O megalomaníaco Palácio Topkapi, que se esparrama em ostentação na colina à frente. É lá que, até poucos séculos atrás, o Sultão Otomano levava a vida dura que lhe deu fama, com centenas de concubinas particulares. “Inquilinas” de um harém que até hoje ergue-se orgulhoso de pé, aberto aos visitantes. Naturalmente, sem as moças de outrora.

Com goles de um vinho da capadócia e o fumo de pêssego adocicado de um narquilhe turco, essa urbes arqueológica fica ainda mais inusitada; desajuizada pelo despertar sensorial e perspectivas induzidas pelo álcool, que aqui, ao contrário de outros países muçulmanos, é hábito liberado e faustosamente praticado.

Fundada a há exatos 2.679 anos, Istambul também já foi Bizâncio e já foi  Nova Roma. Istambul já foi persa, já foi otomana. Já foi pagã, já foi cristã, já foi muçulmana. Já foi já foi grega e já foi romana.

Hoje é turca. E laica. 13 milhões de habitantes na única cidade do mundo com os pés em dois continentes. Na prática, o verdadeiro Meridiano de Greenwich. A interseção, e fronteira, de dois mundos diversos – politicamente, socialmente e filosoficamente; nos modos de ver, entender, crer e assimilar a vida: o Ocidente e o Oriente.

Mas já é noite. Um grupo de mulheres de burca negra caminha em direção ao hotel. Certamente são turistas provenientes de algum país islâmico mais linha dura.  Um vozerio soturno árabe começa a espalhar-se  por toda a cidade. Ressoa em cada beco. Sinto um misto de estranheza e medo. Com o ouvido já ‘educado’ pelos telejornais, associo inconscientemente a algum noticiário tenso do Oriente Médio. As vozes, porém, saem dos auto-falantes distribuídos por Sultanahmet para  chamar os muçulmanos à oração. Nada mais. É a quinta e última reza do dia.

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Do outro lado de meu preconceito ocidental, luzes ofuscam os modernos arranha-céus de uma cidade já muito bem iluminada. Turcas de vestidinho colorido, produzidas para a night, uma das mais agitadas entre as metrópoles europeias, sacam dinheiro num caixa eletrônico no meio da rua. Não há policiais a essa hora, mas todos na fila estão a vontade, inclusive duas senhoras de idade. Há uma turma de estudantes de cerveja na mão. Um deles, de bermuda estampada e sandália havaiana, brinca com as crianças ao lado de um mostruário dourado de badulaques da região.

Istambul não é Ocidente nem Oriente. É um entreposto singular e histórico da diversidade dos povos.  Um lugar no meio do caminho.

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site Curta Crônicas

Londres: os ingleses em 8 lições

Por Daniel Marinho

Lesson 1 – Como falar como eles
 
Antes de qualquer coisa, ajeite a postura. Erga o nariz de Duke de alguma coisa “SHIRE”, dê uma franzida de testa, fazendo aquele tipo “espião-misterioso-do-fog-londrino-da-madrugada”.
Inspire o fog. Prenda o fog. Não solte o fog!
Simule um ovo mal cozido dentro da boca e vibrando o ar entre o palato central e a epiglote Real, repita:  Peter Piper picked a peck of pickled peppers. Did Peter Piper pick a peck of pickled peppers? If Peter Piper picked a peck of pickled peppers, where the fuck the peck of pickled peppers Peter Piper picked?  Fuck, Peter!!
So what? Sentiu-se do tamanho da Abadia de Westminister? Já pode soltar o fog.
Lesson 2 – Como entender o que eles dizem
 
Os ingleses não sabem falar inglês. Aquele que se aprende no Brasil, não! Você se esforça, escuta com atenção, faz força para não rir, quando percebe, está quase pedindo para conversarem… em inglês! Mas segura a onda; assim é briga na certa e os ingleses são sempre mais altos que você!
Por outro lado, seu ‘american accent’ – com o qual nós brasileiros estamos acostumados – não ajuda. Corre-se risco ainda mais vexaminoso: ser tomado por um latino querendo tirar onda de americano, o que, na Inglaterra, atende por crime de lesa-pátria. Em síntese, não dá para voltar para o cursinho de inglês e estudar tudo de novo… Finja que parecem normal. Pensa assim, se o problema é sotaque, imagine que poderia ser pior… Lembre-se dos escoceses!
Lesson 3 – God save the Pounds!
 
Ainda assim, uma vez em Londres, você não vai querer mais ir embora dessas brumas esterlinas. Você, enfim, chegou à capital do rock, das lendas medievais, dos romances de espionagem,  mitos, Avalon, Távola Redonda,  Rei Arthur, Sherlock Holmes… e das Spice Girls.
Diante disso tudo, as excentricidades britânicas só tornarão sua experiência ainda mais estimulante. As vezes em que você é quase atropelado por olhar para o lado errado na mão inglesa, os picos de pressão ao converter a Libra para o Real, a cerveja estupidamente quente, aquele sistema métrico bacana (pés, milhas, jardas, ounces, lembra?) e a degustação da alta gastronomia inglesa, que tem como iguaria expoente o “Kidney Pie”; em português: Torta de Rim. Servido?
Lesson 4 – I Beg your Pardon!
 
Com o tempo você também acaba assimilando alguns hábitos Reais e incorporando comportamentos insuspeitos. Começa a desenvolver um senso de humor esquisito, a fazer ironia em missa de velório, a se preocupar em pedir desculpas até para a calçada por pisar nela, a fazer piada que só metade dos seus amigos entende – como este texto! -, e se pega dizendo “I beg your pardon, madam!” antes de dirigir a palavra a uma criança. Normal.
Lesson 5 – Há ingleses em Londres?
 
Como também é do conhecimento de todos, os ingleses, além de não falarem inglês, também não estão em Londres. A capital da Inglaterra –  do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte – é, na verdade,  terra nativa de indianos, paquistaneses, turcos, árabes, sul-africanos, tailandeses e de alguns americanos redimidos. Dependendo do bairro, você até encontra um ou outro irlandês. Inglês mesmo, só no campeonato de Cricket da TV.
Lesson 6 – O Umbigo Britânico
 
O inglês que se preza é orgulhoso de suas raízes e um tanto quanto centrado em si mesmo (é como um americano, só que mais magro). Não é a toa que, com a modéstia que lhe é peculiar, decidiu, certa vez, – em nome do planeta inteiro – que o dia deveria começar… por ali mesmo. Num meridiano que estava de bobeira, fumando o haxixe colonial em Greenwich.
Lesson 7 – A coerência Britânica
 
O inglês que se preza suspeita de tudo que vem de fora e só valoriza as genialidades produzidas pela prodigiosidade anímica britânica. O que é curioso já que, quando Libra sobra, ele só compra carro alemão, só vai a Pub Irlandês, só toma cerveja belga e kebab turco com Cury indiano. Chocolate inglês? (argh!) Só se for suíço! Para comer assistindo as minisséries americanas na TV. Chinesa, claro!
Lesson 8 – Enfim, a Educação Real
 
O inglês que se preza não confere o troco quando compra (não é de bom tom); não barganha preço de nada (For god sake!); é incapaz de criar um escândalo verbalmente (só nos tablóides); não reclama de serviço mal prestado com o gerente (vai direto ao Juiz, gesto mais britânico) e não discute com outrem em público (that´s repugnant!) – a não ser dentro do Pub, onde todas as alternativas acima estão erradas.
Enfim, ingleses são tão ingleses, que só não são mais ingleses por educação!
Apologize!

 

Daniel Marinho
Originalmente publicado no site CurtaCrônicas.com

Guia Flâneur de Paris

Por Daniel Marinho

(Originalmente publicado no Site Curta Crônicas)

Cambaleando, acordo rogando pelo banho depois de uma noite de desavenças com o relógio biológico. O sono, graças aos caprichos do novo fuso, fora encomendado cinco horas mais cedo que o de costume. Esperou deitado, claro… bufando, reclamando, revirando-se na cama.

O box do banheiro é  uma estrutura plástica branca, sobreposta à cerâmica original, que denuncia mais de dois séculos de idade do prédio do Hotel Istria; por onde um dia estiveram Duchamps, Picasso, Modigliani, Rainer Maria Rilke, essa gente que aparece em comédias de época parisiense do Woody Allen. De fato, não é difícil ambientar-se em edificações do século XVII por aqui. Mas caminhar sobre pisos que rangem e cheiram a rapé de cubistas que viraram busto de bronze mundo afora… Essas pieguices atiçam o imaginário de quem vem do Novo Mundo. 34 anos de espera. Não precisava tanto. É natural que sobrem expectativas.

O café espreita por toda a cidade. Vou pelo chá, mas quero mesmo é vinho, que é o preço da água. Não importa. Qualquer um deles levará involuntariamente aos subterrâneos da cidade. É assim que se começa um dia em Paris. Cavando os degraus inacabáveis de um metrô que ignorou a modernidade e fez que não ouviu da invenção das escadas rolantes. Os subterrâneos de um metrô velho, feioso, mas eficaz. Aliás, uma instituição nessa cidade.

O suficiente para encontrar nele a resposta de algo inquietante: como pode o parisiense bater ponto nos achocolatados cremosos, comer pão puro com cerveja, ‘fromages’ de sobremesas, tiramissús do tamanho de potes de sorvete e estar sempre em forma?

Na capital francesa, como se sabe,  não se come a refeição à vista. Come-se, em Paris, em parcelas a se perder de vista. Entrada, antepasto, salada, sopa, prato principal, sobremesa… Vai mais um vinho?

No entanto, não há gente rechonchuda, fora de forma ou mal vestida nas cercanias do Sena. Ao menos eu não vejo.  Alguma lei deve os obrigar a serem magros, elegantes e a saberem combinar o blazer com o cachecol – que por aqui, aliás, é usado na cor rosa por homens de muita coragem. Mas não lembro de ter visto academias de ginástica pela cidade e, creio, que o parisiense médio faz um tipo intelectual demais para correr na esteira ao som da Beyonce.

Restou a tese do step involuntário ao qual o parisiense é investido diariamente nas escadarias do metrô, articuladas por conexões numa cama de gato que só francês entende. De malas na mão, cruzando-as do aeroporto ao hotel é boa malhação aeróbica.

O dia então amadurece. Com o sol a pino, salto na estação Étoile/ Charles de Gaulle, linha 9, Zona 1, encarado por um grande Arco de concreto que triunfa na intersessão de doze avenidas hermeticamente arborizadas. Uma delas chamará mais atenção. Mais pela fama do que pela estima, já que a Avenida des Champs Élysées não me faz a cabeça.

Paris é mais do que uma boulevard de quatro faixas cercada por vitrines que anunciam jóias e bolsas de sobrenome famoso a preço de automóvel. É bem mais do que uma avenida elegante, voltada ao abastecimento de uma elite de latinos e de esposas do médio oriente que fazem dela sua Meca há alguns anos.

É que quando me dou conta, Paris é um beco de paralepípedos de desenhos ondulares, cujo silêncio foi quebrado pelo ronco vintage de um motor de lambreta. Paris é uma esquina, em sépia, cruzada por passos de botas de couro, de uma bela mulher cujas curvas se espreguiçam dentro de um sobretudo bege.

Paris é então um encontro das Rue Balzac e Lord Byron, adornado por cinco andares de acabamentos em Art Nouveou e fitado pela película de algum diretor da Nouvelle Vague. Paris quer falar comigo; diz que é uma passarela disfarçada de calçada, onde as cadeiras ignoram as próprias mesas e, voltam-se à rua, servidas de cafés lotados a luz de um dia ordinário da semana.

Paris, no cair de uma tarde de quinta-feira, é uma farra voyeur,  onde todos se encontram lá fora, no final de um expediente que não existe, já que os escritórios só podem estar vazios e alguém haverá de ocupar mais um bate-papo  entre a cerveja belga e o crepe de nutella.

E sorvido por uma errância flâneur incontrolável, o dia passa por completo e quase não me dou conta. Do Arco do Triunfo a região do Grand Palais, costurando as amenidades da vida parisiense, uma ficção era escrita pela distração do passo, para ser eternizada dentro de uma caixinha de música de Monmartre. Um dia perdido em Paris vale mais do que qualquer outro encontrado.

Porque ir até lá também pode ser um fiasco: filas, ninguém fala inglês, pontos turísticos  ‘conquistados’, o Louvre parecendo shopping em véspera de natal.  Só se chega  a Paris, de fato, quando se desiste de ir até ela . É preciso deixar que ela encontre você.

É quando uma brisa úmida do Sena começa a sussurrar a pele; é quando o caminho por si só traceja o que de melhor Paris tem a oferecer: a vocação para a degustação do prazer do cotidiano. A Paris que veste o corpo, a casa, o prato, a taça, a paisagem ou mesmo a própria vida que passa a não se confundir mais com a realidade.

Daniel Marinho

 

A “renomização” das ruas caretas do Rio

Por Daniel Marinho

Silêncio no Tribunal, arreiem as calças do general! E as placas de esquina também porque não dá mais tanta rua com o nome do camarada… Dele e de aristocratas vencidos, políticos bicentenários de mérito duvidoso e latifundiários escravocratas do século XVIII.

Ainda mais num lugar alcunhado de… Rio de Janeiro. Que sacada de marketing involuntária a do destino. Deixar um descobridor português perdido, cinco séculos atrás, confundir nossa baía no ápice do verão carioca. Vai que a Nau se atrasasse! Já pensou nisso? Moraríamos no Rio de Agosto? Meio hibernal. Para uma cidade que se vende de praias tropicais…

É o que eu digo, o nome é essencial. Imagine – num passado não muito distante – um pesadelo no qual a família Sarney dominaria, para além do Maranhão, a politicalha da Guanabara. E a capital seria rebatizada de “José do Ribamar Sarney”. Daria bossa? “Minha alma canta… vejo José do Ribamar…” João Gilberto ficaria rimando “quén, quén” em Juazeiro mesmo e Jobim acabaria fazendo concurso para escriturário…

E o que dizer dos bairros cariocas? É som com sabor: “I-pa-ne-ma”; “Gu-a-ra-ti-ba”; “Ma-ra-ca-nã”; “Hu-ma-i-tá”; “Gra-ja-ú”… Temos de mastigar “a” quatro vezes para falar “Co-pa-ca-ba-na”. Mas e se homenageassem Honório Gurgel por ali mesmo, entre o Leme e Ipanema?  Seu Honório se sairia uma boa Princesinha do Mar?

Nome bom já é metade do resultado garantido; uma rua com o nome de Leopoldo Bulhões não vai vencer na vida! É por isso que proponho aqui uma reclassificação de nossos asfaltos, em favor da poesia a que faz jus essa cidade fluvial: o Riacho Leitoso (era uma baía) de Janeiro. Aliás, não só dele. Do ano inteiro.

A Avenida Delfim Moreira, por exemplo. Tanto lugar para homenagear Dr Delfim e vão escolher o metro quadrado mais caro do País… A praia do Leblon é da família do Dr? Então vamos ao brainstorming:  Avenida da Maré Mansa e Água Fresca,  Avenida Sombra de Coqueiro, Boulevard Ninfas du Biquíni, Travessa do Banho de Sol Travêsso?

A Rua Bulhões de Carvalho – inconteste campeã mundial dos trocadilhos infames! Por que insistir nesse auto-vexame? Parece masoquismo… Muda para Boulevard das Tulipas Provençais, Rua du Brie com Damasco, Travessa La Dolce Vida, Avenida Sauvignon Blanc, sei lá! Garanto que o metro quadrado valoriza!

Por que a Almirante Alexandrino, de Santa Teresa, não vira logo “Estrada da Good Trip”? Todo mundo acha que o povo de lá só anda chapado mesmo… Na praia dos surfistas, no Arpoador: Rua Aloha! As curvas longas da via do Aterro do Flamengo dariam origem, não a outra Linha cromática do Lacerda, mas a “Linha das Silhuetas do Burle” e a Viera Souto, em homenagem a “fumacinha” da rapaziada, Boulevard du Paz e Amor!

E essa coisa sem sentido de homenagear artista com o nome completo que ninguém conhece? O Cazuza ganhou a Escola Estadual Agenor de Miranda Araújo Neto. E aí eu pergunto: quantos ligam o nome à pessoa? Não é tão difícil assim vai: “Escola Pro Dia Nascer Feliz”, “Escola Um Trem para as Estrelas”, “Escola Todo Amor que Houver nessa Vida”. Se fosse rua, votava na “Rua do Sabor de Fruta Mordida” ou na Avenida do Exagerado – com os limites de velocidade da lei, claro.

E não é? Por que ao invés de Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, não descemos no Aeroporto do Samba do Avião? Pensa que é sacanagem? Aposto dinheiro que muito gringo estaria fazendo fila para tirar foto em frente à placa do aeroporto!

E quando o Caetano morrer? Será a Avenida Caetano Emanuel Vianna Teles…? Depois de tanta dica do cara: Estrada da Meia Lua Inteira; Rua Samba de Verão; Avenida Trem das Cores; Rua Sem Lenço e Sem Documento; Estrada das Outras Palavras?

Daí então, a Avenida Lucio Costa, na Praia da Barra,  viraria a “Avenida Bronzeada de Sol; a Av Mem de Sá – point dos fanfarrões da Lapa – Avenida da Gargalhada Gaiata e a Niemayer, Estrada Desfiladeiro do Paraíso.

Há também as ruas mais gustativas! Convenientes aos Pólos Gastronômicos – como o de Botafogo, por exemplo – onde agora o Plebeu, o Informal e o Ipiati seriam recortados pela “Travessa ao Molho Pesto”, “a Rua à Piamontése”, a “Via do Cupcake de Limão”, e – representando a alta gastronomia – a “Travessa Creme de la Creme”.

Parada de Lucas ganharia, enfim, a Avenida Pétalas da Primavera; os inferninhos de Copa, a Travessa Travêssa do Prazer Imediato. As avenidas Churchil e Presidente Roosvelt – que não nos dizem respeito em nada – dariam voz a Jackson do Pandeiro com o cruzamento da “Avenida Só ponho o beebop no meu samba” com a “Rua Quando o Tio Sam pegar no tamborim”. E a Tijuca honraria não um fazendeiro que ninguém viu mais gordo, o Barão de Mesquita, mas seu filho mais nobre – e gordo também -, o “Síndico”, para matar as saudades da praia distante na “Rua Azul da Cor do Mar”.

Ingenuidade? Melhor começar por ela mesmo…

Aplainando a longa a Estrada da Utopia.

Daniel Marinho
Crônica originalmente publicada no Curta Crônicas

Conversa de Bar (e o teste do elevador)

Dizem que isso tudo começou com os Sumérios que já entornavam a jarra na taverna muito antes de a Baviera e o Lula existirem. Daí pra frente, só variou de nome: conversa de birosca, bodega, bar, baiúca, tasca, cantina, “butiquim” (com “u” e “i” que lhe são de direito), barzinho, pub, boteco, bistrô, taberna, pé sujo, e por aí vai…

E vai até onde der mesmo, porque conversa de bar só anda de ida e não assume compromisso com lugar algum. Ronda trôpega pelos mesmos grandes temas da humanidade de sempre – ainda que disfarçados aqui e acolá de alguma erudição – e segue como que numa novela eterna de próximos capítulos, intervalada pelos compromissos da luz do dia.

Ainda assim, realmente creio que o chamado bate-papo é mesmo uma cria do bar. Imagina uma reunião de ‘cumpadres’ às margens do Rio Eufrates antes da invenção da escrita, do rock, do cinema, do futebol, da política, da fidelidade, da igreja, das musiquinhas insuportáveis do momento… Falar-se-ia de quê? Era uma falta de assunto Sumérica! Daí a fermentação da cevada datar-se de mais de 4 mil anos antes de Cristo. Sem ela, a humanidade nem arriscaria a evolução. Pergunta aos aborígenes que não a conheceram?

Foi assim que primeiro Deus criou a cerveja; de onde nasceu a contemplação; que, por sua vez inventou o conflito; de onde nasceu o assunto, para este, por fim, assentar os alicerces de sustentação da conversa de bar… Só daí então, chegamos a esse mundo dos aplicativos do IPhone. Tá tudo nos Manuscritos do Mar Morto…

Porque o bar é uma de nossas ágoras contemporâneas; e é na conversa de boteco – ou de ambientes de conseqüências análogas – que se extravasam os anseios e angústias mais viscerais, sem se dar muita trela para o que pensa o Pajé da tribo. Um ambiente social de confluência de ideias, ainda que nem sempre durem mais de uma noite.

E as demais oportunidades de parola? Não são iguais. A conversa de boate, por exemplo. Um paradoxo em si; ouve-se alguma coisa? Não há. A conversa de fila de repartição pública? Uma ode à reclamação da vida, do tempo, do governo, da dor nas costas… também não é conversa.

Aliás, há algo mais blasé do que a conversa de elevador? Tem coisa mais chata, mais sem assunto do que ficar batucando na porta pantográfica ou discutindo se vai ou não chover amanhã?

Conversa de portaria há, mas com ressalvas! Futebol, novela ou no máximo, falar mal do governo; e mesmo assim que não se entre em detalhes porque a conversa volta ao futebol!

Conversa de ônibus, que pode contar com assiduidade dos atrasos do transporte público, até dá pano pra manga, mas conversa de taxista, convenhamos, não dá. Chega uma hora que o assunto se esconde, não agüenta mais ficar ali e termina virando conversa de elevador também!

No bar já não é assim, você distrai e já se vê correlacionando Deleuze com a conta de Gás. Tem espaço para tudo, ainda que muitas das vezes ninguém tenha propriedade alguma sobre o assunto. Até porque em dado momento ninguém liga. E com exceção da conversa de mictório – de longe a mais medíocre do gênero – no bar é, pelo menos, mais difícil alguém sair-se com a perguntinha infame: “será que chove amanhã?”.

Por que é assim funciona o ardiloso Teste do Elevador. Por quanto tempo? Até quando o sujeito resiste até abrir o pleito da previsão do tempo?

Eu, se fosse Meteorologista, só usava escada!

Daniel Marinho